Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 28th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

Admirável mundo novo!

Bernardo de Brito e Cunha

FALEMOS do programa “Got Talent Portugal” (ou com Portugal no início do nome, não sei bem), que há umas três semanas ocupa parte das noites de domingo na RTP1. Essa, a “parte das noites”, é uma das coisas boas que o programa tem: não é uma daquelas maratonas que geralmente acontece nos programas deste género, onde se vê tanta gente e (alguma) genialidade que, ao final da noite, já não nos lembramos de metade dos concorrentes. Outra coisa surpreendente que o programa tem é a recuperação/transformação de Manuel Moura dos Santos, aquele coração empedernido que bem conhecemos destas andanças. Coração empedernido é forma de dizer, que a coisa era mais a roçar a besta…

QUANDO falo em recuperação ou transformação quero dizer que o nosso Manel (não aquele que Jesus quis pôr a jogar quando deixou de ter Matič) ainda não pronunciou uma vez que fosse a palavra “cromo” e ainda não insultou ninguém: o mundo está abismado! E isto só pode ter uma explicação: este ar composto, bem comportadinho que Manuel Moura dos Santos tem mostrado ainda deve ter a ver com a anterior administração da RTP. Na altura de ser contratado, o mais natural é que Manel, para poder aceitar o papel de jurado, tenha sido sujeito a um de três tratamentos: ou na base de Guantánamo, ou algures em Pyongyang ou, coisa extrema, curso intensivo de boas maneiras e comportamento em público com Paula Bobone. Não sei qual dos três terá sido, mas a transformação foi radical.

VEJAMOS: é que mesmo para concorrentes que acha piores, e que o fazem carregar no botão, depois, na altura da votação, ele acaba por votar “sim” porque acha que há ali um potencial a explorar noutras circunstâncias ou simplesmente no futuro. E isto é, definitivamente, um passo em frente na vida dos povos! O homem está um primor! Ou então é partida dele e, lá mais para a frente, ainda vai dar cabo do concorrente que se mete pelos olhos adentro ser óptimo com algum comentário fora de propósito. Mas, enquanto esse dia não chega, aproveitemos estes momentos soberbos e inesperados de Manuel Moura Santos. Tal como parecem aproveitar os próprios colegas de júri (Sofia Escobar, Pedro Tochas e Rui Massena), tantas vezes surpreendidos pelas reacções calmas e ponderadas deste novo Manuel Moura dos Santos. “É um admirável mundo novo!”, como clamaria um outro Manel que eu conheço.

ADMIRO-ME como é que Fernando Mendes faz, há 10 anos, o programa “O Preço Certo”. O problema não é saber porque é que um programa tão básico como aquele consegue ter as audiências que tem – e chega, muitas vezes, ao top 5 diário. A verdadeira questão é saber como Fernando Mendes, todos os fins de tarde, consegue manter vivo aquele programa básico. Mas consegue. Porque só “o verdadeiro artista”, como muitos lhe chamam, com um talento e um poder de improvisação enormes – a que se junta um humor sem limites e sempre com trocadilhos apropriados – poderia aguentar um programa pobre como aquele e dar-lhe graça todos os dias. Quando digo que o programa é pobre, deveria antes dizer básico, que é a palavra mais apropriada. E ele aguenta aquilo dia após dia (gravando diversos programas por dia), apesar de tudo. E que me diverte muito ao final da tarde. Os verdadeiros artistas são assim, de facto.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Embora tenha algumas dúvidas quanto aos tempos de antena – julgo que a abstenção começa exactamente aí, que o povo não tem pachorra para aturar aqueles minutos – a verdade é que é aí que se pode tomar contacto com as propostas de cada partido. E os tempos de antena, na rádio ou na televisão, chegam a todo o país, ao contrário do que se passa com as caravanas que dão um saltinho aqui ou ali. A televisão, então, é fundamental: para podermos fixar as caras de quem nos vem prometer coisas que depois não são cumpridas… Estranho, por isso, que as televisões que alinham em prestar esse serviço público o façam às sete e qualquer coisa da tarde, antes do telejornal. É uma hora em que grande parte dos interessados – se calhar deveria escrever “potenciais interessados” – ainda não chegaram a casa. Dá ideia de que esta hora estranha, meio híbrida, antes do início do horário nobre, se destina apenas a cumprir o calendário e a lei.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4059 de 13 de Fevereiro de 2015

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