Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Agosto 14th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Regresso ao cinema (quase) mudo

Bernardo de Brito e Cunha

Creio que poucos filmes portugueses terão tido tamanha campanha dos media como “São Jorge”, de Marco Martins: para isso terão contribuído certamente os prémios e nomeações que o filme teve em diversos festivais, em que Marco Martins foi nomeado para melhor realizador e o actor Nuno Lopes recebeu o Prémio Orizzonti para Melhor Actor no Festival de Veneza pela sua interpretação, o mesmo se voltando a repetir nos “óscares” espanhóis, os Goya. Até aqui tudo bem, sobretudo porque esta terceira longa-metragem de Marco Martins – depois de “Alice” (2005), também protagonizada por Nuno Lopes, e de “Como Desenhar Um Círculo Perfeito” (2009) –, um filme dramático sobre os anos de intervenção da “troika” em Portugal, cuja acção se desenrola nos bairros da Bela Vista (Setúbal) e Jamaica (Seixal), reflecte algumas das consequências trágicas desse período.

A história é trágica, como lhe chamo, mas mais ou menos linear: Jorge (Nuno Lopes) é um pugilista desempregado que tenta a todo o custo encontrar formas de garantir o sustento de Susana e Nelson (Mariana Nunes e David Semedo, respectivamente), a mulher e filho. Quando ela, emigrante brasileira, decide fugir da crise financeira que se instalou em Portugal e regressar ao seu país, Jorge fica sem saber o que fazer. Como último recurso, aceita um trabalho numa empresa de cobrança de dívidas. Usando o seu corpo treinado para a luta corpo a corpo, passa a intimidar pessoas que, tal como ele, se encontram numa situação desesperada. De um momento para o outro, vê-se a atravessar a fronteira da moralidade e a entrar num mundo de criminalidade gerada pela pobreza e pela falta de alternativas.

Mas se o trabalho do actor Nuno Lopes (e do realizador Marco Martins) não está em causa, ao ver-se o filme na televisão, num canal pago dedicado ao Cinema, o TVCine1, o que aconteceu recentemente, fica o espectador um bocadinho surpreendido com tanto prémio e nomeação. Porquê? Porque o som é miserável e os diálogos são absolutamente ininteligíveis. Então, pergunta-se esse espectador, será que sou surdo? Ou, em alternativa, terá o júri de Veneza e dos Goya, uma melhor acuidade auditiva do que eu? E a resposta é não: acontece é que no estrangeiro o filme foi, certamente, passado com legendas. Mais valia que o tivessem feito também por cá.

E é já amanhã, convém que não se esqueçam, que terá lugar a final do Festival da Eurovisão. Não tenho grande fé nos resultados musicais – excepto no que diz respeito ao dueto entre Salvador Sobral e Caetano Veloso – porque aparecer neste tipo de festival uma canção com cabeça, tronco e membros é cada vez mais difícil e o facilitismo há muito que substituiu a qualidade ou, pelo menos, uma qualidadezinha aceitável. Sabemos que o facilitismo e a mise-en scène imperam há muitos anos – por isso é que foi surpreendente a vitória, o ano passado, de Salvador Sobral.

Mas, por outro lado, a minha esperança reside na RTP e naquilo que vai difundir para todo o mundo (mundo, sim: pois se até a Austrália há um par de anos que concorre ao certame…) que, espero, seja uma imagem bonita e competente do nosso país e da nossa televisão pública. Porque acho que isso é muitíssimo mais importante do que qualquer cançonetazinha que venha a ganhar o festival e de que, para a semana, já ninguém se lembra.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O senhor bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, teve direito a novo tempo de antena. Desta vez foi na TVI, mas o tema era o mesmo, ir ou não ir a Cuba operar portugueses, e mais uma vez o bastonário se fartou de meter os pés pelas mãos – ou, na circunstância, pelos olhos. É certo que o jovem que lhe fazia perguntas e cujo nome não fixei, lamentavelmente, não dava vontade a que se respondesse com boa cara e discurso coerente, tal o modo abrupto como colocava as perguntas e, antes de ter uma resposta, já disparava uma outra. Mas na questão básica, o bastonário mantinha que era possível operar toda aquela gente em território nacional. Mas disse mais: que duvidava das condições de higiene e limpeza de blocos operatórios que fizeram intervenções cirúrgicas àquela escala, logo àquela velocidade. Pareceu-me feia, esta coisa de duvidar de colegas. Sim, porque na última semana me esqueci de vos dizer que Pedro Nunes tem como especialidade a… oftalmologia.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 11 de Maio de 2018

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