A Revolução e uma série de estalo
Bernardo de Brito e Cunha
Confesso que quando mudei de canal, na madrugada de 24 de Abril, para a RTP 1 as esperanças de encontrar um programa decente já a reflectir a data eram praticamente nulas. No entanto dei com uma reportagem do jornalista Jacinto Godinho, “Quando a Tropa Mandou na RTP”, sobre a importância e o papel da RTP nos acontecimentos políticos portugueses na altura da Revolução. A RTP passou de ser uma televisão ao serviço da ditadura para ser uma televisão ao serviço da Revolução. Por ser o órgão de comunicação social mais importante do país foi nesse período alvo de uma feroz batalha pelo seu controlo administrativo e pelo controlo da informação por parte das diversas forças políticas existentes. As intervenções (gravadas) de muitos dos que tiveram papéis preponderantes nessa luta foi extremamente interessante de seguir e de ver. Porque, não o esqueçamos, a RTP tinha imagens: algumas de fraca qualidade, é certo, mas mesmo assim recuperadas. Achei deliciosa a parte em que se contou como, a certa altura, o país teve duas RTPs diferentes: uma distribuída por quem mandava em Lisboa e outra, transmitida do Porto, ordenada por quem estava contra…
Não gosto muito de falar sobre a televisão por cabo por razões que, embora já explicadas, voltarei a enunciar: a televisão por cabo é paga e, portanto, nem todos têm acesso a ela, seja por vontade expressa, seja pelo encargo que ela representa. No entanto, muitas vezes apetece falar nas coisas boas que passam por esses canais – e que são bastantes. Uma delas passou no canal AMC e já teve repetições bastantes. No papel principal de “Taboo”, Tom Hardy, o actor que em alguns dos seus filmes mais conhecidos só mostrava parte da cara e estava fadado aos resmungos de um vilão da BD ou de um deserto pós-apocalíptico, decidiu que queria fazer algo diferente e não só mais um drama britânico na TV. um dos realizadores da nova série, Kristoffer Nyholm, tal como Hardy, não é novo na televisão. Trabalhou em “The Killing”, como Hardy trabalhou na mini-série “Irmãos de Armas. Estamos em 1814, a Companhia das Índias é toda uma personagem e (quase) um deus todo poderoso e James Delaney é um Tom Hardy duro, que se preocupa com coisas sobre as quais não sabemos muito. Esteve muitos anos em África, traz consigo diamantes e uma ambição – que não sabemos bem qual é mas que se suspeita ser uma vingança.
Há diamantes, uma guerra quase a terminar entre os emergentes EUA e o Reino Unido e críticos e espectadores tanto a tentar resolver um mistério quanto a brincar com os (já tradicionais e já quase caricaturais) grunhidos de Hardy, que se imaginam a princípio fazerem parte de uma linguagem estranha mas, como em quase nada desta série, nada é certo. Por que é que uma série descrita com termos como “encardido” ou “incompreensível” conquista tanta gente no canal original (primeiro a BBC 1 no Reino Unido, depois o canal FX nos EUA, ambas estreadas em Janeiro e depois entre nós no referido AMC) e nas discussões entre espectadores? Tem uma estrela de cinema, mais uma que ruma à televisão, e tem um bom mistério ao longo dos oito episódios que compõem a primeira série – sem que se saiba, de fonte muito, muito segura, se haverá uma segunda. Tudo ficou em suspenso. Caramba!, e que papel faz o actor Jonathan Pryce, de quem se poderá dizer que até a ler a sua lista de compras do supermercado terá, certamente, uma voz malévola!
O que se sabe ao certo é que a Hardy foi deixado em testamento um pequeno território no Canadá. Uma tirinha de terra, acaba por se saber, que valerá uma fortuna assim que a guerra com a América acabar, e muita gente não ficou feliz com o regresso de Hardy para reclamar a herança. Isto vem dar origem a uma guerra em três frentes: entre Hardy, que quer manter o que é seu, a sua meia-irmã e o marido, que sentem que foram excluídos, e a Companhia das Índias, que fará o que for preciso para lha tirar… Só peço que haja uma segunda série!
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Deve haver um patrocinador, uma marca qualquer que, podendo colocar aquele prémio num programa de outro canal, que tenha, eventualmente, maiores audiências, o prefere colocar na “Praça da Alegria” e no “Portugal no Coração”. Isto significa diversas coisas, mas a que nos interessa agora é constatar que há patrocinadores ou marcas que preferem os programas onde apareça gente com interesse, onde se fale de livros e de leitura e outros temas importantes da nossa vida, a outros que fazem seguramente mais ruído, mas que têm incomparavelmente menos substância. E isso é bom.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicado no Jornal de Sintra, edição de 5 de Maio de 2017

