RESULTADO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS
É DECISIVO PARA A EUROPA
José Jorge Letria
Faltam poucos dias para a segunda volta da eleições francesas e muitos serão aqueles que ainda não se aperceberam da decisiva importância que este acto eleitoral tem para o futuro da Europa, para o futuro do Euro para a necessária estabilidade deste continente de destino sombrio e incerto.
Não se trata somente de saber se ganha Sarkozy ou Hollande, como se estivesse em causa o apuramento de um triunfo desportivo. Trata-se, isso sim, de saber se vai haver, num país sempre de importância vital para os equilíbrios da Europa, uma alternativa credível à política hegemónica da Alemanha da senhora Merkel, com todos os riscos que ela envolve.
Há muito que a França constitui um poderoso laboratório social e político. Foi o berço de uma revolução que mudou a história mundial e os próprios conceitos básicos que regem a vida e a organização política. Mesmo com os excessos que lhe são historicamente reconhecidos, a Revolução Francesa mudou a história da humanidade, veio a ser determinante para o futuro dos Estados Unidos da América e abriu as portas à Revolução de Outubro na Rússia. Foi, para que conste e ninguém esqueça, o momento em que o povo saiu à rua para dizer à rainha Maria Antonieta que não aceitava o seu provocatório humor negro ao sugerir-lhes que, à míngua de pão, comesse brioches. Há piadas que podem custar a cabeça a quem as profere.
Quando o povo se cansa e se revolta com a exploração e a humilhação e deixa de estar disposto aceitar todos os casos BPN que povoam a história da injustiça social, pode sempre haver um Palácio de Inverno ou uma Bastilha onde mostre a sua cólera e a sua indignação. Quando tal acontece, não chegam discursos, apelos ao bom senso, carros de água ou férreos dispositivos de repressão, porque a onda popular acaba sempre por se sobrepor.
É bom que os decisores políticos nunca percam de vista este cenário dramático, num tempo de imensa incerteza em que ninguém pode ter a veleidade de garantir, nestas repúblicas de comentadores e analistas encartados, o que irá acontecer nas próximas semanas, meses ou anos.
Por isso é tão importante que o espírito de Estado Social prevaleça no sentido de voto dos eleitores franceses, que não só terão de derrotar a governação errática, o agachamento político perante a Alemanha e a falta de um visão estratégica para o futuro da França que caracterizaram o mandato de Nicolas Sarkozy, mas também e sobretudo o que há de assustador nos seis milhões e 400 mil votos da Frente Nacional de Marine Le Pen, muitos deles vindos do eleitorado que durante décadas foi fiel ao Partido Comunista. É aí que reside o perigo maior, como aconteceu na Alemanha dos anos trinta do século XX em que a Alemanha de Hitler procurou e conseguiu legitimar-se pelo voto, para depois abrir as portas ao horror e ao genocídio.
E que ninguém tenha a ilusão de que, por existirem redes sociais, se encontra erradicado esse perigo, tanto mais que o mundo virtual das novas tecnologias de comunicação acolhe muitas vozes que representam o pensamento mais radical da extrema-direita, como ainda recentemente se viu com a tragédia que enlutou a Noruega.
Francois Hollande, durante 11 anos líder do PS francês, pode não ser um grande estadista e uma figura carismática, mas tem um discurso, uma estratégia e uma preocupação social e política solidária e anti-xenófoba. Mais: tem um programa económico e social para reparar os danos causados pela passagem de Sarkozy pelo Eliseu, sempre com a sombra de Merkel a pairar. São razões de sobra para se desejar que Hollande ganhe de forma expressiva, não apenas por ser socialista mas por ser, neste momento, a alternativa possível e desejável. Embora não votemos em França e pela França, é tempo de pensarmos de forma lúcida e combativa no futuro da Europa, ou seja, no nosso futuro e dos nossos filhos e netos.
Crónica publicada na página 7 do Jornal de Sintra, edição n.º 3934 de 4 de Maio de 2012

