Crimes, dizem eles
Bernardo de Brito e Cunha
ESCREVI AQUI, antes de irmos de férias, que “tinha sido levado pela conversa de José Pedro Vasconcelos”, e de como ficara à espera que ele cumprisse o prometido e anunciado, e que era, nem mais nem menos, do que ter nessa semana, como convidado, D. Januário Torgal Ferreira. Como achara que “no «5 para a Meia-Noite» é que o bispo ia pôr tudo de pernas para o ar…” Tudo isto aconteceu, realmente: D. Januário foi substituído por Paulo de Carvalho e eu fiquei a rogar pragas aos truques baixos de José Pedro Vasconcelos. Mas, na verdade, o que aconteceu foi que D. Januário Torgal Ferreira foi “adiado” e viria a aparecer uma semana depois no programa. É verdade que José Pedro fintou o bispo com alguns golpes rasteiros mas o mais grave de tudo foi o facto de se ter portado como um mau entrevistador. Isto é: na minha ótica, quando se tem um convidado daquele calibre, o mais que se pode fazer é apresenta-lo e deixá-lo fazer a despesa da conversa. Mas José Pedro estava ansioso para lhe fazer perguntas sobre coisas como o preservativo, por exemplo: e vai daí foi um interromper o bispo que te avias. Não havia necessidade: este bispo, ao contrário dos do xadrez, não anda na diagonal, vai direitinho ao assunto. E explicou toda a celeuma que os “diabinhos negros” provocaram durante largo tempo e foi mais longe (e isso, sim, foi novidade): que o património do Vaticano devia ter outro fim, para além das ajudas que já presta. E, sobretudo, que o papa devia viver numa casa normal, como qualquer homem. É um gosto ouvir este homem e até os descrentes, como eu, se agarram com alguma força aos princípios cristãos que este bispo põe em prática – que aquilo não é só paleio. E vai ser pena quando, em fevereiro próximo, D. Januário atingir a idade da reforma: o que vale é que fica o cidadão.
FIQUEI SATISFEITO com a inversão que a doença de Alzheimer teve em Zita Seabra. É que só assim se explica, através dessa doença, que a ex-dirigente, controleira e deputada do PCP e agora ex-deputada do PSD – grande viragem! – tenha recentemente recuperado a memória, ou aquilo que ela diz serem as suas memórias, uns 30 anos depois. Parece uma história (má) de John Le Carré, situada nos tempos da Guerra Fria. A verdade é que, contra ela, está o facto de Zita nunca ter poupado o anterior partido, divulgando factos, reais ou supostos, e fazendo aquela coisa feia que é desrespeitar e denunciar os antigos compagnons de route. Que fez ela agora? Zita Seabra acusou o PCP de ter usado a antiga Fábrica Nacional de Ar Condicionado, de Alexandre Alves, para colocar escutas em gabinetes governamentais. A ex-deputada do PSD disse que a FNAC era financiada pela então Alemanha de Leste, não por fabricar aparelhos de ar condicionado, mas por permitir a entrada nos gabinetes do poder. Com esta história, conseguiu ser ouvida pelo sempre prestimoso Mário Crespo, na SIC-Notícias, sobretudo no que diz respeito a atacar comunistas – ou a defender os ditames norte-americanos, o que vem praticamente a dar no mesm0. Zita lá foi: e quando se esperava que levasse fotografias, provas, coisas palpáveis, eis que o que ela tinha para dizer era um diz-que-disse que apontava para microfones instalados nos ares condicionados da FNAC. Que enredo! Mas talvez a coisa ainda possa dar filme – e com Zita-ela-mesma como protagonista, que é para meter mais medo.
MAS TEMOS o caso da venda da RTP, para “poupar”. E no entanto, o que tem vindo a ser demonstrado em diversos locais preocupados com o serviço público de televisão (incluindo a própria RTP) é que programação da RTP1 custa cerca de 70 milhões de euros. E que a da RTP2 anda à volta de 20 milhões. Ou seja, os custos de grelha dos ainda canais estatais custam menos de 100 milhões por ano. O valor que os portugueses pagam ao Estado, na factura da electricidade, é de 140 milhões. Ou seja: aquilo que cada português paga dava para manter a programação dos canais e ainda sobrariam 40 a 50 milhões de euros anuais. Ao contrário do que é costume, nesta empresa pública o Estado não entra com um cêntimo – e a RTP ainda dá lucro!!! Fascinante. E querem passá-la a um privado? Só pode ser um grande amigalhaço…
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Acho notável que a televisão esteja no estado em que está. Quero dizer com isto que a gente vai de férias, deixa uma série de novelas penduradas e, quando voltamos, tudo está na mesma. O clone ainda é clone e não se sabe, no dia em que escrevo, se o juiz vai decidir de quem é que ele é filho e estamos para aqui, pendurados, sem saber se ele é, ou não, filho da mãe. Isto para não falar daquele anjo selvagem que está impressionante e espantosamente no primeiro lugar das audiências há meses. E, perante isso, não podemos deixar de nos interrogar que espécie de televisão, aparentemente, querem os portugueses. E, aparentemente, a resposta é uma coisa fácil: os portugueses querem uma televisão imbecilizante, onde as histórias não têm história e, por isso, são facílimas de seguir. A maior parte dos portugueses querem ver uma televisão que não os obrigue a pensar – e isso em si já é triste.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3947 de 7 de Setembro de 2012

