José Jorge Letria
A morte já esperada de Hugo Chávez e o resultado das eleições em Itália justificam uma reflexão conjunta, embora o leitor possa pensar que é abusivo associar os dois acontecimentos. Vamos por partes.
Mal expirou, o general-presidente Chávez tornou-se um novo mito latino-americano, espécie de Evita Perón com mais poder e com força militar. A morte, com a dimensão trágica que sempre traz associada, costuma produzir esse efeito, mesmo em democracias consolidadas e antigas como foi o caso da norte-americana com o assassinato de JF Kennedy em 1963. Porém, é mais difícil o processo de mitificação produzir-se em democracias representativas tradicionais do que em regimes onde predomina o populismo e o papel messiânico do caudilho, como era o caso da Venezuela.
Quando Francisco Sá Carneiro morreu, em 4 de Dezembro de 1980, com todos os que o acompanhavam na fatídica viagem para o Porto, essa dimensão não foi alcançada, apesar do esforço eleitoralista de muita gente do PPD/PSD de então, primeiro porque a figura do político não estava para isso talhada e depois porque, depois de décadas de ditadura, não havia condições políticas para esse fenómeno se produzir. E creio que foi a melhor maneira de se honrar a memória de Sá Carneiro, figura de contornos trágicos que fica na História também pela coragem moral e política com que assumiu na esfera pública a sua relação com Snu Abecassis.
Hugo Chávez, lutando contra o cancro, sobretudo em hospitais cubanos, sua segunda pátria e sua matriz ideológica, queria ser o líder de uma revolução na América Latina, levando mais longe do que Fidel o projecto de transformação das estruturas sociais no subcontinente. No entanto, o seu estilo muito próprio era demagógico, populista e messiânico, incrustando num sistema democrático os mecanismos da febril mobilização de massas que caracterizam os regimes totalitários. É verdade que distribuiu riqueza por quem nunca a tinha tido. Mas não é menos verdade que, sob a bandeira da sua liderança, houve muita corrupção e nepotismo, bastando ver quantas figuras influentes do regime são da sua família, por laços de sangue ou por afinidade.
Entretanto, a crise da democracia em Itália permitiu que 25% do eleitorado votasse num “clown” (para evitar a digna palavra “palhaço”, que os há com muito talento e os que só sonharam vir a sê-lo e acabaram na valeta do merecido esquecimento público, o artístico e o político). O Movimento Cinco Estrelas de Bepe Grillo chegou aonde chegou porque a democracia e o sistema partidário, que já décadas antes entrara em colapso, não funcionou e colocou na primeira linha o burlesco Berlusconi e o populista e demagógico Grillo, que talvez seja o do Pinóquio, dando-lhes a possibilidade de terem uma palavra fundamental a dizer sobre o futuro da Itália.
O populismo, seja ele o latino-americano ou o europeu das voláteis organizações sem organização que têm sede na Internet e que ninguém sabe o que querem e para onde vão, só triunfa quando os partidos e o sistema que representam se encontra minado pela corrupção, pela incompetência, pela opacidade e pela cumplicidade com o grande capital financeiro.
Os dois países terão por certo destinos muito diferentes, mais ou menos determinados pela genuína vontade popular. São situações e processos muito diferentes, mas ambos marcados pelas derivas demagógicas e pela falência da partidocracia. A Europa e o resto do mundo integrado no chamado Ocidente terão de encontrar soluções participativas e sustentáveis para esta crise, sob pena de podermos vir a assistir a tragédias como a que o mundo viveu entre 1939 e 1945, só que desta vez com consequências ainda mais trágicas.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3972 de 15 de Março de 2013

