Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Os talentos e os jornalistas

Bernardo de Brito e Cunha

FALEMOS do programa “Got Talent Portugal” (ou com Portugal no início do nome, não sei bem), que regressou para ocupar parte das noites de domingo na RTP1. Essa, a “parte das noites”, é uma das coisas boas que o programa tem: não é uma daquelas maratonas que geralmente acontece nos programas deste género, onde se vê tanta gente e (alguma) genialidade que, ao final da noite, já não nos lembramos de metade dos concorrentes. Outra coisa surpreendente que o programa tem é a continuação da transformação de Manuel Moura dos Santos, aquele coração empedernido que bem conhecemos destas andanças. Coração empedernido é uma forma simpática de dizer, como bem se entende…

NESTA nova versão, o maestro Rui Massena deu lugar à fadista Marisa e Marco Horácio, nos bastidores, passou esse papel a Vanessa Oliveira e Zé Pedro Vasconcelos. O que me atrai neste formato é que não é tão fechado como os outros em que se procura uma voz: aqui temos gente que canta, naturalmente, mas também podem aparecer mágicos, ilusionistas, artes circenses e por aí fora – vale tudo, mesmo. Mesmo que o tudo seja um homem que faz música a partir de uma folha de laranjeira ou um outro que imita diversos ecos. De qualquer maneira, fiquem ou não apurados, o programa mostra que há gente, muita, com os mais diversos talentos e essa será a sua maior grandeza e utilidade. Tanto, que uma destas noites a SIC – que nem transmite o programa por cá – mostrou o jovem emigrado à força na Dinamarca e que, por lá, faz sucesso na versão local do formato. É um bocado como o emigrado em França que veio até cá, expressamente, para mostrar como é bom na modalidade de “varão chinês” e que quer ser reconhecido aqui, na sua terra.

E À BOLEIA da SIC uma nota para me revoltar contra muitos dos meus companheiros de profissão que, em diversos órgãos de comunicação, parecem apostados em vender gato por lebre – e, para isso, mentem descaradamente. O Orçamento de Estado para este ano prevê um imposto de selo de 4% sobre as taxas de multibanco. Isto é, um imposto sobre as taxas e não um imposto sobre o consumo. Por exemplo: se um comerciante cobra um jantar de 50 euros com multibanco paga uma taxa de 1,20 €. O imposto de selo aplica-se sobre os 1,20 e não sobre os 50 euros, ou seja 4% de 1,2 euros = menos de 0,05 € ou menos de 5 cêntimos, se preferirem.

APESAR DISTO ser fácil de entender, a SIC continua a difundir a notícia de uma alegada taxa de 4% sobre pagamentos. O que é, digamos, totalmente mentira. Na última terça-feira colocou um comerciante a afirmar que o valor dessa nova taxa corresponde, no seu negócio, ao acumulado dos subsídios de férias e metade dos salários do pessoal. “É uma asfixia sobre o negócio. É impossível sobreviver assim.” [http://sicnoticias.sapo.pt/…/2016-02-09-Comerciantes-temem-…]. O objectivo é simples: vender a ideia da “carga fiscal insuportável sobre as PME e os pequenos comerciantes”. Como é possível tanta desinformação? Como é possível agirem com tanta orientação ideológica e manipularem com tão pouco pudor?

A TVI, para ilustrar o “Brutal aumento de impostos sobre a classe média”, comparou o Imposto Sobre Veículos de dois carros. Compreendo a necessidade de comparar os extremos, entre um dos carros utilitários mais baratos do mercado e um super-carro como o LaFerrari… Mesmo assim, não daria muito trabalho pesquisar um pouco sobre o preço correcto de cada um desses modelos. Acredito nos 11.700€ do C1, já com impostos incluídos, mas os 345.000€ que refere em relação ao LaFerrari, deve representar “apenas” o valor aproximado de impostos pagos em Portugal por um modelo desses, já que o preço de tabela desse carro em Portugal ronda os 1,3 milhões de euros… Não é grave, um erro de quase 1 milhão de euros, que altera também o valor do aumento do ISV que a notícia queria referir… Para além do facto de o LaFerrari referido, de que foram feitas 499 unidades, já não existir para venda.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Bill Gates passou por Portugal onde acabou por dar uma palmada nas costas do governo: que este estava a ir por bom caminho, que a educação é a coisa mais prioritária e por aí fora. E que a Microsoft vai dar formação a um número considerável de desempregados têxteis de Portugal. Só faltou ver José Sócrates a babar-se. Mas este homem, que muitos consideram mais importante e poderoso do que o presidente dos Estados Unidos – embora tenha negado isso durante a entrevista – está muito mais interessado hoje em medicamentos, vacinas ou tratamentos, do que propriamente em computadores. Diria mesmo que “qualquer país pode aprender [tecnologias] com outros países, mas se um país inventa um novo medicamento que cura uma doença, isso não é uma perda para o outro país, é antes um benefício para todo o mundo”.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4104/4105 de 12-2-2016

Leave a Reply