Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Agosto 20th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma casa portuguesa, com certeza

Bernardo de Brito e Cunha

Pronto, acabou a Casa dos Segredos, na TVI, e já vamos na sétima edição. Foram três meses de “cenas canalhas”, as mais das vezes, repetidas ao longo do dia sempre que a emissão tinha um buraquinho. O programa da manhã dava-lhe espaço, o da tarde também, naturalmente, para não falar de um espaço próprio dedicado ao grande evento e com nada mais nada menos do que dois apresentadores dois e seis comentadores seis. Caramba, foi muita Casa, foram muitos segredos, foram muitas vezes as mesmas cenas. Muitas vezes, violentas: e nem vale a pena dizer de quem para com quem. Às vezes ficava-me a impressão de que a programação da TVI era uma emissão contínua de Casa dos Segredos, entremeada com umas novelas, uns serviços noticiosos e umas reportagens da Ana Leal. Parecia pouco, se excluirmos as reportagens.

Em edições anteriores, tanto quanto me apercebi ao longo do tempo, já tinham existido casais na casa e sob as mais diversas combinações aritméticas, digamo-lo assim: casais stricto sensu, no aspecto tradicional do termo, ex-casais, bem como outro tipo de díades, os de namorados na vida cá fora. Caramba, como isto hoje está erudito: locuções latinas, étimos gregos… Meu Deus!, isto ainda corre o risco de se tornar uma coluna a sério. Adiante. E assim aconteceu também desta vez, em dose dupla. Um desses casais (ou ex-casal, às tantas perdi-me) tinha vindo do Algarve e os coitados discutiam tanto que só podiam ser um casal mesmo. Mais: foram tantas as invectivas, os ataques, os desdéns, as acusações verbais, que eu não sei bem se não estariam reunidas as condições para que se perfilasse ali um caso de violência doméstica. Muitas vezes achei que sim.

E um segundo casal, esse sabendo nós que o era, desde o início, pois era esse o seu segredo. Tudo bem até aqui – e daqui para a frente também, ora essa! É que esse segundo casal, por ordem de entrada em cena nesta crónica, era um casal homossexual. Masculino. Confesso que de imediato esperei que o povo votante os expulsasse antes de qualquer outro concorrente. Enganei-me. E à medida que o tempo ia passando fui-me apercebendo de que a simpatia do público, medida através das vezes (não sei precisar se foram muitas, hão-de compreender que fugia um bocado daquilo) em que foram nomeados e escaparam à expulsão, era muito grande para com eles.

Teria sido curioso ver a reacção dos companheiros de casa, se soubessem qual era o seu segredo. A verdade é que o segredo dos dois só foi conhecido muito perto do final e não se pôde avaliar isso. Mas não tenho dúvidas de que os restantes concorrentes, gente jovem, não teriam levantado qualquer problema. Confesso, no entanto, que tinha muito menos fé no povo português, sobretudo a partir do momento em que os dois se tornaram finalistas. Mas não: os meus concidadãos não se deixaram escandalizar pela situação – como eu, homem de pouca fé, maldosamente antevia – como fizeram de um deles o vencedor. Ou melhor: transformaram os dois em vencedores.

Já não se suporta a novela do Sporting. Se é verdade que foi a 15 de Maio que as coisas deixaram de ser o circo habitual do presidente para se tornarem incomensuravelmente mais graves, com o ataque à Academia de Alcochete, desde então que o caso e suas consequências se arrasta pelos telejornais. E desde então que tivemos Portugal nas manchetes da imprensa internacional porque quase uma meia centena de energúmenos decidiu invadir o centro de treinos de um clube de futebol e agredir jogadores e treinadores perante a bizarra passividade de um presidente do clube tão conhecido pela loquacidade e que agora diz apenas esta coisa extraordinária de que “é chato” e “temos de nos habituar que o crime faz parte do dia-a-dia”. Mas muita gente parece não perceber que se tem vindo a instalar um perigoso clima de impunidade no qual os atropelos aos direitos e às liberdades mais básicas das pessoas doem tanto como se de violência política se tratasse — sem esquecer, é claro, que o vandalismo no futebol é desde há muito um meio privilegiado para as infiltrações de extrema-direita. Veja-se como Mário Machado já se mostrou interessado em “dedicar mais tempo” ao clube…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Sou fã, como se sabe, do “Telerural”, um programinha que começou como um espacinho na “Praça da Alegria” e, subitamente, ganhou asas. Os dois intervenientes, designados apenas por dois diminutivos, Quim (João Paulo Rodrigues) e Zé (Pedro Alves), continuam a trazer-nos todos os dias as notícias mais incríveis de um local a que chamam Curral de Moinas. É o disparate completo, a grande loucura em roda livre e sob a forma de um telejornal. É certo que é transmitido por volta das 11 da manhã: mas isso não impede que o “Telerural” abra, invariavelmente, com as palavras “Voa Noite”, para quem troca os “bb” pelos “vv”.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4214 de 1 de Junho de 2018

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