Uma catástrofe nunca vem só
Bernardo de Brito e Cunha
PRIMEIRO que tudo, as correcções que se impõem. Aqui há 15 dias escrevi, a propósito de Cristina Ferreira e do seu merchandising (ou da sua carreira extra televisão) que “O que eu talvez «engolisse» era que esse tempo de antena promocional viesse a ter uma campanha publicitária, paga, nem que fosse a um preço especial para directora. Alguém alguma vez viu um anúnciozinho ao perfume, aos sapatos, à revista? Nada.” Pois até parece que foi de propósito: uns dias depois vi dois anúncios (dois!) ao segundo número da revista. Vá lá, do mal o menos…
CHEGOU ao fim o programa “Got Talent Portugal”, que me pareceu uma experiência muito interessante. É certo que muitas vezes não concordei com as opiniões dos jurados – sobretudo porque achavam quase tudo merecedor dos maiores encómios – nem, tão-pouco, com a forma como o público votava: mas nestas coisas em que os vencedores são escolhidos por chamadas telefónicas é sempre complicado não ficar desconfiado de que os próprios (e respectivos familiares e claques) tiveram um papel bastante activo nas votações. Só um marketing deste género terá permitido que alguns concorrentes chegassem à final: mas, valha-nos isso, julgo que os vencedores mereceram o prémio final.
Mas o “Got Talent Portugal” teve uma outra característica que eu já quase desistira de ver em programas de talentos: o respeito por quem pisou aquele palco. E, já o escrevi aqui, até Manuel Moura dos Santos foi surpreendente. Ele, que foi o inventor da denominação “cromo” que atribuía aos piores concorrentes e que ainda hoje é utilizada, esteve surpreendentemente calmo e contido. Ele, que no passado se portava (com o perdão da palavra) como uma besta, desta vez foi tão decente e tão cavalheiro que, cá por casa, costumávamos dizer que a produção lhe dava uns comprimidos antes de começar… O programa mostrou, e era o que se pretendia, que de facto há talento em Portugal. Sem esquecer a prestação de um Marco Horácio divertidíssimo, esta foi uma excelente aposta do canal de serviço público, porque foi isso que o programa foi: serviço público.
OS MUITOS náufragos que recentemente perderam a vida no Mediterrâneo não são “ilegais” nem “clandestinos”, como se tem ouvido amiúde na televisão. Até os recebermos e processarmos os seus casos, são migrantes — simples humanos deslocados. Importa precisar isto. A cada vez que há novas tragédias no Mediterrâneo, muitas pessoas têm a sensação de que o que se passa é uma fatalidade, algo contra o qual muito pouco podemos fazer, um fenómeno incontrolável e regular como as estações do ano. O que falta? Vontade política e assunção de responsabilidades, e as palavras de Durão Barroso sobre o assunto são características do homem (que surpresa!) e da Europa (oh, que surpresa outra vez!). Há abordagens que permitem minimizar os naufrágios de migrantes no Mediterrâneo e as suas consequências. E, imagine-se, até há dinheiro no orçamento comunitário para financiar estas operações…
NÃO GOSTARIA de dizer aquela coisa estafada, mas é o que apetece: o FC do Porto foi de bestial a besta na segunda mão contra o Bayern. Aconteça o que acontecer até ao final da época, Julen Lopetegui já fez história no FC Porto: sofrer cinco golos em 45 minutos parece que só aconteceu há 77 anos. O basco é o único culpado? Certamente que não, mas pelas más opções que tomou é, sem dúvida, o principal responsável. O jogo acabou com um livre perfeito de Xabi Alonso, que colocou no marcador num 6-1 nunca visto no reinado de Pinto da Costa. A última vez que os “dragões” tinham sofrido tamanho desaire, foi a 13 de Setembro de 1978, contra o AEK Atenas – tinha eu 30 anos… Mas atenção, benfiquistas: o FC Porto que vai jogar à Luz depois de amanhã é um “animal” ferido… Cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, como diz a sabedoria popular.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«O colégio cardinalício escolheu um novo Papa. A escolha recaiu sobre o Cardeal Ratzinger, um dos favoritos, é certo, mas, numa altura em que muitos teólogos lutavam por uma Igreja mais aberta e em contacto real com o mundo, a missão do novo Papa, no passado recente, tem sido a de eliminar as dissidências e de refrear os “excessos” de uma era mais tolerante. Como prefeito da doutrina, este cardeal usou as armas com grande eficiência, influenciando os orçamentos das dioceses, transferindo bispos e exercendo até a excomunhão – o que um oponente classificou como “violência”. Ratzinger foi mesmo ao ponto de afirmar a primazia da Igreja de Roma sobre todas as outras Igrejas Cristãs e, embora tenha depois pedido desculpas por isto, nunca mostrou arrependimento em relação à exclusão de teólogos liberais, padres mais progressistas ou até mesmo aqueles que se mostravam favoráveis à ordenação de mulheres.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4068/69 de 24 de Abril d 2015.

