Semanário Regionalista Independente
Sábado Setembro 23rd 2017

5) Excertos de um trabalho publicado na Revista Portuguesa de Arqueologia, em 2003

A Ermida do Espírito Santo (Sintra): intervenção arqueológica realizada em 2001

NR: Trabalho sobre a intervenção arqueológica preventiva realizada na Ermida quinhentista dedicada ao Divino Espírito Santo, em S. João das Lampas, que ao que tudo indica terá sido construída no âmbito de festas em honra do Espírito Santo e votada ao progressivo abandono quando as festas deixaram de se realizar com a pompa de antigamente naquela freguesia.

“A Ermida do Espírito Santo localiza-se na povoação de São João das Lampas (concelho de Sintra), sede da freguesia epónima, junto à estrada municipal para Bolelas (Coord. UTM 29SMD656029).

Implantada na extremidade sul do denominado Rossio de São João, a actual disposição denuncia o seu carácter descentrado face à Igreja Matriz de São João Baptista, com a qual estava intimamente ligada, sobretudo nos cortejos da Festa do Divino Espírito Santo.

(…) No telhado da nave, sobre a fachada principal, cujo portal principal exibe um simples arco de volta perfeita, é possível observar uma cruz que ostenta para além da inscrição ‘ESPRIT SÃ/TO’, a data de 1572, época em que terá ocorrido uma reforma pós-tridentina do imóvel.

Atrás da Ermida localizam-se algumas casas arruinadas, onde porventura poderá ter funcionado, no século XVIII, a Confraria do Espírito Santo.

O terminus ante quem em torno do século XIV para a sua origem estará certamente relacionada com a instauração das Festas em louvor do Divino Espírito Santo pela Rainha Santa Isabel. Diz-nos João da Silva Marques, no decurso da sua aturada recolha documental: ‘A Instituição desta usança remontaria, assim, a uma data posterior a 1287, data da doação de Sintra à Rainha, e anterior a 1336, ano da sua morte’ (Marques, 1938). Tal facto relacionar-se-ia com a autorização da monarca para a realização das ditas festas no interior dos ‘seus’ paços na Vila de Sintra, difundindo a partir de então esta prática para as paróquias rurais.

(…) As festividades ocorridas em São João das Lampas em honra do Divino Espírito Santo datam, aparentemente, dos finais do século XVI (Cabral, 1982-83, p.822), talvez como derivação do que acontecia na própria vila de Sintra: ‘No século XVI a vila saloia [Sintra] é (…) o palco renascentista dos saraus e torneios literários, das representações teatrais, das justas, pavanas e bailes moriscos – que de resto se estendem e influenciam as próprias festividades municipais, designadamente a Festa do Corpus Christi e a Festa do Espírito Santo’ (Serrão, 1989, p. 16).

As procissões em honra do Divino Espírito Santo percorriam o terreiro que separa a Igreja Matriz, de invocação a São João Baptista, e a Ermida do Espírito Santo, cabendo a cada um destes templos desempenhar um papel específico, ainda que complementar, na condução das festas. Na Ermida desenvolviam-se as cerimónias religiosas pertencentes aos festejos em louvor do Divino Espírito Santo, enquanto que na igreja paroquial se leiloavam os cargos e outras ofertas relacionadas com o evento.

(…) Durante as Inquirições efectuadas no século XVIII, na Diocese de Lisboa, concretamente na ‘Descrição das igrejas pertencentes às Vigarias da Vara de Sintra, Cascais, Arruda e parte do Temo de Lisboa, – Ano de 1760’, a propósito da Igreja Matriz de São João das Lampas é referido ‘as confrarias que são da jurisdição ordinária além da fábrica é a do Santíssimo, Santo António e a do Espírito Santo, e todas as mais são seculares’. Curiosamente, na descrição que se faz, nesta época, relativamente às ermidas existentes é omitida qualquer referência à Ermida do Espírito Santo. Porquê? Será que na segunda metade do século XVIII as festividades do Espírito Santo em São João das Lampas já estão a decair (…)? De acordo com alguns estudiosos (Ambrósio, 1982; Soares, 1983), a época áurea das festividades do Divino Espírito Santo terá decorrido durante os séculos XVII e XVIII, sendo apenas nos inícios da centúria seguinte que começa a observar-se a sua decadência.

(…) Na segunda metade do século XIX já não existia a Irmandade do Espírito Santo anteriormente fixada nesta freguesia, facto certamente contextualizado pela extinção das confrarias nesta época.

Texto: Catarina Coelho e José Lourenço Gonçalves (ambos os autores trabalharam no Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas)
Artigo publicado na “Separata Espírito Santo” na edição de 4 de Junho de 2010

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