Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Junho 26th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Portugueses, um sérvio e uma angolana

Bernardo de Brito e Cunha

ISTO não é segredo para ninguém, já muitas vezes aqui o deixei bem claro: a Cristina Ferreira não integra a minha lista de apresentadores de televisão – e ela até é bastante larga. A lista, naturalmente. E quando começou a ser anunciado que Cristina e Pedro Teixeira iriam apresentar um concurso às 19 horas, mesmo sem o ver pensei logo: “Querem tramar o Mendes.” E querem mesmo, porque naquele horário, aquele que é carinhosamente designado por “o Gordo” não permitia que lhe metessem a foice no seu terreno. E isto acontece há cerca de 13 anos, altura em que Fernando Mendes começou a apresentar o programa “O Preço Certo”, da RTP1. Um formato que já dura há muitos anos (tantos que já foi caso de estudo por parte dos representantes do formato original) e que num dos últimos domingos, no dia 12, celebrou a emissão três mil com um programa especial, transmitido em directo a partir do Centro Multiusos de Lamego.

FOI, naturalmente, um dia cheio de emoções, como Fernando Mendes fez questão de referir na sua página do Facebook: “Ri, chorei e pulei, que não havia maneira de ficar quieto na grande terra de Lamego a celebrar a emissão 3000 de “O Preço Certo”. E eu que pensava há uns 13 anos que ia ficar a fazer aquilo por três meses e depois iria à minha vida, mal sabendo que uma parte tão grande da minha vida ia ser passada a fazer aquilo. E insisto, porque nunca soube de melhor razão para ser teimoso.” Aparentemente muito satisfeito com o sucesso do seu trabalho, Fernando Mendes não deixou de agradecer, naquela rede social, a todos os que o têm acompanhado: “Obrigado à maravilhosa equipa que tem a generosidade de me deixar ser a cara e a barriga do programa. Obrigado aos concorrentes, aos que não perdem um programa lá em casa, no café, na casa de repouso, na imensa plateia chamada Portugal. No continente, ilhas e com a nossa gente de fibra que anda à luta mundo fora e foi de ida a sonhar com a volta. Um Gordo d’Ouro para todos!”, rematou.

CLARO que vi Cristina e Pedro – mas não muito. Porque se a alternativa a “O Preço Certo” (e às graças de improviso do seu apresentador) é a gritaria e a agitação de “Apanha se Puderes”, então não quero. O concurso da TVI pode dar prémios até 50 mil euros, sensivelmente o dobro daquilo que se vê na montra final do concurso de Fernando Mendes: mas, apesar de servir os alvos da estação de Queluz, não serve os meus próprios objectivos – nomeadamente aqueles que se relacionam com o entretenimento e, igualmente importante, a minha saúde auditiva.

A TVI transmitiu no último domingo o segundo episódio de “Pesadelo na Cozinha”, do chef Ljubomir Stanisic que, nas audiências, foi o programa mais visto no horário de exibição. Um milhão e 282 mil telespectadores acompanharam o programa da TVI, que elevou, assim, a audiência do seu episódio de estreia, que se tinha ficado pelo um milhão e 178 mil espectadores. O programa de culinária registou um rating de 13,5% e um share de 30,4%, ultrapassando no seu horário a estreia de “Got Talent Portugal” na RTP. Mas, segundo notícias publicadas nos jornais, os conselhos do sérvio Ljubomir Stanisic à tasca Rio Minho (que foi gravado em Janeiro) foram rapidamente esquecidos, tal como já acontecera com Gordon Ramsay e o formato que deu origem a este programa. O que coloca a questão da utilidade prática destes programas.

A SIC tem vindo a exibir, em sinal aberto e nos seus canais temáticos, algumas reportagens dedicadas ao regime de Luanda, razão que a agência noticiosa AFP avança como estando na base da suspensão dos canais em Angola. A operadora ZAP, da empresária Isabel dos Santos, deixou de transmitir a SIC Internacional e SIC Notícias. Os dois canais deixaram de constar da sua grelha em Angola e Moçambique. A SIC já reagiu e disse que esta decisão lhe é alheia, mas realça que os dois canais [SIC Internacional e SIC Notícias] podem continuar a ser vistos na DSTV em Angola e Moçambique, e na StarTimes em Moçambique. O que não explica a suspensão das transmissões: mas imagina-se o porquê…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Não é segredo para ninguém que, desde há muitos anos, Pinto Balsemão se bate na Europa para que o serviço público mude de mãos – isto é, que passe da RTP para a SIC, como está bom de perceber. Aqueles 200 e não sei quantos milhões de euros de compensação certamente fariam muito jeito à Impresa para equilibrar umas contas cada vez mais periclitantes, mas as coisas não são assim tão simples. Pinto Balsemão parece não ter percebido ainda que, para que isso pudesse eventualmente acontecer, não seria com a SIC que tem. E o que tornou mais irritante a intervenção de Pinto Balsemão, foi a pergunta quase constante “O que é que a RTP, enquanto serviço público, tem que os outros canais não tenham?”, como se estivesse completamente a leste da programação da RTP mas, mais grave ainda, como se não soubesse o que o seu próprio canal de televisão exibe.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 24 de Março de 2017

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