Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 10th 2026

QUE VIVA VERDI, HOJE E SEMPRE

José Jorge Letria

No passado dia 10 de Outubro comemoraram-se os 200 anos do nascimento de Giuseppe Verdi, um dos nomes mais marcantes de toda a história da música ocidental, a par de Mozart, Beethoven ou Wagner. Para além disso, Verdi tornou-se um símbolo nacional e europeu da luta pelos valores da liberdade e da unificação da Itália.
De uma inexcedível beleza melódica, a sua obra nasce de um prodigioso talento criador que nunca conheceu quebra ou desalento. Ao longo de 54 anos, o compositor criou cerca de 30 óperas e manteve uma intensa correspondência, tornada essencial para o conhecimento da sua obra em geral e, em particular, da génese de algumas óperas.
Nascido no mesmo ano de Wagner, Verdi incorporou no seu imaginário como criador musical os grandes temas políticos e históricos do seu tempo, recorrendo frequentemente a situações e personagens da Antiguidade para dar corpo à defesa de princípios e ideais que o tempo eternizou.
“La Traviata”, “Il Trovatore”, “Rigoletto”, “Nabuco”, “Ainda” ou “Otello”, cujas árias muita gente sabe de cor, mesmo não sendo reconhecidamente melómana, dão a medida do seu génio como compositor de infinitos recursos criativos.
Verdi nunca rejeitou a inscrição da sua obra nos grandes combates políticos e sociais do seu tempo, nomeadamente a luta pela unificação da Itália, numa Europa burguesa que exigia a afirmação dessa soberania. Por isso, a frase “Viva Verdi”, que passou a ser inscrita nas paredes das cidades italianas, tornou-se um sinónimo da luta dos italianos pela unificação, pela independência e pela liberdade. Do mesmo modo, o coro “Va Pensiero”, da ópera “Nabucco”, prodigiosa melodia, converteu-se num mobilizador hino à liberdade que hoje renasce nas ruas e praças italianas cantado por centenas de milhares de pessoas que querem tomar posição pública e colectiva contra a austeridade, com o poder dos ricos e do grande capital financeiro, contra a corrupção, o desemprego e o medo.
Há melodias que nunca perdem essa força e esse poderoso valor simbólico. O mesmo tem vindo a acontecer em Portugal com “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, bandeira que voltou a desfraldar-se contra um governo anti-popular, em nome dos valores da liberdade, da democracia, da solidariedade e da justiça social, trazendo à memória o melhor que o 25 de Abril representa para Portugal.
Recordar hoje Verdi é recordar algumas das maiores e mais belas óperas de toda a história da música e lembrar a grandeza dos ideais que o pensamento único, a degradação da política e das instituições públicas e a crise da própria unidade europeia não conseguem fazer prescrever ou ofuscar.
Por isso, que viva Verdi, hoje e sempre, por ser símbolo e sinónimo de uma liberdade consistente e responsável de que todos precisamos para não deixar morrer os ideais e os sonhos que um dia deram sentido a esta frase. “Vai pensamento…”

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3999 de 18 de Outubro de 2013

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