Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Maio 25th 2022

OSCAR NIEMEYER: O ARQUITECTO UNIVERSAL E O SEU LEGADO


José Jorge Letria

Há pessoas que, criando, inventando, construindo, resistindo e sonhando, conseguem ser maiores do que a própria vida e ter uma existência que se prolonga muito para além do que é normal e previsível.
Conheci pessoas assim, de Emídio Guerreiro e Fernando Vale a Maria Lamas. Conheço Manoel de Oliveira. Não cheguei a conhecer Óscar Niemeyer, mas foi como se o seu assombroso percurso como arquitecto genial e homem de convicções profundas e progressistas sempre tivesse feito parte do meu imaginário. Recordo-me de ouvir o meu pai, que não era arquitecto, a elogiar o seu trabalho e, em particular, o modo como este carioca cosmopolita inventou do nada, com o decisivo apoio político de Juscelino Kubitschek, Brasília, a prodigiosa nova capital brasileira, que visitei pela primeira vez na Primavera de 1987, durante a viagem oficial do Presidente Mário Soares ao Brasil. Fiquei assombrado com o que vi, pois tive perante os meus olhos, materializada, uma utopia transformada em capital de uma país imenso que fala, pensa e escreve em português. Apeteceu-me dizer bem alto, nesses dias: “Viva Niemeyer !”
Oscar Niemeyer viveu muito e amou a vida até ao fim, continuando a acreditar no Homem, fiel ao seu ideal comunista que, vindo do início dos anos 40, o levou a filiar-se no Partido Comunista Brasileiro e a apoiar Luís Carlos Prestes e o seu projecto revolucionário. Durante a ditadura militar, famoso em todo o mundo, exilou-se em França, regressando depois ao seu amado Brasil para continuar a trabalhar, a trabalhar sempre, e para escrever, dar entrevistas e fruir o tempo que lhe restava de vida e que ainda foi, felizmente, longo e jubiloso.
Foi o desapego dos bens materiais que lhe permitiu oferecer alguns dos seus projectos, por acreditar que, desse modo, contribuía para um combate sem fronteiras em que continuava a acreditar, para espanto de muitos, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim e do colapso do chamado “bloco soviético”. Foi seu direito manter essa fé activa e não renunciou a ela.
Recordo-me, por exemplo, do orgulho com que os comunistas franceses falavam, há uns bons 30 anos, da sua sede em Paris, com projecto arquitectónico de Óscar Niemeyer. Recordo-me também, nas várias vezes em que participei na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, de visitar os pavilhões do Parque do Ibirapuera, por ele desenhado e onde o certame decorreu durante muitos anos, sempre com a presença de muitas centenas de milhares de pessoas em cada edição.
Depois de regressar ao Brasil, amnistiado, na década de oitenta do século passado, após um ainda longo exílio, foram-lhe confiadas grandes obras como o Sambódromo do Rio de Janeiro, o Memorial da América Latina, o Panteão da Pátria ou o Memorial JK, homenagem a quem tanto o apoiou na concretização de um sonho em que assentava a ideia de modernidade e progresso de um país em perpétuo crescimento.
Já depois dos 90 anos, Óscar Niemeyer ainda projectou o Museu de Arte Contemporânea e viu nascer o Museu Óscar Niemeyer em Curitiba, em 2002. Poucos criadores mundiais foram tão admirados, tão geradores de consensos e tão coerentes com um projecto de criação, com uma visão do mundo e do Homem e com uma forma de entender a vida e de lhe dar sentido. Para além disso, Niemeyer deve ser visto como um artista total, já que acrescentou ao trabalho como arquitecto as vertentes da escultura e do “design”, ficando como um dos mestres absolutos da plasticidade dada ao cimento armado como material construtivo de não ser tão frio e impessoal como costumamos sempre vê-lo ou imaginá-lo.
E se é verdade que os arquitectos são os criadores que mais marcam e condicionam, nem sempre pelas melhores razões, a vida dos cidadãos, já que concebem e organizam o espaço em que, quotidianamente, decorrem as nossas vidas, Óscar Niemeyer fica na história da arquitectura e do século XX como um dos artistas mais influentes e decisivos. Infelizmente, Portugal contou muito pouco com o seu génio, excepção feita ao projecto do Casino do Funchal, mas nem por isso foi por aqui menos conhecido e admirado, também pela sua visão progressista do mundo, designadamente nos tempos da ditadura portuguesa.
Pertencem-lhe estas palavras, que muito resumem e iluminam o seu percurso como artista e cidadão: “A arquitectura é o meu jeito de expressar os meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com optimismo. Eu não quero nada para além da felicidade geral”. Também por isso mereceu ter uma vida tão longa e tão plenamente realizada e geradora de bem-estar e alegria para os outros.
As entrevistas que, ao longo de décadas, li, vi e ouvi de Niemeyer confirmaram a grandeza que sempre associei ao seu nome e à sua obra. São pessoas assim que nos fazem pensar na pequenez de quem imagina o poder político e os outros como coisas eternas e inamovíveis. Óscar Niemeyer, verdadeiro mito em vida, será lembrado nos séculos por vir e os outros, os da pequenez arrogante, depressa serão esquecidos, porque não merecem ter diferente sorte, mesmo que se imaginem sólidos como o cimento armado.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3961 de 14 de Dezembro de 2012

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