Quando uma novela nos trouxe a Literatura
Bernardo de Brito e Cunha
ENTRE O MOMENTO em que escrevo e em que a crónica será publicada, é bem possível que “Avenida Brasil” já tenha chegado ao fim. E daí nunca se sabe: se antes os episódios já eram encurtados em relação ao original, agora, com uma novela nova as coisas ficam mais entremeadas – e certamente mais curtas. Temos de reconhecer que a situação dos últimos episódios, em que todos tinham motivos (e oportunidade) para matar, foi a mais aborrecida e arrastada da novela, mas isso não chega para lhe diminuir os méritos.
Uma das coisas mais interessantes da relação entre Nina (Débora Falabella) e Tufão (Murilo Benício), para além daquilo que o jogador de futebol aprendeu em termos de culinária gourmet com a sua chefe de cozinha, tem a ver com um outro tema, geralmente não ligado a jogadores de futebol: a literatura. Culta, Nina lança a mão à sua biblioteca particular para abrir os horizontes do patrão e sugerir-lhe leituras. E esta táctica saiu quase melhor do que a encomenda, pois talvez lhe tenha permitido “conduzir” as leituras de Tufão para um determinado campo… O ex-jogador não larga os seus livros e adora debater sobre as histórias.
LOGO NOS PRIMEIROS tempos de Nina na mansão, o ex-jogador teve nas mãos os livros “O Idiota”, de Dostoievski, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Pouco tempo depois, assumiu ser fã de Machado de Assis (caiu bem esta preferência por um autor brasileiro) e leu dele diversos volumes: “O Alienista”, “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Este último conta a história de um homem que já morreu e deseja escrever a sua autobiografia, após a morte. O clássico despertou interesse em Tufão que achou graça por Machado de Assis ter usado um homem já morto como narrador de sua própria história. Depois temos títulos como “A Metamorfose, de Franz Kafka, “O Banquete”, de Platão…
MAS, A PARTIR de certa altura, os livros sugeridos por Nina começam a girar em torno da traição, transformação e mudanças. Será que Nina segue algum critério na escolha das obras? Na opinião da professora de literatura Ana Lúcia de Mattos, as sugestões da cozinheira usam um recurso muito utilizado pelos autores de grandes clássicos da literatura para instigar o leitor. “João Emanuel Carneiro, o autor da novela, ao compor uma trama em que os livros indicados têm um recado subtil, retoma brilhantemente esta intertextualidade (criação de um texto a partir de outro já existente) que andava meio abandonada”, explica Ana Lúcia.
Uma das indicações da chefe de cozinha foi o clássico de Gustave Flaubert, “Madame Bovary”, que aborda a história de uma mulher que traiu o marido em busca de liberdade e felicidade e, na mesma linha, “O Primo Basílio”, do nosso Eça de Queiroz.
Para a psicanalista Renata Leonardo de Sá, numa entrevista à Globo, o interesse de Tufão pelos autores sugeridos indica que os temas fazem sentido para ele: “Quando um leitor se identifica com o que lê, muito provavelmente essas ideias já existem, mesmo que imperceptíveis, dentro dele e, no encontro com estes pensamentos organizados em forma de histórias, algo novo pode surgir”, explica Renata Leonardo de Sá.
TUFÃO CONTINUA em grande estilo, ao ler “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud. Cada vez mais interessado em entender o comportamento das pessoas, Tufão partiu para a leitura de um clássico e divertiu os espectadores da novela ao confundir o nome do autor. Quando Carminha (Adriana Esteves) lhe faz perguntas sobre o livro, o ex-jogador diz que foi escrito por “Fred”…
NÃO ESQUEÇAMOS ainda a figura de Mãe Lucinda, a actriz Vera Holtz, que a dada altura aparece a ler às crianças do lixão o livro “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll e, se não me enganei na passagem lida, também “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry.
Não fosse a circunstância de esta novela ser um caso completamente à parte no género, este aspecto de recorrer à literatura torná-la-ia, só por isso, extremamente importante. E eu fico com pena de a ver terminar…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Quantos de nós acabaram por rir com o rapaz do sonho ou com qualquer outro dos “cromos” (expressão de Manuel Moura dos Santos) que por lá passaram? Claro que rimos. Achámos graça como quem ri de alguém que se estatela no passeio. E isto acaba por entristecer, esta coisa de um programa que nos aparece num cubo ser capaz de fazer vir à superfície de nós mesmos as coisas mais tristes e menos nobres. Foi aí que me vieram as saudades da “Operação Triunfo” e do seu avançar comportadinho. Das lições que vai dar, oportunidade repetida para que os candidatos a ídolos o sejam com maior capacidade, e não apenas com o talento que Deus lhes deu.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3994 de 13 de Setembro de 2013

