O verdadeiro explicadinho
Bernardo de Brito e Cunha
TODAS AS PESSOAS achavam que o ministro Vítor Gaspar era um dos ministros mais explicadinhos de sempre. Pouco tempo depois constataram que estavam enganadas, e que Vítor Gaspar era apenas um ministro de falinhas mansas – com a agravante de lhes ir ao bolso assídua e descaradamente. E começaram a não achar graça ao seu ar explicado, a que só falta (como, de resto, a todo o Governo) o remate salazarista de “a bem da Nação”, que o povo é outra coisa e este nosso, então, está sobejamente habituado a passar fome. Mas essa fome tem limites e é por causa desse limite que o povo sai cada vez mais à rua, quer D. Policarpo ache que resulta quer não. A verdade é que o explicadinho é outro: chama-se José Gomes Ferreira, como o poeta, e mora, se assim se pode dizer, em Carnaxide.
CHAMA-SE ENTÃO José Gomes Ferreira e é subdiretor de informação da SIC. E é ele que, depois de um comunicado do primeiro-ministro ou do ministro das Finanças, aparece nos ecrãs da estação a desmontar todo o discurso que ouvimos. Os velhos mestres da imprensa defendem que “sem bom jornalismo não há democracia” e o subdiretor de Informação da estação de Carnaxide fez dessa premissa quase a sua missão de vida. Sim, porque a sua vida é trabalho, trabalho, trabalho. É um workaholic assumido, reconhecendo que, mesmo ao fim de semana, transporta dentro do seu saco vários livros técnicos ou relatórios do Tribunal de Contas. É o estudo constante que lhe dá segurança para confrontar os entrevistados que tentam escapar às suas questões. Prepara-se também falando com economistas, gestores ou fiscalistas. Será talvez por isso que, com 48 anos, já vai tendo os cabelos grisalhos. E todos os que trabalharam com ele (no Público ou na TSF, por exemplo) não têm dúvidas em dizer que se trata de um jornalista muito organizado e consistente, que não se coíbe de exprimir o seu ponto de vista, quando entende que essa é a melhor forma de questionar os seus entrevistados, e todos fazem questão de referir que tal coisa não é muito usual em Portugal.
GOMES FERREIRA editorializa o jornalismo que faz e o facto de partilhar as suas opiniões é elogiado por uns e criticado por outros. Tem apenas uma defesa, com que se justifica amiúde: o facto de antes de ser jornalista ser cidadão, o de ter sentimentos e não os esconder, o facto de se indignar. E acha que estaria a faltar a um dever de verdade e transparência com os espetadores se assim não procedesse. Tem opiniões fortes e não receia apresentá-las. Além disso, é claro na linguagem e isso é fundamental para atrair o interesse do público. E como José Gomes Ferreira não é um simples apresentador de noticiário mas, sobretudo, um comentador, então tem todo o direito a ter opiniões – e é assim (e por causa disso) que as pessoas o veem, e procuram na sua palavra e nas suas explicações aquilo que não entenderam em toda a extensão nos discursos de Passos ou de Gaspar. Porque a economia é uma área difícil de descodificar e há poucos jornalistas com a sua capacidade e clareza. E é por isso que é sempre um gosto ouvi-lo – e uma das poucas razões que me faz deixar a RTP e procurar a SIC.
SÃO NOTÁVEIS, os documentários que a RTP exibe e a que chama “BBC Terra”. O da última terça-feira (e que julgo não ter sido o único de uma mesma série) que nos mostrava diversas aves em pleno voo de migração, tinha imagens absolutamente notáveis, que gostaria de saber como foram feitas. Talvez na próxima semana.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Não sei, com toda a franqueza, se estou muito de acordo com o formato do novo programa de Bárbara Guimarães, “Mentes Brilhantes”. O programa, que no fundo acaba por ser um concurso, coloca alguns jovens – muitos deles extremamente novos, em idade de primária ou primeiros anos do liceu – a responder a perguntas. (…) Depois, levanta-se aqui um outro problema: de que forma é que uma pessoa de 10, 11 ou 12 anos, está preparada para se confrontar com os seus próprios falhanços? Confesso que nunca li com muita atenção o genérico do programa, mas parece-me que se justificaria (e muito) que aquelas crianças fossem acompanhadas antes, durante e depois, por um psicólogo. É exactamente isso: o que eu quero dizer é que aquele concurso é uma violência. Não sei que marcas deixará nos concorrentes, não sei como reagirão aquelas ‘mentes brilhantes’ quando perderem uma eliminatória só por terem falhado uma resposta. Nós, que somos adultos, sabemos que falhar é perfeitamente humano e todos nós, uns mais do que outros, já falhámos na vida. Mas aqueles miúdos, que começam (quanto a mim erradamente) por ser intitulados de “mentes brilhantes”, estarão preparados para tudo – mesmo para o falhanço? Não o creio.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3953 – 19 de outubro, 2012

