Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Abril 24th 2017

2) Agricultura Biológica é sinónimo de Saúde Sobre agricultura e Saúde

O Jornal de Sintra, na edição de 25 de Abril de 2008, publicou um artigo do sr. Prof. Miguel Mota, com o seguinte título: O ridículo nome de Agricultura Biológica. Tão insólito título provocou a necessidade de esclarecer o público em geral, com vários dados científicos e não só, para que possa decidir e compreender, de que lado está a transparência, versus a opacidade.


Previamente recordo algumas definições/ conceitos

Biologia – é a ciência que estuda os seres vivos, os fenómenos vitais e as suas leis.

Biológico – o que é relativo a Biologia.

Uma dessas leis é a da Harmonia e Equilíbrio entre os vários elementos que formam a matéria viva.

A arte de trabalhar a Terra, para produzir alimentos tão indispensáveis à vida designa-se por agricultura. É conhecida por vários nomes, sinónimos, tais como: Natural, Biológica, Orgânica, Ecológica, Biodinâmica.

No primeiro quartel do séc. XX, mercê das descobertas da Química, surgiu em força a Agricultura Química, feita com base nos adubos químicos solúveis.

Nenhuma actividade humana, nem mesmo a medicina, tem tanta importância para a saúde como a agricultura. “Enquanto médicos e agricultores viverem de costas voltadas, a saúde pública será medíocre ou má” (Prof. Pierre Delbet). O famoso complexo mineral fósforo (Ph) + Potássio (K) + Azoto (N) foi revelado ao mundo científico pelo investigador alemão J. Von Liebig já no séc. XIX. Ele provou que estes três macronutrientes, sob a forma de fosfatos, nitratos e adubos potássicos, solúveis e de síntese, faziam crescer os vegetais de forma exuberante, acima da média. Estava lançada a era da agroquímica.

Como é de calcular seguiu-se uma grande euforia, de tal modo, que no início do séc. XX já havia várias unidades industriais a produzir os referidos adubos químicos. Como é habitual o reverso da medalha surgiu mais tarde.

Admite-se que há cerca de 15 minerais essenciais entre eles o Magnésio (Mg) como macronutrientes e a falta, excesso ou diminuição de qualquer deles, perturba o funcionamento regular do todo. A agro-química originou situações de desequilíbrio mineral e na formação do húmus e assim surgiu a patologia com aparecimento de doenças, tanto no reino vegetal como no reino animal, homem incluído.

Na Medicina costumo citar o seguinte exemplo: a osteoporose (descalcificação do esqueleto) é uma doença muito frequente, com maior incidência nas mulheres. Experiências científicas e estudos recentes revelaram que a deficiência em Mg (magnésio) é acompanhada de hipocalcémia, quer dizer, baixa de cálcio (Ca) no sangue. Dito por outras palavras, a carência em Mg perturba e impede a absorção do Ca.

Assim, dar Ca a doente sem corrigir a deficiência em Mg é uma perda de tempo e uma ilusão, que se paga cara, em sofrimento e despesas.

É do conhecimento geral que há muitas pessoas a tomar Ca, meses, anos e anos seguidos, sem obter qualquer melhoria. Se algum leitor médico tiver conhecimento desta informação, peço que veja o seguinte livro: Nutricional Influences on Illness – 2.ª ed. de 1996 – Melvun R. Werbach – M.D.Third Line Press, Tarzana – Califórnia – USA.

A agro-química e as alterações na saúde dos solos

A Agro-Química com a introdução maciça do complexo (Ph + K + N) veio esquecer os outros 12 companheiros essenciais, os chamados minis ou oligoelementos. Alterações acentuadas começaram a surgir no equilíbrio e saúde dos solos, dos vegetais, dos animais e do Homem.

A composição dos alimentos, o seu valor na protecção da saúde e o sabor, variam muito de acordo com o equilíbrio dos solos e do Húmus. Os espinafres oriundos de terrenos tratados com adubos azotados de síntese, podem conter 100 vezes mais nitratos (NO3) que os espinafres criados de modo natural, ou seja em Agricultura Biológica (Agro-Bio). 100 grs. de espinafres na Agro-Bio – tem 2 a 3 mg NO3. 100 grs. de Espinafres da Agro-Química – tem 200 a 300 mg NO3.

A minha experiência confirma que: quem comer uma sopa de espinafres com excesso de NO3, e, engrossada com batatas por sua vez com excesso de K, no dia seguinte pode sentir-se doentes com um síndroma semelhante a uma gripe ou constipação. Não se trata de uma virose, mas sim de uma alteração bioquímica. Aconselho calma, saiba esperar, pois 24 a 48 horas depois, estará bem. Se a ansiedade dominar, vai ao médico e regressa a casa com uma receita que terá possivelmente um antibiótico, um antitússico, aspirina, um vasoconstritor das fossas nasais, etc.

No segundo quartel do séc. XX (1925-1950) começaram a surgir os primeiros estudos e trabalhos que chamaram a atenção para o reverso da medalha. O próprio Dr. J. Von Liebig que estudou e revelou os segredos e a importância dos minerais, decorridos alguns anos da sua descoberta, começou a denunciar os abusos, a aplicação cega e incorrecta e lucrativa, dos seus trabalhos.

Em 1950, em Paris, durante uma visita de estudo, tive a sorte de entrar numa livraria e comprar os seguintes livros: Agriculture et La Santé, Politique Preventive du Câncer, ambos da autoria de Pierre Delbet, que foi eminente professor de Cirurgia na Universidade de Paris, na primeira metade do séc. XX. O outro livro foi Equilibre Mineral et Santé de Joseph Favier, que foi sacerdote, professor de Ciências Naturais, biologista e investigador. Estes livros reforçaram a minha convicção sobre a importância da agricultura, versus, saúde, quando exercida correctamente.

O estado francês em 1918, retomou a propriedade das minas de potássio da Alsácia- Lorena, região que esteve na posse da Alemanha durante várias dezenas de anos. A seguir o governo francês publicou uma lei sobre os adubos, onde reconhece e admite como um adubo completo o tal complexo Ph+K+N – fósforo+potássio+azoto. Depois lança intensa campanha para exploração e venda do K das minas da Alsácia. Procura convencer os agricultores, franceses e não só, que chegam os três elementos antes referidos, para obterem boas colheitas e revitalizar os solos. Isto foi um dos erros mais graves, jamais cometidos em política agrícola. Os desaires começaram a surgir. Começa a luta pelo retorno ao bom senso, defesa da vida e equilíbrio ecológico.

No noroeste da França, numa determinada quinta, a algumas dezenas de quilómetros de Paris e onde os terrenos não têm Mg e são pobres em Ca, quando chegava a Primavera acontecia o seguinte: as vacas e vitelos eram lançados em pastoreio livre para utilizarem a forragem verdejante; no dia seguinte os animais adoeciam, ventre dilatado, com distensão dos intestinos, por aumento dos gases e enfraquecimento.

Os agricultores e criadores de gado, em Portugal, dizem que o animal está aventado, querendo significar que há vento a mais! Em certos casos em que a distensão é excessiva e arrisca a vida do animal, o veterinário faz uma punção, para dar saída ao “vento”! As pessoas e bebés que utilizavam o leite destas vacas também adoeciam com perturbações intestinais e mal-estar. Chamados os técnicos, veterinários, agrónomos, médico e outros ficaram sem perceber o que se passava e levantaram a hipótese de uma nova virose. Ontem, como hoje, quando não se percebe a causa de qualquer coisa, surge a hipótese de um vírus raro. Alguém se lembrou do já famoso professor Joseph Favier e foi buscá-lo. Chegado ao local, abriu a caixa para as análises e começou a fazer o estudo do terreno. Conclusão: enorme excesso de K, ausência de Mg e pobre em Ca. Além dos adubos químicos recomendados pelo governo, o terreno era regado com a urina dos animais, que é muito rica em K. Tratava-se de um profundo desequilíbrio mineral.

Corrigida a situação, com a aplicação da Dolomite (carbonato duplo de Mg e Ca) – proibida a rega com urina, ensinada a compostagem para obtenção de um húmus de qualidade, a situação normalizou. Por outras palavras, pode dizer-se que a doença levantou voo, tal como a água do mar se evapora, quando o sol lhe bate forte.

Adubos químicos, pesticidas e…saúde

Depois dos adubos químicos de síntese N-P-K, vieram os pesticidas, na segunda metade do século XX. Com a II Guerra Mundial é testado o famoso insecticida DDT, em desinfestação dos soldados americanos, fumigados com o produto. Este insecticida organoclorado é facilmente absorvido pelo corpo e acumula-se nas gorduras, provocando várias mazelas, incluindo o cancro. O DDT foi por isso proibido na agricultura na Europa no início da década de 70, mas 10 anos após a sua proibição em França, ainda foram encontrados resíduos no leite materno nesse país, e também em Portugal, nalguns casos em teores bem acima do aceitável pela Organização Mundial de Saúde. Após o DDT muitos outros pesticidas foram produzidos e vendidos para a agricultura. Apesar da proibição de alguns deles pela Comissão Europeia (Direcção Geral de Saúde e Consumidor), a 30 de Dezembro de 2005 ainda eram comercializados em Portugal 261 substâncias activas, cuja toxicidade para animais mamíferos incluindo o homem, é a seguinte:

– 8 muito tóxicas, 38 tóxicas, 46 cancerígenas, 6 mutagénicas, 43 com efeitos na reprodução, 48 com risco de lesões oculares graves, 46 perigosas para os pulmões e, ainda, 7 com efeitos preocupantes.

Na Europa, em 2004, estavam identificados 48 pesticidas disruptores endócrinos (desreguladores hormonais). Estes pesticidas actuam no corpo humano em doses ínfimas, pelo que mesmo valores abaixo do limite máximo de resíduo (LMR) autorizado por lei, não são seguros. As análises de resíduos de pesticidas feitas na Europa (incluindo Portugal), mostram que 30 a 40% dos alimentos analisados contêm pesticidas, com uma ou mais substâncias activas. No caso de resíduos múltiplos, o risco para a saúde humana aumenta. Destas amostras, cerca de 5% em média estão acima do LMR, ou seja, estão impróprias para consumo. E mais algumas abaixo do LMR mas com pesticidas disruptores endócrinos e/ou cancerígenos, também não são recomendáveis para a alimentação. Apesar da ideia geral de que só os frutos e hortícolas podem conter resíduos de pesticidas, estes surgem também noutros alimentos – cereais, produtos transformados como o concentrado de tomate e o vinho, produtos de origem animal, como o leite, veículo de eliminação de resíduos.

Na produção animal a situação das últimas décadas não é melhor que a produção vegetal. Com excepção de produção pecuária extensiva, que ainda se pratica nalgumas zonas interiores do país, em particular com animais de raças autóctones (vacas, ovelhas, cabras, porco preto de montanheira!), a restante é muito intensiva. Foi atingido o extremo nas chamadas pecuária sem terra, completamente desligadas da actividade agrícola, em que o animal já não é mais tratado como tal mas como unidade de produção. É o caso das suiniculturas e dos aviários de frangos de carne e galinhas poedeiras, em que os animais nunca saem à rua, são tratados com grande quantidade de antibióticos, alguns até proibidos (caso dos nitrofuranos) e, por vezes, com hormonas de crescimento, apesar da sua proibição na Europa.

Não há um mínimo de respeito pelo animal, pelo seu bem-estar, chegando-se ao ponto de transformar herbívoros em carnívoros, como foi o caso das vacas alimentadas com farinhas de carne, de sangue e de ossos, o que deu origem à doença das “vacas loucas” ou encefalopatia espongiforme bovina (BSE) e subsequente variante humana, com algumas mortes registadas, quer de vacas quer de pessoas, fenómeno a que Portugal não ficou imune.

Com estas práticas agrícolas e pecuárias, como pode alguém dizer que toda a agricultura é biológica. Não, a agricultura das últimas décadas não respeitou a vida, das plantas, dos animais domésticos, dos insectos e outros organismos auxiliares (mortos pelos pesticidas de largo espectro de acção e altamente tóxicos), dos organismos do solo como as minhocas, as bactérias e os fungos, dos organismos aquáticos e, finalmente, do próprio homem.

Foi, e ainda é, uma agricultura que baseou o aumento de produção num grande gasto de factores de produção externos à exploração agrícola e muito dependentes da energia do petróleo (fabrico de adubos químicos, de pesticidas, gasóleo, energia para rega, etc.), ao ponto de muitas vezes a energia produzida nos alimentos ser inferior à energia fóssil gasta!

A origem da moderna agricultura biológica

Julgo que foi o respeitável professor Pierre Delbet, uma das primeiras pessoas a dizer e escrever a expressão “Agricultura Biológica”. Fez muitas comunicações à Academia das Ciências e ao governo francês, a demonstrar os erros que a agro-química estava a cometer. Estudou e demonstrou que a defesa da Saúde Pública, caminha em estreita ligação com uma agricultura bem-feita, com adubos orgânicos e com respeito pelas leis naturais. Uma delas é a Lei da Harmonia e Equilíbrio, já referida no início. O movimento para o retorno a uma agricultura equilibrada e sã, surgiu há várias dezenas de anos e hoje, já conta com vários milhões de aderentes pelo mundo fora, a pensar deste modo.

O termo Agricultura Biológica está aceite oficialmente pela União Europeia e também por outros países, embora, como já referi, se chame Agricultura Ecológica em Espanha e Agricultura Orgânica em Inglaterra. Em Portugal, no terceiro quartel do séc. XX, conheci um inteligente empregado bancário que, simultaneamente, se fez agricultor, na sua quinta perto da Trafaria, por cima do Porto Brandão. Começou por refutar os adubos químicos e fazer a compostagem e obter um húmus equilibrado. Tinha um sistema de rega interessante, com uma pequena bomba submersível, no poço, que puxava a água de modo intermitente, quando necessária. Tive o grato prazer de o visitar dias vezes e numa dessas visitas, mostrou-me um aparelho que estava aperfeiçoando, para trabalhar a terra com leveza e de maneira simples. Ele foi pioneiro já na década de 1970.

Porém, o verdadeiro arranque deste movimento no nosso País, coincidiu com a vinda do Eng.º Jean Claude Rodet de nacionalidade francesa. Procurou-me no Centro de Saúde de Sintra em 1978, por indicação de Júlio Roberto, e disse-me do desejo de traduzir os seus livros para a língua portuguesa. Começaram os nossos contactos de trabalho, fez várias lições na Quinta do Júlio Roberto, na Charneca, Póvoa da Galega, freguesia do Milharado. Em 1983 e 1984 tivemos várias reuniões de trabalho para definir os contornos da futura associação portuguesa que ia dirigir o movimento para uma agricultura sã.

No dia 15 de Fevereiro de 1985, após uma assembleia geral muito movimentada, em Lisboa, foi constituída a Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, com a sigla “Agro-Bio”. Actualmente e desde vários anos, a sua sede é na Calçada da Tapada, 39, r/c, Dt.º – Lisboa (1300-545). Nada temos contra a ciência, pelo contrário, somos seus admiradores. Porém, lutamos pela aplicação correcta e equilibrada das admiráveis descobertas dos últimos 150 anos, em defesa do meio ambiente e da vida. Trata-se de um problema geral, que interessa a todos. Há que defender a saúde da Terra, pensando no futuro dos nossos filhos e netos.

Notícia da última hora: hoje, dia 26 de Maio, recebi a importante notícia que o Instituto Superior de Agronomia em Lisboa, tinha criado a cadeira semestral de Agricultura Biológica e convidado o Eng.º Prof. António L. Aleixo para leccionar a referida disciplina. Este por sua vez, convidou o Eng.º Jorge C. Ferreira para seu colaborador e assistente. Ainda bem! Tudo que nasce, mexe, cresce, fenece e parece, só um grande ideal – Permanece!

P.S.: O movimento da Agro- Biologia nasceu da necessidade de corrigir os erros e desequilíbrios que a Agro- Química provocou nos solos, nos reinos Vegetal e Animal e finalmente na Saúde Pública. Esperamos que o sr. Prof. Miguel Mota ao ler os nossos desabafos sinta necessidade e vontade, de eliminar o ridículo nome que atribui à Agricultura Biológica.

Texto: José Furtado Mateus
Delegado de Saúde em Sintra (aposentado)
Fotos: Flickr
Artigo da edição de 14 de Novembro de 2008

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