Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Não fosse o mau gosto e não se usava amarelo…

Bernardo de Brito e Cunha

NÃO HÁ quem não tenha dado pela já famosa questão dos colégios particulares, das manifestações de t-shirts amarelas e números de participantes altamente exagerados por grande parte da imprensa escrita e das televisões em particular – que, como sempre, citam os jornais e aumentam uns pozinhos… Tudo porque, desde há muito, que o jornalismo se faz sentado à secretária e com pouco cuidado (ou nenhum) na confirmação dos factos. O que levou, por exemplo, a que uma manifestação num local onde não podiam, fisicamente, caber mais de 11 mil pessoas – o espaço em frente à Assembleia – fosse quantificada em mais de 40 mil…

O PROBLEMA, ou a questão, se se preferir, é que o governo decidiu que não deve subsidiar turmas de colégios particulares em zonas onde existe ensino público e, em diversíssimos casos, muitas vagas. Diga-se, em boa verdade, que esta questão se aplica apenas a uma pequeníssima percentagem de casos – e basta fazer as contas. Vejamos: há 2.800 colégios em Portugal, dos quais apenas 3% têm um contrato de associação com o Estado. Desses, apenas 1,5% deixarão de usufruir de subsídios do Estado. Não se percebe, então, o porquê de tanto mediatismo em torno de um tema aparentemente irrelevante e cujo impacto potencial é tão reduzido na população (sobretudo tendo em conta que só no fim de cada ciclo as turmas serão transferidas para as escolas públicas mais próximas).

ESTA é a questão que está por responder e para a qual fica uma pequena hipótese: dos 79 colégios privados atingidos, 15 pertencem a um grande grupo empresarial chamado GPS, cujos responsáveis são arguidos por corrupção e tráfico de influências (segundo notícia de terça-feira, dia em que escrevo) António Calvete foi deputado do PS e José Manuel Canavarro foi secretário de Estado do PSD. Dos 6 (seis!) colégios do grupo GPS que vão perder o financiamento, quase todos são da zona de Leiria e Coimbra, precisamente os locais onde têm ocorrido as manifestações com maior visibilidade na imprensa escrita e na televisão. Como se vê, a influência deste grupo está presente em vários domínios…

MAS QUAL é o valor global dos contratos extintos? Que interesses económicos e empresariais estão por detrás destes movimentos “cívicos”? Quem financia (e por que meios) as manifestações? Aqui fica o ensaio de uma primeira resposta, adiantado por uma página do Facebook intitulada “Truques da Imprensa Portuguesa” que se dedica a desmontar as artimanhas dos jornais e das TVs. No ano lectivo de 2015-2016, os seis colégios do grupo GPS visados pela extinção dos contratos de associação receberam do Estado, no total, 7.245 Milhões de euros. É esse o valor que irão perder, faseadamente, até se extinguirem os ciclos em curso de todas as turmas.
São os “empresários do ensino”, por sua vez, aqueles que mais perderão com esta medida e são também eles que contam com o suporte da imprensa, empenhada em insuflar artificialmente uma causa sem dimensão social e sem relevância política ou pública.

MAS O MAIS interessante para esta página, que é de televisão – e sabendo todos que e os noticiários de televisão são o retrato de cada estação – o que tem graça é que três canais não tenham tido pejo, a um dia da manifestação que já referi, de exibir três jornalistas envergando alegremente as cores dos colégios… Ficam os seus nomes, para memória futura: Cristina Reyna (TVI), Carla Trafaria (RTP) e Miguel Ribeiro (SIC).

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A transmissão da TVI, que prometia mundos e fundos – incluindo a transmissão de alguns jogos [do Campeonato de Sub-21] em alta definição – não me pareceu nada por aí além. Basta ver este pormenor: durante a primeira parte do jogo com a Alemanha, os comentadores de serviço foram fazendo o anúncio de que, no intervalo, iam em directo para o estádio do Benfica, onde Rui Costa ia ser apresentado como jogador. Chega o intervalo e lá vem o directo. Para mostrar e dizer o quê? O repórter de serviço na Luz assume um papel de repórter de rádio e vai tecendo comentários como se a câmara não estivesse lá. E que dizia ele? Pois qualquer coisa como isto: “Rui Costa vai ser hoje apresentado como jogador do Benfica, 12 anos depois de ter deixado esta equipa. Regressa, 12 anos passados, para representar a equipa onde estava antes de ter partido para Itália, onde jogou durante 12 anos. E ei-lo que vem a entrar na sala de imprensa, 12 anos depois de ter saído da Luz, e senta-se à mesa, ao lado do presidente…”»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4120/4121 de 3 de Junho de 2016

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