A coruja, essa ave de rapina
Bernardo de Brito e Cunha
Nem sempre estive de acordo com José Pacheco Pereira. Quando era mais miúdo (?) achei que aquela mudança de um partido de inspiração maoísta e da fundação de uma coisa chamada Clube da Esquerda Liberal, para o PPD-PSD era uma coisa terrível – como se as pessoas não pudessem mudar de clube, apaixonar-se por outra pessoa… Depois, finalmente, cresci e Pacheco Pereira passou a ser uma referência. Sobretudo quando em 2004 foi nomeado embaixador de Portugal na UNESCO e, um mês após a divulgação de que iria ocupar este cargo, quando se soube que Santana Lopes iria substituir Durão Barroso como primeiro-ministro, se demitiu por não querer ficar na dependência funcional de um governo que pretendia criticar.
O seu programa “Ponto Contraponto” estreou em 2009, com emissão às 21h30 na SIC Notícias mas, ao longo dos últimos sete anos foi sendo empurrado cada vez para um horário mais tardio. Actualmente, o programa de 15 minutos sobre comunicação social (escrevia a SIC Notícias na descrição do programa que “Ponto Contraponto” é “Um programa de opinião sobre aquilo que nos faz ter opinião: a comunicação social. Os media, os jornais, as rádios, os blogues, os livros, a televisão.”) estava a ser emitido à 1h30 da madrugada, o que motivou as mais duras críticas por parte do comentador. Este domingo, o “Ponto Contraponto” chegou ao fim e Pacheco Pereira “apagou-se” a si próprio do ecrã. Pelo caminho ficam as habituais e muito irónicas saudações aos “noctívagos”, ao “povo da noite”, “às aves nocturnas”, aos “amigos do escuro”, “irmãos da insónia”, à “gente que só vê o que quer ver”, aos “príncipes das trevas”, etc, etc, que é como quem diz, aos telespectadores daquele programa tão tardio. Sem esquecer outras aves nocturnas (e de rapina) de que todos os animais fogem. As corujas.
Como digo, o programa ainda está (à hora a que vos escrevo) assinalado na grelha da SIC Notícias como tendo transmissão semanal ao domingo à 1h30: mas na verdade o programa de comentário de Pacheco Pereira sobre jornalismo e media, intitulado “Ponto Contraponto”, viu o seu último episódio ser transmitido este último domingo. Sem explicar as razões para o fim do programa, Pacheco Pereira conduziu o episódio em formato de contagem decrescente (até falou de Julius Oppenheimer e do zero) e acabou por dizer que o programa iria “migrar para outras bandas, possivelmente com melhorias”.
Depois agradeceu a toda a equipa técnica e de produção que, ao longo dos últimos anos, esteve por detrás do programa de 15 minutos, agradeceu à SIC e a António José Teixeira, e, no final, “apagou o cenário”, ficando visível apenas a sua figura e o fundo verde do estúdio. “O cenário já desapareceu e agora vou-me apagar a mim próprio, despedindo-me com um até breve”, disse, deixando as luzes apagarem-se.
Tendo estreado em Junho de 2009, o espaço de opinião semanal de Pacheco Pereira era definido pelo próprio como “um programa de opinião sobre aquilo que nos faz ter opinião: a comunicação social. Os media, os jornais, as rádios, os blogues, os livros, a televisão”. Mas as sucessivas alterações ao nível da programação da SIC Notícias foram empurrando aquele curto programa para horários casa vez mais tardios, o que fez com que Pacheco Pereira começasse (quase) todos os programas com saudações irónicas aos seus telespectadores: os mais fiéis porque, àquelas horas, só vê de facto quem quer ver, dizia. E a gente via: porque não é preciso estarmos sempre de acordo com Pacheco Pereira para o considerarmos uma voz indispensável no panorama crítico português.
Na grelha da SIC Notícias para o próximo domingo já se pode ver o programa “Os Europeus” agendado para a 1h30, depois da supressão de “Ponto Contraponto”. Pacheco Pereira, contudo, continua a ser comentador residente do programa de comentário político “Quadratura do Círculo”, transmitido à quinta-feira às 23h.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Falo de uma rubrica – não é mais do que isso, porque a SIC não quer… – que aparece integrada no “Jornal da Noite” e que dá pelo nome sugestivo de “Livro de Reclamações”. A rubrica não tem nada a ver com a defesa do consumidor, a não ser que entendamos os nossos filhos como consumidores daquilo que lhes damos ou não. Tem um psicólogo a acompanhar as “queixas” das crianças e as “desculpas” dos pais, se for o caso: mas já estou a esticar-me. Para a semana falamos disto. E como estamos em maré de ameaças, vai daqui um viva para os Gato Fedorento, que no domingo fizeram o seu programa vestidos de meninos da Mocidade Portuguesa, ainda resquícios da vitória de Salazar no programa “Grandes Portugueses”. Confesso que não vi o programa todo: havia, noutro canal, um Benfica-Porto que podia alterar a classificação do campeonato – mas que saiu mijarete e tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 7 de Abril de 2017

