Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Coisas estranhas se passam no meu televisor

Bernardo de Brito e Cunha

CONFESSO que é um pouco a contra gosto que digo que não gostei da final do programa “Got Talent Portugal”. E é a contra gosto porque reconheço que o programa tem virtualidades: é uma montra de artistas nacionais (incluindo mesmo aquele emigrante que veio expressamente de Paris) e das mais variadas formas de arte, sobretudo porque inclui algumas destrezas geralmente muito menos divulgadas. É evidente que sobressaem os cantores: é o mais fácil, toda a gente nasce cantor neste país – nem que seja no chuveiro – e depois grande parte dos cantores concorrentes, muito possivelmente já tiveram experiência nos “Ídolos”, nos “Pequenos Cantores” ou lá como se chama o caça talentos infantil da TVI, e noutros que tais. Já sabem como é, sabem mexer-se em palco, vão tendo já algum traquejo e não vacilam perante as câmaras. Poderia dizer-se que o caminho está bastante mais facilitado para eles.

OS JURADOS, meu Deus, é que eram recambiados para outro lado qualquer: uma que voltasse para os grandes musicais do East End londrino, a outra que fosse cantar fados para as Gentes do Meu País, e o outro que voltasse para as artes circenses que tanto ama. Só estão três? É verdade: porque Manuel Moura dos Santos ficava. O novo Manuel, esse, ficava. Revelou-se, desde a outra experiência anterior uma outra coisa, completamente diferente daquilo que tinha mostrado em experiências anteriores. E também porque já estou um bocadinho farto dos uníssonos das três graças acima referidas: “Foste sensacional”, “Tu deixaste-me arrepiado”, “Tens fortes possibilidades de ganhar esta final”. Ora bolas! Tanta pele de galinha também chateia! Ao menos Manuel Moura dos Santos tem coisas como: “Olha, todos gostaram muito, mas eu achei isto uma pepineira. E por mim tens um “não”.” Pronto, limpinho.

MAS COMO expliquei no primeiro parágrafo, numa final em que havia acrobatas, dançarinos, equilibristas, dois ilusionistas, contorcionistas, dois acordeonistas, um grupo musical mais ou menos arraçado de flamenco e uma cantora, quem foi que ganhou? A cantora, claro. Muito embora me tenha parecido que Micaela Abreu não cumpriu – já que estamos em ano de Jogos Olímpicos – os mínimos, e muito menos os máximos… E, sinceramente, entre os restantes 12 havia gente com muitíssimo mais talento e, mais uma vez, fiquei com aquela sensação de que não ganhou o melhor dos finalistas.

ANDO A ESTRANHAR o Grupo Impresa, pelo menos nalgumas das suas vertentes. Primeiro foi o semanário Expresso, que no curto espaço de uma semana lançou dúvidas (a propósito dos Panama Papers, em que é parte investigativa portuguesa, juntamente com a TVI) sobre a idoneidade de diversos jornalistas portugueses – sem os mencionar, preto no branco, o que equivale a um ataque generalizado e canibalesco à classe que é a sua principal fonte de trabalho. Eu nunca recebi nada do BES ou do GES: mas isso sou eu. A minha mulher também não. Como os jornalistas devem rondar os 10 mil, seriam necessárias 9998 declarações iguais para que a classe saísse incólume.
Depois, como se isto não fosse grave, o Expresso noticiou que Marcelo Rebelo de Sousa, na sua visita de estado a Moçambique, teria uma conversa com Malangatana – o que será altamente improvável, dado que Malangatana faleceu em Matosinhos há mais de cinco anos.
E, em matéria de televisão, que é o que mais interessa para aqui, temos esse grande êxito que é “E se Fosse Consigo?”. Que serve não só como programa independente, semanal, mas que é alimentado com dados de audiências e mesas redondas nos restantes dias da semana. A ideia do programa parece-me boa: a maneira como foi posta em prática, parece-me péssima. Mas voltaremos a isto.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Uma coisa teremos de dizer do “Só Visto!”, coisa que não poderemos dizer de mais quase nenhum programa de televisão: convida quem acha que deve convidar, por motivos melhores ou piores, mas nunca por ser de um programa da concorrência. Nos dias que correm isso já não é pouco e é uma atitude tão liberal que merece ficar anotada. No entanto… Julgo que tudo começou há umas quatro ou cinco semanas, altura em que os Gato Fedorento debutaram (lindo!!) na estação pública. A partir dessa altura o “Só Visto!” começou a parecer-se, estranhamente, com outros programas que já nem existem. Refiro-me ao “Sete Folhas” – se é que era esse o seu nome –, o grande precursor das revistas de televisão. Para os mais novos, o “Sete Folhas” era um programa semanal que nos vinha apresentar as novidades da semana seguinte. O que fosse novidade, mesmo que fosse requentada, lá estava. E assim acontece agora com o “Só Visto!”. Ele há Gato Fedorento? O “Só Visto!” anuncia. Ele há uma outra novela brasileira? O “Só Visto!” publicita.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4116/4117 de 6 de Maio de 2016

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