Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 11th 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

Ainda Ljubomir e os Pesadelos

Bernardo de Brito e Cunha

Não há dúvida de que “Pesadelo na Cozinha”, do chef Ljubomir Stanisic, tem tudo para ser o programa de maior audiência dos domingos. Para começar, Stanisic entra num restaurante e, de início é uma simpatia, D. Maria para aqui, senhor X para acolá, e depois, quando deixa de ser cliente e entra na cozinha, tem tudo para nos agradar, enquanto clientes e consumidores de restaurantes. Porque o papel dele é dizer aquilo que, tantas vezes, nos apetece dizer num restaurante: “Isto está uma m****a!”, “Pedi mal passado e vem torrado!”, etc, etc. Não admira que assim seja: este não é um programa original, é baseado num outro que teria feito sucesso semelhante caso tivesse sido transmitido em sinal aberto e não no cabo.

Ljubomir tinha, por assim dizer, a papinha feita: o programa do chef Gordon Ramsay, “Ramsay’s Kitchen Nightmares” foi um programa de televisão britânico sobre culinária apresentado por Gordon, e transmitido pelo Channel 4 entre 2004 e 2014. Em cada episódio, Gordon Ramsay visitava um restaurante e agia como um solucionador de problemas para ajudar a melhorar o estabelecimento em apenas uma semana. Tempos mais tarde, Ramsay revisita o restaurante para ver como o negócio se tem saído na sua ausência. O programa de Ramsay ganharia, em 2006, o Emmy Internacional para Melhor Programa sem Argumento. Vêem semelhanças? Todas, excepto na parte da segunda visita, para ver como as coisas se passaram – que Ljubomir não tem tempo para essas coisas: começou a gravar, se não estou em erro, há uns seis meses.

Concordemos: este país é pequeno. Assim sendo, Ljubomir não tem outro remédio que não seja visitar os restaurantes que se candidataram a entrar no programa para serem “salvos” – recebendo alguns benefícios por isso que, queixam-se alguns proprietários, parecem ser mais de duas demãos de tinta do que de fundo. Mas neste país, que é pequeno, é relativamente fácil estar, na segunda-feira, no restaurante que passou domingo à noite na televisão, a conversar com os proprietários, cozinheiros ou empregados. E não há jornal – mesmo online – que não o tenha feito já. E queixam-se, com ou sem razão: “logo no primeiro dia, o chefe entrou pelo restaurante de forma militarista e arrogante”, ou “o programa tem um psicólogo, o mesmo que trabalhou para outros reality shows que consegue conduzir as pessoas para o objectivo do programa: passar uma imagem negativa dos donos, de falta de higiene, de irresponsabilidade e colocar os proprietários contra o pessoal”.

O que vos quero dizer é que, se calhar, não será bom tomar todas aquelas imagens como completamente reais… Já estamos habituados aos truques televisivos. E, mais ainda, o facto de os programas serem todos muito iguais: os pecados dos restaurantes são os mesmos, são sempre a falta de limpeza e os alimentos mal acondicionados (e sem data de frigorífico, já se adivinha) e isto cansa: um domingo destes tenho de fazer uma pausa para descansar de ouvir exactamente as mesmas coisas…

Uma última palavra que tem por alvo o jogo entre o Sporting e o Benfica, amanhã à noite. As duas semanas que o antecederam não foram brilhantes em termos de comportamento das claques dos chamados três grandes. E era bom que as coisas acalmassem, não só pelo jogo em si, mas também pelos muitos espectadores que estarão presentes. E isso é responsabilidade dos dirigentes clubistas, não basta depois vir lamentar uns cânticos quaisquer, de péssimo gosto.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Ou ainda o caso de José Bento dos Santos, este com um caso de características quase caricatas. José Bento queria produzir vinho e aconselhou-se com uma universidade americana. As instruções vieram e, entre elas, constava uma em especial: durante os primeiros cinco anos, as uvas eram para deitar fora. Durante cinco anos ele assim fez: os cachos foram deitados para o chão. Só que… isto fez com que o padre da paróquia o tivesse acusado, durante a homilia, de deitar fora aquilo que Deus lhe dava… Hoje, José Bento produz um vinho de renome.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 21 de abril

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