Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Setembro 22nd 2021

Dinossauros – Vitória na “Batalha de Carenque”

 

O professor Catedrático Jubilado da Universidade de Lisboa e director emérito do Museu Nacional da História Natural, Galopim de Carvalho desde 1986 que, em conjunto com jovens cientistas e outros tem lutado arduamente pela salvaguarda das pegadas dos dinossauros descobertas em Carenque.

Foi necessário recorrer às vias judiciais no Tribunal de Sintra para ver cumprido o seu sonho.

1992

Juntamos o historial desta luta pela salvaguarda da jazida com pegadas de dinossáurio de Pego Longo (Carenque).

 

A história da que ficou conhecida por “Batalha de Carenque” remonta a 1986, quando dois finalistas da Licenciatura em Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Carlos Coke e Paulo Branquinho, meus ex-alunos, descobriram um vasto conjunto de pegadas de dinossáurios no fundo de uma pedreira abandonada e, na altura, a ser usada como vazadouro de entulhos e lixeira clandestina, em Pego Longo (concelho de Sintra) na vizinhança imediata de Carenque (Concelho da Amadora). A jazida corresponde a uma superfície rochosa com cerca de duas centenas de pegadas, de onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento, no troço visível, formado por marcas subcirculares, com 50 a 60cm de diâmetro, atribuídas a um dinossáurio bípede. Além deste, considerado, na altura, o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se, na mesma superfície, pegadas tridáctilas, atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos. O chão que suporta estas pegadas corresponde ao topo de uma delgada camada de calcário, com 10 a 15cm de espessura, de cor beije, levemente basculada para Sul. Muito fracturada (à escala centimétrica), esta camada assenta sobre uma outra, bem mais espessa, de natureza argilosa, condições que dão grande fragilidade a esta jazida.

Nesta data, dava eu os primeiros passos no Museu cuja direcção, sem que eu a pedisse, me foi atribuída por inerência das funções que exercia no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa. Nessa altura o Museu era uma espécie de fantasma do incêndio que o consumira oito anos antes. Desconfortados e esquecidos, nos grandes espaços que nos restaram, e com pouco mais que fazer para além de tentar recuperar milhares de exemplares de minerais, rochas e fósseis, meio queimados, quase irreconhecíveis sob uma película de fuligem negra e gordurosa e com etiquetas meio apagadas pela muita água usada no combate ao fogo. Neste quadro, a aguardar a prometida reinstalação (nunca, até hoje, concretizada) e na impossibilidade de levar a efeito quaisquer acções próprias de uma instituição como esta, era grande a minha disponibilidade para me envolver, em nome do Museu e pessoalmente, como cidadão, na defesa desta importante jazida.

Condenada a desaparecer, soterrada por terras limpas vindas de desaterros vários e, ainda, por entulhos e lixos, esta jazida foi alvo de uma primeira acção, visando a sua defesa, por parte dos então Serviços Geológicos de Portugal, por iniciativa do Director dos Serviços de Cartografia, Prof. Miguel Magalhães Ramalho, meu colega no Departamento de Geologia, como professor catedrático convidado. No ofício que, em 05/07/90, endereçou ao então presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. Rui Silva, meu ex-aluno, licenciado em Geologia, solicitava a cessação daquela actividade e lançava a ideia de converter o sítio num espaço cultural dedicado aos dinossáurios e à história geológica da região. Coadjuvando esta tomada de posição, propus à mesma Câmara, em 17.07.90, a protecção do sítio, o que aconteceu quase um ano depois por deliberação da Assembleia Municipal, em sessão extraordinária de 24-05.91, na qual a jazida foi classificada, por unanimidade, como “Imóvel de Interesse Local”. Esta classificação, porém, não impedia que os trilhos continuassem a ser entulhados e alvo de toda a espécie de depredações.

Na sequência desta decisão preparei um projecto de protocolo a estabelecer com a edilidade, visando a que este património natural, devidamente delimitado e resguardado, viesse a integrar, como geomonumento, um museu e centro de interpretação local, considerado como uma extensão científica e pedagógica do Museu Nacional de História Natural no concelho de Sintra.

Para além das consequências inevitáveis de degradação decorrentes do uso deste enorme buraco como vazadouro, fui alertado, em Maio de 1992, pelo Engº. Teles Fortes, director do Serviço de Projectos da Brisa Auto-Estradas de Portugal, S.A., para o facto de o traçado da então projectada Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) vir a intersectar a maior parte do trilho principal, precisamente no seu troço mais interessante. Louvavelmente, esta empresa apercebeu-se do valor patrimonial em causa, mantendo -se em consonância com o Museu na procura de soluções que corrigissem uma tal situação, não desejável. Esse atentado contra um património paleontológico desta importância, constava de um projecto da então Junta Autónoma de Estradas, que a Brisa recebeu como obra consumada, a que foi alheia. Entre as propostas avançadas (moldagem do conjunto dos trilhos, remoção da camada para outro local e abertura de dois túneis sob a jazida), a abertura dos túneis de Carenque foi, finalmente, a solução aceite pelo governo de então, presidido pelo Prof. Cavaco Silva, representando para as finanças públicas um esforço acrescido, na ordem de um milhão e seiscentos mil contos, merecedor de aplauso. Esta decisão, que veio ao encontro do nosso desejo, não foi fácil de obter, tendo contribuído significativamente para ela a conjugação de vários níveis de realizações simultâneas. Com efeito, desenvolveu-se no Museu um intenso trabalho de investigação científica, coadjuvado pelos melhores especialistas existentes a nível internacional, o que foi regular, insistente e amplamente publicitado em múltiplas acções de divulgação, tais como exposições, palestras públicas e nas escolas por todo o país, debates, etc., numa ligação aos media pouco usual entre nós. A salvaguarda deste importante geomonumento constituiu uma vitória para os portugueses e, em particular, para as crianças das nossas escolas e para os seus professores, que acompanharam, participada e envolvidamente, esta longa batalha. Começou aqui o meu envolvimento nesta e nas muitas outras causas em defesa do património geológico, que se seguiram, nas quais foi determinante o apoio, nunca negado, dos jornais, da rádio e da televisão. Começou aqui, igualmente, a ganhar visibilidade a figura pública em que, involuntariamente, me tornei, associada aos espectaculares bichos pré-históricos.

Uma primeira fase deste processo (que ainda não terminou) saldou-se pela abertura dos referidos túneis e, assim, a jazida ficou a salvo do bulldozer. Os seus meandros e o desenvolvimento que teve entre 1990 e 1993, deram-lhe carácter nacional, tiveram repercussões na comunidade científica internacional e fizeram história que entendi registar em livro, “Dinossáurios e a Batalha de Carenque” (291 pp.), dado a público, em 1994, pela Editorial Notícias, com uma única edição, hoje esgotada. Foi uma luta entre os cifrões e a cultura, em que esta saiu vitoriosa, mas que ainda tem pela frente uma outra que é imperioso e urgente ganhar.

Aproveitando a feliz oportunidade da realização do “1º Simpósio Internacional e Primeiro Congresso Mundial sobre Preservação e Conservação de Colecções de História Natural”, em Madrid (10-15 de Maio de 1992), enderecei uma carta ao presidente do respectivo comité organizador, pondo-o ao corrente da dramática situação que se estava a viver relativamente à jazida, com vista à obtenção do seu apoio na luta que travava. Neste sentido, apresentei ali uma comunicação “The second «extintion» of the dinosaurs?”, perante uma assembleia de cerca de 400 delegados de 150 museus de todo o mundo. Na sequência desta intervenção, que despertou solidariedade unânime, foi redigida uma proposta de resolução a ser apresentada ao plenário no final do Simpósio. Aprovado por unanimidade, o respectivo texto foi enviado, como recomendação, ao Governo português e à Unesco.

Desejando concretizar o seu apoio a esta causa, o então Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia, Prof. Fernandes Thomaz, necessitava da opinião de um especialista de reconhecida competência a nível internacional. Assim, a meu pedido, convidou a vir a Portugal, para o efeito, o Prof. Martin Lockley, da Universidade do Colorado, em Denver, suportando os respectivos custos.

Após uma primeira visita ao local, este paleontólogo e eu fomos recebidos pelo dito membro do governo. Depois das habituais palavras de circunstância, o Prof, Thomaz perguntou-lhe, no melhor inglês que pôde, «They are, really dinosaur footprints?».

Confesso que não apreciei esta atitude do meu colega da Universidade de Aveiro, temporariamente investido nas funções de governante. Esta pergunta feita, assim, abertamente, “nas minhas barbas”, passava um certificado de menoridade científica não só a mim como a todos os colegas nacionais envolvidos neste processo. Mas ele não se deu conta disso e eu havia feito orelhas moucas. De qualquer maneira, ficou-se a dever a este ilustre Secretário de Estado todo o apoio que deu a esta causa. Para o efeito, nomeou uma Comissão (despacho de 22 de Setembro de 1992) composta por mim, em sua representação, como coordenador, pelo Engº. Armando Teles Fortes, em representação da Brisa, e pelo Prof. Martin Lockley. Esta comissão concluiu o parecer solicitado, tendo-o entregue no prazo pedido. Este documento, envolvendo os aspectos puramente paleontológicos, os do seu aproveitamento centífico-cultural e os inerentes ao traçado da CREL, preconizou a solução que fez vencimento, isto é, a abertura de dois túneis sob a jazida.

No âmbito de uma das suas presidências abertas, o Dr. Mário Soares incluiu a jazida de Pego Longo como um dos locais a visitar, e fê-lo, num ambiente de grande expectativa, largamente publicitado pelos media. Um batalhão de jornalistas, deputados, governantes, autarcas locais, estudantes, elementos da comunidade geológica e muito povo acompanhavam, no dia 10 de Fevereiro de 1993, o Presidente da República. Chovia copiosamente quando, após o almoço na Amadora e um sensível atraso no programa, chegamos à pedreira. Professores das escolas locais, dirigentes do “Olho Vivo” e nós, pelo Museu, tínhamos preparado uma admirável surpresa que a chuva não impediu nem desfeiteou. A imponente laje do fundo da pedreira, varrida de lixos e entulhos, estava pejada com centenas de crianças das escolas da região acompanhadas pelos respectivos professores e professoras, formando, de mãos dadas, um cordão humano em defesa das pegadas.

Molhado e enlameado, o Dr. Mário Soares percorreu as dezenas de metros, que só a pé se podiam fazer, até ao topo da escarpa deixada pela frente de exploração da antiga pedreira, de onde se lhe deparou toda aquela manifestação de ensurdecedora alegria. Foi o delírio quando ele surgiu à beira do enorme fundão e abriu os braços para aquela multidão juvenil aos pulos e aos gritos. Dois dias depois, Fernanda Ribeiro escrevia no “Público”: Aos berros, os miúdos desafiavam o Presidente da República a ir lá abaixo, à laje, dizendo: – Soares vem cá abaixo – Do alto e visivelmente bem disposto, o Presidente berrava também: – Cá acima, cá acima, cá acima, – o que soava como um palavra de ordem”.

Ao nosso lado, o Prof. Magalhães Ramalho, dos Serviços Geológicos de Portugal, o Prof. Martin Lockley, pela segunda vez entre nós, a dirigente da Associação Juvenil Olho Vivo, Flora Silva, e os deputados António Filipe, do PCP, e Mário Tomé, da UDP, estavam ali para manifestar o seu apoio à defesa deste património. O espectáculo era grandioso e comovente.

Desejando manifestar o seu apoio a esta causa, o Dr. Mário Soares convidara-me a acompanhá-lo no carro da presidência. Entrar naquele topo-de-gama (forrado a cabedal preto e alcatifado na mesma cor) com os sapatos cobertos de lama plástica, do tipo massa de lubrificação, foi uma situação algo embaraçosa que só o não foi mais porque os pés do presidente também tinham barro até aos artelhos[1].

No dia seguinte, o “Comércio do Porto” escrevia: Mário Soares disse ontem que tem de salvar as pegadas de dinossáurios que existem em Carenque, porque é possível construir estradas, mas pegadas não. Um dia depois (12.02.93), Fernanda Ribeiro escrevia no “Público”: O Presidente da República respondeu ontem ao desafio lançado pelo Ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, quanto à hipótese de salvar as pegadas de dinossáurios em Carenque, contribuindo com 400$00 para uma subscrição pública ontem aberta na tentativa de salvar aquele património mundial. Esta quantia era a que o Engº. Ferreira do Amaral dizia custar, a cada um dos portugueses, a construção dos túneis da CREL sob a jazida. E a jornalista continuava: Foi ainda na Amadora, antes de visitar o local da jazida, que Mário Soares, ostentando um minidinossáurio na lapela, entregou a Galopim de Carvalho, director do Museu Nacional de História Natural 800$00 (por ele por Maria Barroso). No final e ainda segundo Fernanda Ribeiro, o Presidente afirmou: Vamos salvar isto porque não podemos fazer outras iguais. Elas estão aqui há milhões de anos, ao passo que estradas, essas, podemos nós fazer”.

Aproveitando a grandiosa exposição de dinossáurios robotizados “Dinossáurios regressam em Lisboa” (Dezembro de 1992 – Fevereiro de 1993), no Museu Nacional de História Natural, procedeu-se à recolha de assinaturas para uma petição a apresentar a Assembleia da República visando a salvaguarda da jazida. Em documento que foi subscrito por 24 000 cidadãos, entreguei-o, pessoalmente, em nome do Museu, ao Prof. Barbosa de Melo, tendo sido admitido com o nº 196/VI/2ª.

O dia 11 de Fevereiro de 1993 foi marcado por um importante acontecimento com reflexos altamente decisivos no processo. A Assembleia da República, na sequência de uma iniciativa do PSD, pela voz do deputado açoriano, Mário Maciel, tomava posição unânime na defesa da Jazida de Pego Longo (Carenque). A intervenção deste parlamentar denunciava a intenção do Governo, do seu próprio partido, de construir uma estrada que apagaria este património, apelando ao governo para que o traçado dessa estrada não destruísse essas pegadas. Esta intervenção teve o aplauso de todas as bancadas e o presidente da Assembleia da República, Prof. Barbosa de Melo, interpretando os aplausos com uma aprovação unânime, declarou que iria enviar a intervenção daquele deputado aos Ministros das Obras Públicas e do Ambiente. A acta desta sessão foi-me enviada, pessoalmente, acompanhada de uma carta manuscrita pelo próprio Presidente, congratulando-se com a unanimidade conseguida.

No dia 14 do mesmo mês, Alberto Costa Alves, no Diário de Notícias, entre outras considerações escrevia: Façam favor, senhores Ministros, de perguntar a milhares de crianças o que vêem de maravilhoso nesses terríveis lagartos gigantes que foram testemunhas e vítimas de um episódio extremamente convulsivo da vida do planeta e do seu sistema climático. Vão ao Museu [Nacional] de História Natural e percebam o que lá se faz sem a vossa consideração e sem um pingo de suor vindo do vosso esforço. Já agora, percebam quão longe estão dos vossos parceiros europeus. E, mais adiante, se o vosso reino é exclusivamente habitado por cifrões, pensem nos lucros que nos estarão reservados se presentearem o futuro com um pólo de grande valor científico, pedagógico e turístico.

No dia seguinte, o Secretário de Estado, Engº. Álvaro Magalhães, assinava, dirigido à BRISA e com conhecimento ao Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia e à Junta Autónoma das Estradas, o despacho do qual entre outras deliberações do governo, autorizava esta empresa a promover o lançamento de um concurso público internacional de concepção/construção para a A-9 (CREL) na referida zona, que assegure a preservação do referido trilho de pegadas, na medida do que for tecnicamente possível, quer recorrendo a construção total ou parcial de um túnel sob o referido trilho, quer ainda encontrando soluções alternativas no sentido de minimizar os custos financeiros do empreendimento. A 16 de Julho ficava-se a saber, através do “Público”, que a Brisa adjudicara a construção dos túneis à firma “Bento Pedroso”.

 

Dois anos e meio depois, a 9 de Setembro de 1995, o Primeiro-Ministro Cavaco SIlva inaugurava a CREL, tendo tido a atenção de me incluir na comitiva que o acompanhou na travessia dos túneis que tanta tinta tinham feito e ainda fazem correr. Passados mais de doze anos sobre esta data, o trânsito automóvel flui sob um raro e valioso património, lamentavelmente, deixado ao abandono e em degradação.

 

Há cerca de 95 milhões de anos, no Cretácico, esta região e, como ela, parte da actual Estremadura, era baixa, ribeirinha, plana e alagadiça, numa transição do meio continental para o marinho. O clima era quente e húmido e a vegetação abundante. O oceano Atlântico não tinha ainda, na sua progressão de abertura para norte, separado suficientemente os continentes norte-americano e euro-asiático, havendo, sim, no que é hoje a orla ocidental de Portugal, uma penetração de mar limitado, a Oeste, por terras actualmente do lado de lá do Atlântico, na Terra Nova e no Labrador e, a Leste, pelo bordo ocidental da Ibéria. É nesta espécie de estreito e extenso golfo que se passa grande parte da história geológica desta orla, de que a serra de Sintra é parte integrante.

Ao deslocarem-se nas margens dos rios, lagos ou lagunas litorais, os animais deixaram impressas as suas pegadas no chão húmido, ou mesmo na vasa do fundo de zonas pantanosas. Esses sedimentos, ao secarem e sempre que o acaso permitiu a sua cobertura por novos depósitos, ficaram protegidos e, com eles, as pegadas. A evolução geológica da região conduziu a que estas ficassem sob grande espessura de sedimentos marinhos, testemunhos da invasão pelo mar durante mais alguns milhões de anos, sedimentos que se transformaram em calcário ao longo do tempo, através de processos lentos e complexos que nos permitem reconstituir essa evolução. As pegadas de Carenque foram deixados sobre terrenos planos, horizontais e sub-horizontais e, se hoje as encontramos numa superfície inclinada é, tão-só e apenas, porque esses terrenos foram deslocados da sua posição inicial, aquando da elevação do maciço de Sintra. Estas marcas, postas a descoberto pelo trabalho de lavra da pedreira, têm o valor de fósseis com o maior interesse na pesquisa da referida história geológica, informando-nos ainda sobre o paleoambiente preferido pelos animais que as deixaram. É esta a história do nosso velho passado que se pode ler e contar na importante jazida de Pego Longo. Foi este capítulo da caminhada do “planeta azul” que esteve prestes a perder-se em nome do “progresso” e que, os media, a opinião pública e o bom senso acabaram por salvar.

Como medida de precaução tomada no início das obras de abertura dos túneis e por aconselhamento do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), o Museu procedeu à cobertura das pegadas com geotextil, sobre o qual se depositou uma espessa capa de inertes. Antes, porém, foi feito um molde contínuo do trilho principal, em latex. Assim, as pegadas permanecerão protegidas até à musealização do sítio que, mais cedo ou mais tarde, terá de acontecer.

Já o trânsito corria, havia dois anos, sob os túneis de Carenque, quando foi publicado o Dec. 19/97, de 5 de Maio, que classificou esta jazida como Monumento Natural. O pedido de classificação, dirigido ao Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (depois ICN) pela Câmara Municipal de Sintra e pelo nosso Museu, fora apresentado mais de quatro anos antes. Quatro anos de desinteresses ou de outras razões desconhecidas, difíceis de explicar. Solicitada como medida de salvaguarda que impedisse a destruição das pegadas, o diploma legal que as protegeria chegou, assim, com quatro anos de atraso. É lícito conjecturar que este Serviço tivesse instruções para ir retendo o processo. Esta classificação acabou por ser uma diligência desnecessária, uma vez que o processo ganhou dimensão nacional, com repercussão internacional, e a opinião pública teve influência decisiva na louvável decisão do governo. Desnecessária e, do meu ponto de vista, inconveniente, porque uma vez classificada esta ocorrência, nada ali se pode fazer sem a obrigatória “luz verde” do ICN, instituição que, praticamente, ao longo dos anos, nunca mostrou qualquer vocação para a geodiversidade, em geral, e para a geoconservação, em particular. Foi o que aconteceu, mais tarde, com o projecto do Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque). Concluído este pelo Arqtº. Mário Moutinho, do quadro do nosso Museu, foi, como era devido, submetido à apreciação do ICN. Achou este Instituto que o nosso projecto tinha volumetria a mais. Exigiu, assim, que fosse eliminado o que havíamos proposto em moldes de observatório astronómico a céu aberto, um terraço sem equipamentos e apenas com a marcação de pontos e direcções fundamentais em orientação geográfica e astronómica (na concepção do professor Márcio Campos, da Universidade de Campinas, Brasil). O argumento usado pelos técnicos do ICN para esta sua decisão – que teve como consequência atrasar o processo e, por isso, inviabilizar a sua boa resolução, então em promissora perspectiva – foi o de que a nebulosidade regional não permitia ver as estrelas. Não desejando atrasá-lo mais, procedemos às alterações exigidas, não obstante as considerarmos uma pura manifestação de autoridade, desnecessária e falha de sensibilidade pedagógica, dimanada de uma instituição que nada fez, até hoje, pela manutenção deste geomonumento que classificou e, por isso mesmo, deveria proteger. Feita esta alteração, o projecto foi finalmente aprovado pela Câmara Municipal de Sintra, com mais de quatro anos de atraso, em 2001. Presidia à autarquia a Dr.ª Edite Estrela. Nesta fase, o vereador Dr. Herculano Pombo estava a ajudar-nos na via de obtenção do financiamento necessário à construção do referido Museu e Centro de Interpretação, mas essa ajuda perdeu-se na mudança de vereação que se seguiu. De então para cá nada mais foi feito e já passaram sete anos…Como resposta às várias insistências que tenho desenvolvido junto da actual presidência desta Câmara, no sentido da concretização deste projecto, tenho recebido bom trato, promessas e a muita simpatia do Prof. Fernando Seara, o que nada adianta na resolução deste problema.

O projecto do Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo inclui o “pegarium”, o edifício principal, o poço, o jardim de minerais e rochas e o jardim do Cretácico. O “pegarium” é uma estrutura leve, transparente, de metal e vidro, cobrindo as pegadas a fim de as resguardar das intempéries. O edifício principal dispõe de um auditório, de salas de exposições temporárias e de outras dependências adequadas a este tipo de equipamentos (armazém, cafetaria, loja, lavabos, etc.). O poço, escavado na rocha, sob o edifício principal, é uma escadaria em espiral que permitirá a observação directa dos aspectos litológicos, paleontológicos e estruturais do substrato local. Ao descê-lo, o visitante vai observando camadas sedimentares sucessivamente mais antigas, ou seja, vai recuando no tempo até ao dos dinossáurios que aqui viveram. O jardim dos minerais e rochas é um espaço ao ar livre destinado a mostrar as rochas e os minerais da região, com relevo especial dado à Serra de Sintra, e explicar a evolução geológica desta parcela do território. Por último, o jardim do Cretácico constituirá um mostruário das espécies botânicas vindas desse tempo, complementado com réplicas de dinossáurios e de outros animais seus contemporâneos.

A construção do Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo continua à espera, passados sete anos sobre a aprovação do respectivo projecto de arquitectura. Entretanto, a jazida degrada-se, sob o geotextil, por infiltração das águas pluviais, e sob a vigência de uma administração cega, surda e muda, indiferente à verba já ali investida. Este projecto, que envolve custos tidos por vultuosos, representa muito pouco face à cifra gasta com a abertura dos túneis, além de que pode, perfeitamente, ser faseado no tempo.

E quando, em nome dos euros, se argumenta contra este empreendimento, podemos responder com o enorme potencial desta jazida com pólo de interesse turístico. A topografia do terreno permite uma boa adaptação do local aos fins em vista, dispondo do lado SW de um pequeno relevo (residual da exploração da pedreira) adaptável, por excelência, a miradouro, de onde se pode observar, de um só golpe de vista e no conjunto, toda a camada – uma imensa laje pejada de pegadas – levemente basculada no sentido do local do observador, numa panorâmica de justificada e invulgar grandiosidade. Em acréscimo deste significativo potencial está o facto de a jazida se situar na vizinhança de uma grande metrópole e numa região de intensa procura turística (Sintra, Queluz, Belas) e, ainda, o de ser servida por duas importantes rodovias, a via rápida Lisboa-Sintra (IC-19), por Queluz, e a Circular Regional Externa de Lisboa (CREL-A9) que a torna acessível pelo nó de Belas e, no futuro, mais comodamente, pelo de Colaride.

A jazida de Pego Longo e o futuro Museu e Centro de Interpretação ultrapassarão o contexto local e até o nacional. O seu reconhecimento como valioso e excepcional património geológico e paleontológico, à escala internacional, é hoje um dado adquirido. Assim e tendo em conta a condição privilegiada da região sintrense e a sua recente classificação, pela UNESCO, como Património Mundial, se justifica todo o envolvimento que possa surgir, por parte da Administração Central, nesta realização que transcende não só as fronteiras da autarquia, como também as do País.

É hoje evidente, repetimo-lo, que a jazida de Pego Longo foi salva do bulldozer e do asfalto com o apoio das escolas de todos os graus de ensino, de norte a sul do país, da comunidade científica nacional e internacional e, sobretudo, de toda a comunicação social. Desta convergência resultou uma muralha de opinião pública invulgarmente informada, interessada e interveniente, com uma dimensão, cremos, nunca antes vista e só igualada, uns anos depois, pela arrasadora batalha em defesa do santuário rupestre do vale do rio Côa. É imperioso e urgente dar concretização ao projecto, há sete anos adormecido numa gaveta da Câmara, e a maneira de o conseguir é levantar, de novo, a opinião pública.

Os túneis de Carenque estão já a cumprir a sua função, isto é, responder às exigências do progresso, sem destruir o património. Estão ainda, inclusivamente, a publicitar muito eficazmente a presença deste geomonumento mediante uma excepcionalmente feliz e artística concepção da autoria do Arquitecto João Alves Baptista, da firma “Frederico Valsassina, Arquitectos”. Em boa hora, entendeu a BRISA distinguir esta obra com uma alusão artística à causa que determinou a abertura daqueles túneis, o que mereceu, desde logo, o meu mais vivo aplauso. Foi assim que Alves Baptista concebeu dois dinossáurios gigantes enfrentando o trânsito que os atravessa, numa estilização formal, de grande rapidez de leitura, sugerindo o atravessamento dos seus corpos pelo recurso a referências anatómicas colocadas nas entradas e saídas de cada túnel. O efeito conseguido não podia ser melhor. Só lhes falta iluminação adequada que lhes permita manter e até realçar a mesma função durante a noite.

Todos sabemos que os dinossáurios constituem um tema de enorme atracção entre o público e que qualquer iniciativa neste domínio da paleontologia vende bem. A exposição dos dinossáurios robotizados, levada a efeito pelo Museu Nacional de História Natural, assim o demonstra. Nesta realidade, a Jazida de Pego Longo, convenientemente adaptada a uma oferta de turismo da natureza, de grande qualidade e suficientemente bem equipada e promovida, garante total rentabilidade a todo o investimento que ali se queira fazer. Pela minha parte, continuo a oferecer, graciosamente, o meu trabalho na concretização deste projecto.

Uma consequência desta batalha foi a publicação do decreto-lei 19/93, de 23 de Janeiro, que criou a figura de Monumento Natural, ao tempo do ministro do Ambiente Carlos Borrego.

 

 



[1] – Este episódio relatei-o com mais pormenor no texto que intitulei de “A escola que tem o meu nome”.

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