Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

E se fossem os meus 15 minutos de fama?

Bernardo de Brito e Cunha

PROVAVELMENTE incendiada pelo recente crescendo de audiência da CMTV, a TVI decidiu, à sua maneira, fazer mais ou menos o mesmo: incendiar os ânimos, tendo por pano de fundo o tricampeonato de futebol conquistado pelo Benfica no passado domingo. O que a TVI fez, à hora do almoço desta terça-feira (e provavelmente à noite, no mesmo dia ou anterior) foi uma peça para a qual já não há paciência, sobretudo depois da vermelhidão que se apossou de todas as televisões a partir das sete da tarde de domingo com “prolongamento” pelo dia de segunda-feira, como se pudesse eventualmente haver alguém que ainda não tivesse tomado conhecimento do feliz evento… Eu sou do Benfica: mas como costuma dizer o povo, “o que é de mais enjoa”. Mas reconheço que um tri não é coisa comum: o próprio Benfica só tem uns cinco ou seis, portanto alguma euforia é compreensível.

O QUE a TVI fez à hora do almoço de terça foi mostrar, como dizer?, uma resenha do que foi este campeonato, mas em termos de Benfica e Sporting, ocasionalmente com o Porto pelo meio. O que até poderia ser interessante: ainda o ano passado o Benfica estava a não sei quantos pontos, depois o Porto subiu, depois desceu, depois o Sporting teve sete pontos de avanço, esse tipo de estatística que todos os que se interessam por futebol sabem de cor e salteado. Fosse apenas isto e, com o óbice apontado no período anterior, já seria um pouco de exagero. Mas a TVI foi mais longe: a cada jornada recordada, a estação de Queluz reproduzia também as invectivas de Jorge Jesus e as respostas ponderadas de Rui Vitória, recordava as famosas publicações de Bruno de Carvalho no Facebook e por aí fora, nos diversos acintes jogados às mãos cheias desde Agosto. Parece-me exagerado e perigoso este atirar de (mais) lenha para a fogueira: porque no dia em que as coisas passarem das palavras aos actos, parte da factura terá de ser passada à TVI.

PROMETI que voltaria ao “E se Fosse Consigo?” da SIC. Bem sei que os programas de televisão devem ser pedagógicos e didácticos, mas este corre um perigo – e não é pequeno. Nesta altura em que escrevo foram para o ar uns três ou quatro programas e os espectadores já perceberam a mecânica: são dois ou três actores que fazem alguma coisa de censurável (ou não), de reprovável (ou não), e o ser censurável, reprovável, etc., é uma coisa que fica para mais um actor, exterior aos outros dois, atacar e esperar que haja uma reacção por parte de quem assiste. Muitas vezes as pessoas passam e não ligam, mas muitas outras (muitas, mesmo) interferem porque a coisa as incomoda.

A PARTIR daqui, dos episódios que nos mostraram a mecânica, entra-se no domínio do reality show, isto é: tudo o que for zanga violenta num jardim qualquer; tudo o que for um casal homossexual numa paragem de autocarros; tudo, em suma, que forem duas pessoas a saírem da “norma”, alto aí que pode haver uma câmara de televisão por perto. Da iniciativa didáctica da SIC passámos rapidamente para o mais baratinho de todos os reality shows jamais produzidos. E não sei se isto é bom. De hoje para amanhã encontramos um casal homossexual de mão dada e uma fulana qualquer que se sente ofendida com aquilo: intervimos para defender os (as) homossexuais porque achamos que eles têm todo o direito a andar de mão dada, ou porque pode ser que o meu dia tenha chegado e os meus lindos olhos apareçam na televisão? E já nem quero falar na circunstância de, no programa desta segunda, uma das pessoas que se insurgiu ter sido Catarina Martins, que isso dava pano para mangas…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Deixem-me que vos diga que não costumo embarcar nas grandes publicidades das televisões. Desta vez, na ocasião de (re)inaugurar a praça do Campo Pequeno, achei que era capaz de sair dali uma obra mais ou menos asseada. Pois sim, está bem. A tragédia começou, de resto, de véspera: a minha mãe – vá-se lá saber exactamente porquê – tinha vontade de ver o programa que mostrou o que foi feito para recuperar a praça e que teve por condutor Diogo Infante. Ao ver que a programação indicava que o programa ia começar à uma da manhã e que durava 45 minutos, lá telefonou a pedir uma gravação, que era capaz de não aguentar acordada. Claro que sim, que a gente pelas mães faz tudo – principalmente se for a nossa. Então não é que o programa foi para o ar já depois da uma da manhã e teve apenas a duração de uns 25 minutos? Quer dizer: uma coisa que vem a ser anunciada com tanta pompa e circunstância, que haja alguém que me explique por que é que foi preciso esperar pela “Herança”, pelos “Prós e Contras”, pelo não sei quê do Mundial, etc, etc. A minha mãe vai ver, porque de facto lho gravei: mas quantos mais tiveram pachorra – ou filhos?»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4118/4119 de 20 de Maio de 2016

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