Semanário Regionalista Independente
Domingo Abril 19th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Até um dia, Constança Cunha e Sá


Bernardo de Brito e Cunha

Há duas semanas escrevia nesta coluna: “Regressou – sem me avisar nem nada! – o Comissário Montalbano, já numa série com dois dígitos. Os anos não passam por ele (nem pela eterna namorada, Livia) e voltei a recuperar companhia para as noites de sábado. Voltei a babar-me de inveja pela casa do comissário sobre a praia, que ele – canalha! – aproveita todos os dias. A série, que se passa na Sicília, nesta série reflecte já a actualidade de há um par de anos, com os migrantes do norte de África a serem recolhidos no mar ou em barcos da polícia.” Foi sem o saber e sem intenção que não fosse a do empolgamento que dei esta notícia que pensava ser boa, mas os porquês e razões das televisões são desígnios insondáveis, como dizem que são os do Criador. Afinal a RTP foi buscar uma temporada de Comissário Montalbano, com dois dígitos, é certo, mas… igualmente com apenas dois episódios. Lá voltei a ficar sem companhia nas noites de sábado.

Convém explicar que, aí por volta do ano 2000, quando Constança Cunha e Sá entrou na TVI (e se separou de Vasco Pulido Valente, mas creio não haver relação entre os dois factos) não fui muito com a jornalista. Conhecia-a da escrita, dos tempos em que foi directora do Independente, mas quando a comecei a ver chamada a fazer o papel de comentadora nalgum telejornal achei-a, das duas uma, ou muito nervosa ou muito mal preparada e titubeante. Foi uma fase, porque já há uma série de anos que nos damos maravilhosamente – salvo seja. Adquiriu, com os anos, uma outra atitude, mais firme e por vezes divertida. Há dois ou três dias fiquei surpreendido por ter sabido que Constança iria abandonar a TVI – e a TVI24, naturalmente. Na semana passada, Paula Magalhães também anunciara que iria sair da estação de Queluz de Baixo.
Mas aquilo que achei surpreendente na mensagem de Twitter de Constança foi o ter posto o dedo na ferida. A mensagem dizia o seguinte: “Devo um esclarecimento a todos (os que me seguem ou não) e que me apoiaram nestes últimos tempos. Saí da TVI, que durante muitos anos foi a minha casa, por uma questão de dignidade, saúde mental e higiene. Nunca acabaria a minha vida profissional a trabalhar para a Cofina. Lamento”, frisava a jornalista e comentadora. Mais tarde viria outro post, a agradecer o apoio: “Antes de mais, quero agradecer a todos os que me apoiaram na minha saída da TVI e que me enviaram mensagens tão simpáticas a que eu, por mais que me esforce, não consigo corresponder. Muito obrigada por tudo”, escreveu. Como eu a percebo! Eu, que também estive prestes a acabar a minha vida profissional a trabalhar para a Cofina, percebo perfeitamente o horror de Constança Cunha e Sá ao cheiro do sangue…

Os que me lêem sabem que Onde Está Elisa? estreou com os 120 episódios totalmente gravados. Anunciada como uma «tele-série» prometia agarrar os portugueses logo no primeiro episódio, até porque o ritmo e narrativa seriam diferentes quando comparados com o tradicional formato de telenovela. E no entanto, a 20 de Novembro de 2018, a ficção é interrompida ao fim de 48 episódios de emissão. O dia (ou mês, ou ano) do regresso das buscas por Elisa à antena da TVI não foram avançadas pela estação, mas Onde Está Elisa? regressou a 7 de Janeiro, para terminar a 22 de Fevereiro de 2019. De súbito, em Fevereiro deste ano é anunciada uma última temporada, no ar há duas semanas. Com um ar muito mais arrastado, muito remastigado… O que me entusiasmara naquele rapto que não o foi, perdeu-se. E perdeu a graça. Anda tudo a brincar? Há dois anos para exibir uma série de 120 episódios?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Irrita-me esta coisa recente adoptada pelo canal do Dr. Balsemão, que é a voz off me vir dizer que aquele canal é feito a pensar em mim, nos meus filhos, na minha família. Não é tal: o canal é feito de forma a cada um pensar que é feito a pensar em nós (ao contrário da TVI, que vai mais longe e tem o desplante de dizer que é “uma televisão feita por si”, como se algum de nós tivesse a responsabilidade por aquele rosário de novelas…) para que cada um imagine que aquilo que nos põem debaixo dos olhos é o verdadeiro suco da barbatana e, consequentemente, não nos habituemos a pedir melhor…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)


Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4296 de 6 de Março de 2020

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