Semanário Regionalista Independente
Domingo Julho 26th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Coisas do desporto e não só

Bernardo de Brito e Cunha

ACONTECE MUITAS VEZES: vamos tomando nota deste e daquele programa, depois mete-se um Relvas qualquer e o espaço não dá para tudo. No entanto há coisas que não devem (não podem mesmo) ficar esquecidas, seja por que motivo for. Foi o caso de uma “Edição Especial”, na RTP1, dedicada a Nelson Mandela e que, para além do seu nome, continha no título a expressão “Os Caminhos da Liberdade”. Foi um programa que se centrou em Frederick De Klerk, o homem que, contra a opinião da minoria branca da África do Sul, mandou libertar Nelson Mandela, bem como no papel desempenhado por Portugal no processo que haveria de pôr fim ao apartheid. O programa mostrou ainda pequenas entrevistas exclusivas com De Klerk, o bispo Desmond Tutu (um homem que, pela voz que deu às suas ideias, teria sido, certamente, criticado por Aguiar Branco mas que, em vez disso, acabou por receber o Prémio Nobel da Paz…) e até Cavaco Silva.
Este especial era da autoria de António Mateus, que foi jornalista na África do Sul durante 16 anos e de quem já tinha sido transmitida, em finais do ano passado, a “Grande Reportagem” que tinha por título “A Herança de Mandela”. Qualquer deles foi um programa notável, pela informação nele contida.

E VI, CLARO, a 74.ª Volta a Portugal em Bicicleta. Os seus comentadores são, como provavelmente já o referi em anos anteriores, de primeira água. Chamam-se Marco Chagas (que sabe obviamente do que fala, e porque é que as coisas se passam assim e não de outra maneira, em relação aos mais pequenos pormenores) e João Pedro Mendonça. Estes são os fixos, em estúdio, mas não quero tirar mérito a Alexandre Santos, que acompanha a Volta de mota e entrevista directores de equipa lado a lado na estrada, ele de mota e o director no carro. E todos os anos, sempre que há Volta, me lembro de Pilar de Carvalho, a comentadora da RTP que sabia daquilo como gente grande e que um cancro levou demasiado cedo. E não, não me estou a esquecer de Lena Sousa e Silva, que veio depois dela: mas a Pilar, caramba!, era outra coisa.
Esses comentadores estiveram em Londres, nos Jogos Olímpicos, a acompanhar as provas de ciclismo. E Marco Chagas diversas vezes criticou, durante as provas, a falta de informação fornecida pela realização inglesa. E teve mesmo, a certa altura, o desabafo: “Esta realização, comparada com aquilo que temos em Portugal, durante a Volta, é um zero.” E não é que Marco Chagas tinha toda a razão? O pior foi sempre o programa que vinha antes, o “Há Volta” cujos convidados musicais eram quase sempre de ir às lágrimas…

HÁ NÃO MUITO TEMPO, ao assistir a uma transmissão da SportTV de um jogo de futebol, ouvi uma coisa que me deixou banzado. Uma das equipas que participava no jogo era italiana e, segundo foi explicado pelos comentadores, estava a ser investigada por suposta manipulação de resultados. Um dos jogadores intervenientes arriscava, de resto, uma suspensão de 14 meses, mas acabou por ser absolvido. Mas o que me surpreendeu verdadeiramente foi o comentário de Acácio Santos, que disse que o futebol é um desporto que envolve muito dinheiro, “mas convém que os movimentos desse dinheiro sejam minimamente claros”.
O que me deixou abismado foi o advérbio de modo “minimamente”: não deveria ser absolutamente claro, transparente? É por estas e outras que, em matéria de dinheiros nada é muito límpido neste país, é por isso que os apitos dourados nunca chegam ao fim ou toda a gente está sempre inocente. E isto tanto se aplica ao futebol como à compra de submarinos, como a tudo na vida. Por alguma razão o Arcebispo de Braga alertou, em Fátima, para a necessidade de combater o “capitalismo desgovernado e a democracia camuflada”…

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«A vida vai tendo, para além de outras coisas, o condão de nos pregar esta ou aquela partida, esta ou aquela surpresa. A de Goucha se ter transferido de armas e bagagens da RTP para a TVI, foi a notícia da semana e, não será exagero dizê-lo, a grande surpresa. Mais do que o final do “MasterPlan”, agendado para esta noite, ou o começo do “Big Brother Famosos”, que fará a sua estreia no próximo domingo, esta desistência de Manuel Luís Goucha é sintomática. Por um lado, porque nos vem demonstrar o estado de incerteza em que se encontra a RTP: só assim se explica que, depois de ter resistido anos a fio (fazendo um dos poucos programas declaradamente de serviço público, com contacto diário e directo com portugueses de todo o mundo), ele tenha finalmente cedido. Vão dizer-me que ali deve andar muito dinheiro envolvido: não duvido. Mas, conhecendo Goucha, gostaria de poder acreditar que essa terá sido a menor das suas motivações. Hoje em dia ninguém põe as mãos no fogo por (quase) ninguém – mas eu gostaria que assim tivesse acontecido. Para que em circunstância nenhuma pudesse sequer ter a tentação de querer retirar alguma das palavras de apreço que, ao longo dos anos, escrevi a seu respeito. Para que o pudesse voltar a ver, na TVI ou em qualquer outro lado, e o possa continuar a encarar como o grande profissional que é.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, pág 15, edição n.º 3948, de 14 de setembro, 2012.

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