José Jorge Letria
No ano em que se comemora o centenário do início da I Grande Guerra, a Europa dá sinais preocupantes de viragem à direita. Pior: de viragem para a extrema-direita. Contrariando a ideia de Marx de que a dialéctica dos processos sociais impede a História de se repetir, corremos o risco de ver a História a repetir-se de facto, ainda que com outros protagonistas e configurações.
Em França, o colapso da política do governo de François Hollande coloca a Frente Nacional de Marine Le Pen, mais civilizada, pelo menos na aparência, que a F.N. de Jean Marie Le Pen, em condições de ganhar as eleições para o Parlamento Europeu, as autárquicas e, quem sabe, as próprias presidenciais, uma vez que a direita de Sarkozy e companhia continua a estar dividida e sem liderança credível.
Em Itália, a pressão de Berlusconi na sombra e o populismo neo-fascista do Cinco Estrelas do ex-palhaço (uma vez palhaço sempre palhaço!) Bepe Grillo estiveram na origem da queda do governo de centro-esquerda e ninguém pode dizer, com um mínimo de segurança, o que virá a seguir.
Na Hungria de que pouco se tem falado nos últimos tempos a deriva direitista soma e segue, com forte investimento no terreno ideológico e até nos elementos que estruturam a memória colectiva.
Por sua vez, os suíços referendaram a segregação dos imigrantes, que têm sido fundamentais, ao longo de décadas, para o país manter o seu nível de riqueza, sempre com um pé na Europa da União e outro fora, para poder manobrar como mais lhe convém. É bom ter presente que foi esta política assente na ambiguidade e no oportunismo político que garantiu a neutralidade do país durante a Segunda Guerra Mundial, com os seus bancos a capitalizarem tudo o que havia para capitalizar, a começar pelo ouro dos judeus. Pessoalmente, só me custa ver uma cidade como Genève, símbolo histórico da tolerância e da defesa dos direitos, com todos os organismos internacionais ali sediados ou representados, a fazer parte deste sombrio e preocupante consenso saído de um referendo.
E como podemos esquecer que ali trabalham cerca de 250 mil portugueses e que aqueles que ainda não têm os papéis em ordem poderão ser devolvidos à procedência?
Entretanto, foi recentemente publicado em França, com a chancela “Bouquins” um livro cujo título traduzo e que diz “Os Estrangeiros Que Fizeram a França”, que mostra em que medida as pátrias livres são construídas e fortalecidas com a força de trabalho, a inteligência e criatividade de sucessivas gerações de imigrantes, chamem-se eles Picasso, Beckett, Ionesco, Maria Helena Vieira da Silva, Charles Aznavour, Georges Moustaki ou Jacques Brel (sim, era belga e não francês).
Traçado este quadro, é pouco dizer que o panorama é inquietante, já que dizer isso é dizer pouco. Eis a razão pela qual as eleições europeias de Maio próximo vão ser tão determinantes. Os eleitorados nacionais devem mobilizar-se, em primeiro lugar contra a indiferença e a apatia e depois contra a direita e a extrema-direita que não cessa de conquistar terreno e de ameaçar, a curto e médio prazo, o futuro da liberdade e da democracia neste continente em que, é preciso não o esquecer nunca, começaram as duas guerras mundiais, que custaram a vida a cerca de 100 milhões de pessoas (só na que decorreu entre 1939 e 1945 morreram mais de 60 milhões, dos quais mais de seis milhões nos campos do Holocausto e mais de 20 milhões na União Soviética que o terror nazi invadiu lavrando ali também a sua própria sentença de morte). E nada nem ninguém nos garante que, mesmo com outras formas de armamento de negociação diplomática e de política de alianças, a tragédia não venha a repetir-se. Por isso, será decisivo o papel a desempenhar por Bruxelas, cujos Parlamento e Comissão tanto dinheiro custam aos contribuintes europeus. Está, pois, na altura, além de distribuir fundos e de produzir directivas tantas vezes polémicas, insuficientes e mal transpostas para os ordenamentos nacionais, de assegurar que a Europa vai manter-se em paz e que a liberdade e a democracia não irão ser postas em causa.
No final do anos 20 do século XX ainda quase ninguém acreditava que o terror hitleriano ia chegar ao poder, e, mesmo depois de chegar, houve muito quem o aplaudisse em países como a França, o Reino Unido e até nos Estados Unidos, para já não falar de Itália, Espanha e Portugal, onde o fascismo era já triunfante.
Os tempos que temos por diante irão ser decisivos para o futuro da Europa, das pátrias livres e das gerações que pronunciam, ainda com esperança, a palavra Futuro.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4015 de 21 de Fevereiro de 2014.

