O homem dos presidentes
Bernardo de Brito e Cunha
A FOTO que correu as televisões e os jornais – a bem dizer a coisa deve ter ocorrido no sentido contrário, isto é: nos jornais e depois nas televisões – de um ex-primeiro ministro português, caminhando alegremente em direcção às Nações Unidas, ladeado por dois presidentes da República (um deles ex, naturalmente) é uma coisa nunca vista. E nunca vista no melhor sentido da expressão. É que se me dissessem que aquilo tinha acontecido com um ex-primeiro ministro britânico… (não, britânico não, que implicava Rainha e Duques e coisa assim) melhor: com um candidato francês a secretário-geral das Nações Unidas, ladeado por Hollande e Sarkozy, eu diria que era uma belíssima operação de marketing e de charme.
NÓS, por cá, temos uma certa tendência para minimizar o que é nosso e aquilo que fazemos. Mas, desta vez, eu não me calo: e estar a dizer que se fossem estrangeiros a fazer aquilo eu não me admiraria, só faz de mim um português que minimiza o que é nosso e aquilo que fazemos. Não: a ideia, que não sei quem a teve, foi genial. E sou o primeiro (bom, o primeiro não fui) a reconhecê-la e aplaudi-la. Viram o alcance da coisa? Um antigo primeiro-ministro ladeado pelo actual Presidente da República e por um antecessor, os três sem ligarem a cores partidárias e ao que eventualmente os poderia afastar, não é para qualquer país. E é isso mesmo que por estes dias, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas se reunir para a sessão anual, Portugal quer provar. Um país em peso atrás da candidatura de Guterres. Toda a força da diplomacia portuguesa a ajudar o ex-alto-comissário para os Refugiados a prosseguir a sua carreira internacional, agora à frente da própria ONU, substituindo o sul-coreano Ban Ki-moon já em 2017. E foi bom ter ouvido Marcelo Rebelo de Sousa na organização a discursar em português.
ESTAMOS naquela altura terrível do ano em que, numa semana ou coisa que o valha, se têm de liquidar as velhas telenovelas para dar lugar às novas. Que, por azar do destino, começaram antes de as outras terminarem, de onde resulta invariavelmente uma entremeada de velhas e novas. Com duas agravantes: as velhas deixaram de ter importância, como geralmente acontece a tudo o que é antigo neste país, pelo que recebem a parte menor da sanduíche e, mais ainda, neste final estertor é necessário resolver todos os problemas que se arrastaram durante meses. E não é que aquele ramerrão já habitual de repente ganha vida nova, o champanhe volta a ter bolhinhas e é um ver se te avias. Para não falar na chegada da nova (?) “Casa dos Segredos”: será que nunca mais ninguém percebe que aquilo já deu o que tinha a dar?
PARA aqueles que têm acesso à televisão por cabo e ao canal ACM (no ecrã aparece em minúsculas, mas não é grave) queria recomendar uma série. É Um thriller dramático que mistura crime, espionagem, tráfico de armas, traição e política. São estes os principais elementos de “O Gerente da Noite” uma mini-série de seis episódios que estreou em Portugal em Fevereiro e que o canal agora repete, nas noites de quarta-feira. Mas há mais para ver na trama britânica da BBC baseada no bestseller homónimo de John Le Carré e que marca o regresso de Hugh Laurie, o eterno Dr. House, à ficção televisiva. A propósito desta série convém dizer que algumas legendas aparecem embutidas nos episódios e, infelizmente, quando o genérico cita o autor do romance refere que a série é “baseada na novela de John Le Carré”, o que é um género que não fica bem ao autor. Mas tirando esse pormenor, esta é uma série a não perder.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Regressou Paquete de Oliveira, [provedor do telespectador] que falou em duas queixas recebidas. Uma dizia respeito a um canal de informação que, segundo o espectador queixoso, transmitira um programa que violava o código deontológico. Não o disse, mas presumi que se tratasse do código deontológico dos jornalistas. E explicou o que fez: falou com o director do canal em causa, que foi investigar o que se passara e, enquanto se esperava por esses resultados, o programa em causa foi suspenso preventivamente. E mais explicou Paquete de Oliveira que, uma vez que tudo estava a ser investigado, não ia referir nomes: nem o do canal, nem o do programa. Isto é, só o espectador queixoso soube do que estava o provedor a falar.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de intra, edição de 23 de Setembro de 2016.

