Semanário Regionalista Independente
Domingo Junho 25th 2017

3) O ridículo nome de “agricultura biológica”

Num Suplemento com o título “Agricultura Biológica”, o “Jornal de Sintra” de 14-11-2008 publica um artigo do  Dr. José Furtado Mateus, Delegado de Saúde de Sintra (aposentado), com o título “Sobre agricultura e saúde” e com o subtítulo “O Jornal de Sintra, na edição de 25 de Abril de 2008, publicou um artigo do sr. Prof. Miguel Mota, com o seguinte título: O ridículo nome de agricultura biológica. Tão insólito título provocou a necessidade de esclarecer o público em geral, com vários dados científicos e não só, para que possa decidir e compreender, de que lado está a transparência, versus opacidade”.

Temos de dividir esse texto em duas partes: uma o caso da terminologia a aplicar a determinado tipo de agricultura; a outra os benefícios que ela pode dar e os malefícios das outras alternativas. Como ficou bem claro logo no início do meu escrito (Não vou discutir a metodologia do que chamam “agricultura biológica”) só tratei da designação de “agricultura biológica” pois, como ali disse, enquanto as fábricas não fizerem couves sintéticas e bifes sintéticos, TODA a agricultura é biológica. Portanto, todos os outros considerandos do Dr. Mateus não me podem ser aplicados pois não tratei desse assunto.

Dá uma definição de Biologia e diz que “Biológico – o que é relativo a Biologia”. Um “ser biológico” – designação que certamente não contesta – é algo com vida e que tem como característica fundamental possuir um código genético, que lhe permite, ao reproduzir-se, transmitir à sua descendência todos (no caso da reprodução assexuada) ou uma parte (na reprodução sexuada) dos seus genes. (É claro que faço estas considerações para os leitores que estejam mais longe destes assuntos, pois um médico está perfeitamente familiarizado com elas e poderia ser considerado um insulto se se pensasse que as dirigia ao Dr. Mateus).

Uma couve que foi adubada com sulfato de amónio continua a ser um “ser biológico”, com o seu código genético. É por isso que considero ridículo dizer que há “couves biológicas”, ou quaisquer outros produtos agrícolas, como batatas, peras, porcos ou vacas, como alternativa a outros produtos idênticos que o não são.

A actuação da União Europeia em matéria da Agricultura é, desde há vários anos e mesmo antes da entrada de Portugal, uma acumulação de erros que bem caro têm custado à economia dos estados membros. Teve um excelente início, com a sua Política Agrícola Comum (PAC), especialmente devido à acção do brilhante agrónomo holandês Sicco Mansholt e resolveu o grave problema alimentar duma CEE (inicialmente apenas com seis países) deficiente em 50% de produtos alimentares. Essa situação era grave não apenas do ponto de vista económico (exigindo avultadas importações), mas também da defesa pois, em caso de conflito, os povos são mais facilmente derrotados pela fome do que pelos canhões. Os erros que começaram a ser cometidos a partir de certa altura e que continuam a ser cometidos por Comissários e Ministros da Agricultura que têm mostrado elevado grau de incompetência (como em vários escritos já denunciei) atingem até pontos bem mais graves que a terminologia. É lamentável que alguns países mostrem não saber o que é um “ser biológico”, como Portugal e a França que falam de “couves biológicas” (como se houvesse outras!) ou como a Inglaterra, que fala de “agricultura orgânica” (como se houvesse “couves inorgânicas”!). É por isso que, para esse tipo de agricultura e sem nada alterar nas práticas que defendem, entendo que deviam usar uma designação mais apropriada. Considero que “agricultura ecológica”, como é usada pela Espanha, pode considerar-se adequada, por se aproximar das condições ecológicas naturais. Sobre o resto do escrito que, como mostrei, nada tem a ver com o meu artigo, pois nele só tratei da terminologia, gostaria de fazer algumas considerações. E começo por dizer que tudo o que se fizer para incrementar a colaboração entre médicos e agrónomos tem o meu completo apoio. Mas nem todos estão “de costas voltadas” e, ao longo da minha vida vi – e nalguns casos colaborei – acções conjuntas de pessoas dessas duas formações.

Lembro algumas palavras do discurso do Professor (médico) Fraga de Azevedo, na Academia das Ciências, ao fazer o elogio histórico do Prof. (engenheiro agrónomo) Joaquim Vieira Natividade, que transcrevo: “Mas, além do paralelismo dos seus métodos, os médicos e os agrónomos encontram-se de mãos dadas, sobretudo na convergência simultânea dos seus grandes e tantas vezes incompreendidos esforços a favor do bem estar da humanidade”. Estou a recordar-me que, ainda estudante, participei com uma comunicação num congresso regionalista, organizado na sua quinta aqui no concelho de Sintra por um ilustre Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, com a participação de vários engenheiros agrónomos e em que a agricultura foi tema muito importante. Além de colaborações várias, tenho pelo menos um “paper” científico assinado por mim, um médico e um botânico. Há muitos anos, um trabalho meu sobre cromossomas, realizado com raízes de cebola (usando o método conhecido como “Allium test”) recebeu do Instituto Português de Oncologia o “Prémio A. J. da Silva Pereira” para investigação ligada ao problema do Cancro. Está publicado no “Arquivo de Patologia”, a revista do Instituto, pois essa era uma das condições do prémio. Em 1962-1963 trabalhei um ano no Institute for Cancer Research (hoje Fox Chase Cancer Center) em Filadélfia. Durante um dos meus mandatos como Presidenteda Sociedade Portuguesa de Genética, assinei um protocolo com o Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (onde, naturalmente, predominam os médicos) no sentido de dar, em reciprocidade, aos sócios da outra sociedade, os mesmos direitos dos sócios da que organiza congressos ou outras reuniões. (Peço desculpa de usar o meu caso pessoal mas, além de ser o que melhor conheço, creio ser inegável a sua relevância para demonstrar colaboração entre agrónomos e médicos e que, além das metodologias, há uma “convergência simultânea dos seus grandes e tantas vezes incompreendidos esforços a favor do bem estar da humanidade”, como disse o médico Prof. Fraga de Azevedo atrás citado). Posso ainda adiantar que as XXXIV Jornadas Portuguesas de Genética (da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Genética, actualmente presidida por um agrónomo), que se vão realizar de 28 a 30 de Abril de 2009, estão a ser organizadas sob a presidência dum Professor Catedrático da Faculdade de Medicina. Será que, perante estes exemplos – muitos outros haverá – podemos dizer que médicos e agrónomos estão de costas voltadas?

A agronomia e a medicina não são ciências exactas. Por insuficiente conhecimento, é possível em qualquer delas cometer erros, que devemos evitar e corrigir. O Dr. Mateus refere o caso do cálcio no combate à osteoporose, que não é absorvido se não for acompanhado de magnésio. A talidomida foi um dos casos mais trágicos. Por esse facto, alguns produtos usados na agricultura por algumas boas propriedades, foram proibidos sempre que se lhes atribuíram alguns maus efeitos, como foi o caso do DDT.

É vulgar ouvir elogiar muito os “produtos naturais” como se essa característica automaticamente os tornasse inofensivos, o que não é verdade. Basta lembrar como são venenosos alguns cogumelos como a Amanita phaloidesou plantas como a cicuta (que matou o Sócrates) e várias outras para que a condição de ser “natural” nada nos diga sobre as vantagens de qualquer produto. Muitos produtos naturais, usados para tratar doenças, contêm compostos que causam efeitos secundários graves. O gengibre, que tem algumas boas qualidades, também afecta o estômago e causa sérias insuficiências renais. Uma vantagem de alguns produtos de síntese – muitos deles sintetizados depois de ser conhecida a sua acção a partir de plantas, como o bem conhecido caso da aspirina – é que não vêm acompanhados de outros nocivos.

O Dr. Mateus escreve sobre a importância do húmus. Totalmente de acordo. É um facto elementar que a matéria orgânica é um dos mais importantes factores da fertilidade do solo. Em artigos, tanto para agricultores como para o grande público, várias vezes tenho insistido nas vantagens da compostagem e até elogiei a Câmara Municipal de Oeiras – o concelho onde moro há muitos anos – pela sua acção de estímulo e ajuda à prática da compostagem nos quintais. À vantagem do aumento de fertilidade do solo junta-se a de não ter de transportar e “armazenar” muitas toneladas de lixo. E, nesse tipo de aproveitamentos, um jornal publicou recentemente uma carta minha lembrando que a cinza das lareiras é um excelente adubo fornecedor principalmente de fósforo e potássio. Muitas das normas que defendem são regras gerais de boa agricultura e vários delas ensinei aos meus alunos dos cursos de engenharia agronómica.

Sobre os adubos químicos, começados a usar na segunda metade do século XIX – e que foram a razão de ser do início da famosa Estação Agronómica de Rothamsted, em Inglaterra – pode dizer-se que, se não fossem eles mais de metade da população do mundo já teria morrido de fome. Houve – e continua a haver – casos de desequilíbrio? Claro, como noutrossectores pois, repito, agronomia e medicina não são ciências exactas. Como quando, ao ajudar uma mulher que não conseguia engravidar se originaram gestações com sete fetos. Sempre que ocorrem erros, se não foi possível evitá-los, há que corrigir e impedir novos, como no exemplo da osteoporose referido pelo Dr. Mateus.

Dizer que, por se usar P+K+N (e não Ph como certamente por lapso, ali se refere três vezes) se esqueceram os oligoelementos, não é afirmação justa. Há mais de cinquenta anos um dos brilhantes trabalhos de investigação da Estação Agronómica Nacional (agora a ser destruída e até “oficialmente” extinta!), ainda em Sacavém, foi a solução do problema da “maromba” das vinhas do Douro, detectada como uma deficiência de boro e preconizada a terapêutica. Só a solução desse caso dava (e continua a dar), anualmente, à economia do país, o dobro de todo o orçamento da Estação Agronómica. Não é por acaso que a agricultura portuguesa e, como consequência, a economia portuguesa estão como estão. Pedindo desculpa de, mais uma vez, citar o caso pessoal, lembro que, num livrinho “O Pomar”, de divulgação agrícola elementar, que publiquei há muitos anos, não deixei de referir a importância do boro nas macieiras, para evitar os nódulos com aspecto de cortiça no interior dos frutos. Se chamamos agricultura química àquela que usa produtos de síntese e agricultura biológica à que os não usa, teremos de usar a mesma designação para a medicina e teríamos uma “medicina biológica”, aquela em que o médico só receita produtos naturais e nunca de síntese.

Miguel Mota
Ex-Presidente da Direcção e actual Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Genética
Fotos: Flickr
Artigo da edição de 26 de Dezembro de 2008

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