Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”


A dar aos braços como os náufragos

Bernardo de Brito e Cunha

BEM SEI que a culpa é da Europa, que ainda não se definiu no que diz respeito aos “migrantes” ou “refugiados” que diariamente chegam às suas costas do Mediterrâneo, mas a realidade, infelizmente, é essa: diariamente chegam à costa das ilhas gregas ou italianas milhares de “migrantes” ou “refugiados”. Ajuda, que era boa, tem sido pouca: será mais fácil contar os quilómetros de arame farpado que os países que fazem fronteira com a Grécia têm feito espalhar nos seus limites, coisa que o Tratado de Schengen tinha procurado eliminar… A Europa sentiu-se mais reconfortada quando Frau Merkel foi até à Turquia – que ainda não pertence à Europa – oferecer uns milhões consideráveis para que os turcos, eles próprios profundos conhecedores dessa arte que é espalhar arame farpado, contivessem o fluxo de “migrantes” ou “refugiados” dentro de portas.

A TAREFA não é fácil, até porque os humanos que vendem passagens a esses “migrantes” ou “refugiados” conhecem bem os caminhos do arame farpado. Em resumo, esses desgraçados, homens, mulheres e crianças, continuam a tentar chegar à ilha de Lesbos (agora transformada num imenso cemitério em que, na maioria das muitíssimas placas, se pode ler apenas “Rapaz/Rapariga/Mulher/Homem desconhecido”, “idade” e um número que infelizmente já atingiu os muitos milhares) ou qualquer outra ilha do Egeu. Andam voluntários por lá, a ajudar. Até portugueses. Pois se até mesmo uma novela da noite “enviou” para lá uma personagem! E, à semelhança de alguns países, Portugal enviou a Polícia Marítima e mais qualquer coisa.

DE VEZ em quando temos, nos noticiários da noite, reportagens da acção da Polícia Marítima, efectuadas por ela própria. Estranhamente, a última que vi, há cerca de uma semana, mostrava uma (miserável) barcaça que a voz off assegurava conter muitas crianças em risco de afogamento, para além, naturalmente, dos adultos (pais?) que as acompanhavam, mas seguramente que a condição dos viajantes não seria tão má como a voz off a pintava. E digo isto convictamente: é que a câmara da Polícia Marítima fez longos planos da embarcação e seus ocupantes e, durantes aqueles minutos que pareceram eternidade, não vi um único braço de polícia marítimo a ajudar a subir uma criança que fosse. E, admitindo que de facto as crianças estavam mal, pareceu-me que houve mais intenção de mostrar aquele molho de gente apertado numa barcaça do que propriamente de os salvar. E acho isto estranho.

E LÁ TIVEMOS as eleições para Presidente da República. Não nos preocupemos com isso por agora, que a personagem eleita só toma posse lá para Março. Para já, fica-me o sabor desagradável da noite eleitoral que a RTP transmitiu, na qual, durante um par de horas, não foi possível ouvir nenhum comentador ou candidato de forma completa ou inteligível. Assim que alguém começava a falar, era certo e sabido que se iria saltar para um grande momento de reportagem algures num qualquer ponto do país. Os candidatos eram 10? Eram. Eram muitos e tudo ao molho? Era mais ou menos isso. Então a RTP que se tivesse organizado, planeado melhor as coisas. Deu-me a ideia de que a RTP só se apercebeu de que eram, realmente, muitos candidatos, quando depois de anunciadas as previsões os jornalistas correram para eles como cães a um osso – sem me querer referir a qualquer candidata jeitosinha em especial.

E O MAIS grave é que ninguém foi capaz de aguentar José Rodrigues dos Santos, que às 20h05 já parecia ter tomado o freio nos dentes e não parava de desenhar hipérboles (não no sentido de recurso estilístico, mas sim geométrico) com os braços. Não sei que faria se fosse responsável pela emissão da RTP: mas talvez no primeiro intervalo lhe tivesse dado um calmante.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Tenho a sensação de que, ao longo destes quase nove anos de vida deste cantinho, sempre que houve eleições eu escrevi mais ou menos a mesma coisa: que agora é um instante, que já não dá luta, que antigamente é que dava para passar filmes, números de variedades, eu sei lá. No passado domingo, na noite dedicada às presidenciais, segui a RTP – embora com um olho na SIC, graças a uma característica muito interessante que tem o meu televisor, mas isso é outra conversa. E, perguntarão, segui a RTP porquê? Por uma razão simples: porque a RTP foi aquela que, às oito da noite, abriu com uma previsão “esperançosa”, isto é, apresentava uma hipótese, com o seu intervalo 49%-54%, de obrigar Cavaco Silva a uma segunda volta – o que sempre animaria o nosso ramerrão. E, como disse Francis Bacon, “a esperança é um bom pequeno-almoço, mas uma fraca ceia”, o que se viria a confirmar na noite de domingo.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4102/4103 de 29 de Janeiro de 2016

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