Semanário Regionalista Independente
Domingo Maio 28th 2017

7) O Culto do Espírito Santo nos Açores

Dos vários Cultos ditos “pagãos”, posteriormente agregados ao Cristianismo, o Culto do Espírito Santo, tal como se pratica nos Açores, parece ter conciliado alguns dos modelos de relacionamento com o sagrado, provenientes desse passado longínquo. Estas formas arcaicas, que existiriam também no continente português, terão sofrido aí (da parte da hierarquia da Igreja e devido à proximidade), uma maior pressão para a normalização, com vista à sua integração no modelo clássico, Católico Romano, acabando na extinção.

Por outro lado, a ligação que nos Açores foi sendo feita à sismicidade e ao vulcanismo, legitimou aos executantes do Culto a liberdade suficiente para evocar e manter as formas mais antigas (“puras”) desse relacionamento. Assim, presentemente é possível detectar nessas práticas, semelhantes às que foram relatadas por folcloristas, antropólogos e outros especialistas (1) , como existindo nas primitivas sociedades agrícolas Europeias, verdadeiros tesouros históricos do comportamento religioso pré-Cristão.

Sobrepondo-se às aprovadas pela ortodoxia católica romana, destacam-se as seguintes práticas (embora em geral, todo o sentido do ritual seja também diferente):

1 – A utilização de um vocabulário alimentar no diálogo com o Sagrado
a) A natureza das “ofertas” que são abundantemente distribuídas nos bodos e que se assemelham à obrigatoriedade do “contrato” com os deuses, antigamente traduzido nas “primícias”. No modelo arcaico de relacionamento com o Sagrado, só a oferta dos primeiros frutos e dos melhores animais à Divindade (depois partilhados por todos) poderia garantir protecção para os restantes bens e pessoas

b) Os poderes sobrenaturais do pão. No Culto do Espírito Santo, o pão confeccionado com a finalidade de servir de símbolo do Sagrado, em alguns dos ritos que compõem a Festa de uma semana, é tido ‘oficialmente’ (2) como imbuído de poderes especiais. A ele são atribuídos “milagres” ou acontecimentos inexplicáveis, à luz da ciência. Esta crença tem por base pressupostos que podem ser apreendidos através da análise de estórias sobre “milagres”, contadas a quem as quer ouvir, por qualquer conhecedor (3) . Eis alguns dos pressupostos em que se baseia a crença nas propriedades deste pão especial: – Tem o poder de acalmar tempestades. – A sua durabilidade é infinita. – As sopas do Espírito Santo, feitas com este pão, são sempre mais saborosas do que as feitas fora deste tempo. – Não deve ser dado aos animais, nem deitado fora. – Preserva da fome a casa que guardar durante o ano a “cabeça” da brindeira (4) .

c) O “Bezerro do Espírito Santo”, que congrega vários sentidos do Sagrado, sendo que no passado, não só representou o deus, como foi ele próprio endeusado. A figuração da mais alta Divindade através do touro é referida quer por Mannhdart, quer por Frazer, como própria das origens mitológicas Europeias, com a encarnação do ‘Espírito da Vegetação’ (5) no touro e sua representação em rituais ditos “pagãos”.

d) O Vinho
A oferta de vinho (usualmente, “vinho de cheiro”), durante as celebrações, causa sempre alguma retracção aos desconhecedores da tradição. Aparentemente, os participantes dos rituais do Espírito Santo reportam-se à tradição Grega mais recuada, que se situa no século VII a.C. e mesmo antes. Nessa altura, e seguindo a mitologia Grega, Dionísio (o Baco Romano), deus do vinho, era também cultuado como deus da vegetação, das árvores e frutos, acreditando-se que morria em cada Inverno, ressuscitando na Primavera (6) .
Pela semelhança simbólica entre estas celebrações e as de Demeter, a deusa das cearas, os dois cultos acabaram por unir-se, nas grandes cerimónias Gregas designadas como “Mistérios Eleusianos”. Dionísio era celebrado ao quinto dia das cerimónias, através da distribuição, pelos participantes, de uma bebida (KyKeon) que os transportava a um estado de desprendimento da terra, facilitando o contacto com os deuses.

2 – A igualdade social e o papel da mulher
Uma total igualdade é estabelecida (estatutariamente) no acesso à realização dos rituais, permitindo a qualquer membro da Irmandade não só executá-lo como melhorá-lo, naquilo que estiver ao seu alcance (7) . Por outro lado, a mulher desempenha qualquer dos papéis do Culto. Esta atitude, que difere da ortodoxia católica romana, parece inspirada nas religiões arcaicas europeias, nas quais a figura central do panteão era feminina. A “deusa mãe” deixou inúmeras marcas arqueológicas, não só em figurinhas esculpidas, mas também nos padrões de estrutura familiar, evidenciados pela distribuição da geografia necrológica (8) .

3 – A natureza do Templo
Os Templos do Espírito Santo, pequenas construções, na sua maioria de forma cúbica, os “Impérios”, como são conhecidos em algumas ilhas, caracterizam-se por manterem o sentido inicial dos templos Gregos. Não são utilizados para a realização do Culto e preces à Divindade, como é comum na Cristandade, mas, tal como nos templos Gregos, servem apenas como morada (temporal) da Divindade e marco da suaexistência material. Distinguindo-se na paisagem Açoriana, numa profusão de cores e decorações próprias, são mais um elemento de perplexidade pela sua diminuta dimensão, incompatível com a possibilidade de albergar as multidões de praticantes do Culto.

Conclusão

A aplicação de um exercício de história comparativa das religiões na leitura do ritual, no que se refere aos aspectos acima referidos, revela a parte visível de uma mais profunda contradição entre as crenças que fundamentam o Culto do Espírito Santo nos Açores e a restante teologia católica romana, reforçando a tese da sua proveniência ancestral. Mas a reflexão feita à luz destes elementos históricos, pode ir mais longe, ao vislumbrar a existência de uma capacidade e funções heurísticas em todo este conjunto de comportamentos. Só elas podem explicar a perpetuação de tal modelo, pelo facto de o mesmo pôr a descoberto algumas das incongruências que actualmente perturbam valores fundamentais da humanidade.

1 – Por exemplo: Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões, Edição Cosmos, 1970/1977
Wilhem Mannhardt, Mythologische Forschungen aus dem Nachlass, Quellen und Forschungen zur Sprach- und Kulturgeschichte der germanischen Völker, Strassburg 1884, vol 51 “Germanische Mythen”, Berlin 1858
James Frazer, The Golden Bough, a study in magic and religion, Library of Congress, Oxford, Great Britain, 1890/1994
2 – No sentido de ser aceite pela generalidade da comunidade
3 – In Antonieta Costa, O Culto do Espírito Santo, no Ciclo das Mitologias Agrárias, Editora Esquilo, Junho de 2008, Lisboa
4 – “brindeira” é uma designação Açoriana utilizada para um determinado tipo de pão.
5 – Frazer, J. G., The Golden Bough, a study in magic and religion, Library of Congress, Oxford, Great Britain, 1890/1994
Mannhardt, Wilhem, Mythologische Forschungen aus dem Nachlass, Quellen und Forschungen zur Sprach- und Kulturgeschichte der germanischen Völker, Strassburg 1884, vol 51 “Germanische Mythen”, Berlin 1858
6 – A sua representação também era feita através do boi/touro/bezerro
7 – Antonieta Costa, O Poder e as Irmandades do Espírito Santo, Edição Rei dos Livros, Lisboa, 1999.
8 – Kurgan Hypothesys, Gimbuta. Análise genética da necrologia tumular.

Texto e fotos: Antonieta Costa
* Ph.D em Psicologia Social pelo ISCTE
Artigo publicado na “Separata Espírito Santo” na edição de 4 de Junho de 2010

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.