Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 17th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

As prioridades das televisões

Bernardo de Brito e Cunha

José Eduardo Moniz voltou à televisão, o que equivale a dizer que voltou à TVI – para onde havia de ser? O programinha ocupa uma parte do “Jornal da Noite”, às sextas-feiras, e pretendia ser uma coisa inovadora e, digamo-lo assim, interactiva. José Eduardo Moniz pega num punhado de coisas que se disseram durante a semana (na circunstância foram quase todas em torno do Orçamento de Estado), fez-lhes uma análise, declarou que umas eram falsas, outras verdadeiras e outras ainda enganadoras. Nada de mais: é a opinião de José Eduardo Moniz e pronto. O problema surgiu quando quis passar à parte interactiva: alguns espectadores estavam ligados via Skype, portanto havia a possibilidade de se poder ouvir e ver os telespectadores que entrassem em contacto. A coisa não saiu bem: o primeiro (e o segundo e o terceiro também tentaram…) que se fez ouvir, colocado perante questões tão prementes como as que derivam do Orçamento de Estado, optou por falar com José Eduardo Moniz sobre a crise do Benfica… E assim aconteceu com o segundo e o terceiro: não foi uma estreia muito auspiciosa, mas prova, pelo menos, que para muita gente o Benfica vem antes dos problemas do país.

É por estas e por outras que os canais de televisão não são muito dados a manterem diálogos em directo com o seu público. E o único que mantém esse espaço em aberto acaba por ser o “Opinião Pública”, todos os dias de semana na SIC Notícias. Se os espectadores estabelecem esse contacto via telefone ou Skype é indiferente: mas as estações que o fazem sabem que há um risco grande, como aquele por que a SIC Notícias já passou, quando um espectador decidiu dizer algumas obscenidades à pivô que estava nesse dia de serviço. Desagradável, muito desagradável (especialmente para ela) para não dizer mais. Mas era possível dizer mais e, se calhar, necessário. Não sei bem quem ela era – mas suspeito.

Apesar de tudo, a SIC Notícias decidiu manter o espaço no ar. E, embora ultimamente lhe pareça faltar temas, as mais das vezes é um espaço interessante. Quando digo que lhe faltam temas, é porque se agarra desesperadamente a um tema da actualidade – e, infelizmente, nem sempre os mais urgentes ou importantes para a vida do país. Meditemos no problema do Sporting e de Bruno Carvalho, apresentado às autoridades por vontade própria, preso mais tarde contra vontade própria, solto por vontade do juiz, etc., etc. Isto, para a CMTV era (e foi) material para dias e noites sem fim: já para o “Opinião Pública” não deveria ter sido, porque isto de fazer programas de televisão não devia ser a mesma coisa que mastigar pastilha elástica. O desastre de Borba foi outro caso: o OP achou que estava em cima da coisa, mas a CMTV foi mais rápida. Que se faz nestes casos?

Eu sei outras coisas: sei que um precário, um estagiário, fará tudo para se impor – porque disso depende a sua sobrevivência e, mais tarde, talvez – repito o talvez – a sua ascensão. É a aquilo a que podemos chamar, como lhe chamaria Gualtiero Jacopetti, o “Mundo Cão” da televisão.

Que me custa nisto? Duas coisas. Em primeiro lugar, que as seniores da “Opinião Pública” se desiludam com tudo, com os Brunos, com Borbas, com tudo. E depois, que as jovens, as que lhes pretendem o espaço, façam tudo para conseguir o seu lugar. O lugar das outras. Mas não é essa a lei da vida? Só que a juventude não traz, necessariamente, a qualidade.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O Estado não faz ou não chega para todos – é o resultado de sermos um país pequeno, como diria o Manel – embora não deixe de ser estranho que para os bancos tenha sempre uma mão estendida e bem recheada. Sei que os depositantes desses bancos não podem ficar sem as suas poupanças: mas e então os banqueiros que meteram a mão na massa e passaram tudo para o nome da família não têm de responder? Que eu saiba, só Oliveira e Costa do BPN está em prisão preventiva. E os outros, que todos os dias pedem ajudas ao Estado? Oliveira e Costa era o pior deles todos? Não creio.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4237 de 7 de Dezembro de 2018

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