A inefável deputada-administradora
Bernardo de Brito e Cunha
AINDA bem que, no princípio do ano, vos avisei da qualidade da série, de 45 episódios, “Terapia”. Fiz-vos o aviso, no início e, agora que terminou, impõe-se uma outra palavra: desta vez de agradecimento. Até porque não é todos os dias que nos podemos orgulhar da RTP e daquilo que nos mostra. Se a RTP fosse a BBC, provavelmente nem ligaríamos (muito) à qualidade do produto apresentado: só que não é e, portanto, os cumprimentos impõem-se. As coisas, no entanto, não são assim tão lineares. Em conversa com um dos actores da série, Virgílio Castelo, dei-lhe conta do espanto que sentira perante a série e, particularmente, da boa impressão que diversos actores me tinham causado. E falei-lhe, por exemplo, de Nuno Lopes (cujo talento nunca poderia ser causador apenas de “boa impressão”), de Soraia Chaves e de Catarina Rebelo. E a respeito desta última disse-lhe que só a tinha visto numa novela em que fazia o papel de uma adolescente “patetinha” e que fora uma verdadeira revelação nas quartas-feiras da série. Virgílio riu-se e respondeu-me: “Sabes o que é? Aquele texto está tão bem escrito que todos os actores brilham. Se calhar até eu!”
É PROVÁVEL que a Comissão de Ética da Assembleia da República que avalia o caso de Maria Luís Albuquerque, ex-ministra das Finanças, não veja impedimento legal na acumulação por MLA das actividades de deputada e administradora da Arrow. E pode ser que a justiça não veja incompatibilidade entre o exercício desta função privada por MLA após uma tão recente cessação das funções governativas, por mais estranho que pareça. Mas isso não significa que, do ponto de vista moral, essa acumulação ou essa sucessão sejam aceitáveis. De facto, é fácil imaginar situações onde o dever de lealdade de MLA para com um dos seus patrões (o povo português ou os accionistas da Arrow) esteja em choque com o seu dever para com o outro.
É A ISTO que se chama conflito de interesses. Não é algo que se possa resolver garantindo que se irá desempenhar o seu cargo de forma escrupulosamente honesta. Trata-se da existência de situações onde a defesa dos interesses de um dos patrões se traduz forçosamente no prejuízo do outro – e não é difícil imaginar situações onde a Arrow e o estado português terão conflitos de interesses. Estas são as situações que um político honesto tem o dever de evitar, por muito que isso o/a prejudique do ponto de vista financeiro ou patrimonial. A existência de um período de nojo, neste tipo de situações, é aconselhável – porque a informação sensível a que MLA teve acesso como ministra e da qual poderá fazer beneficiar o novo patrão, tem um prazo de validade e, passado dois ou três anos, já não permitirá grande benefícios ilegítimos. Mas o período de nojo só resolveria o problema de MLA como ex-ministra e não o de MLA como deputada-administradora.
É VERDADE que os 5 mil euros brutos de que se fala que MLA vai receber dos ingleses nem se podem considerar uma quantia do outro mundo, daquelas verdadeiramente obscenas: mas não são, longe disso, propriamente um prato de lentilhas. E aquilo contra o que a opinião pública se insurge é que durante os três anos em que foi ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque fez todos os possíveis para que os portugueses tivessem como alimentação-base exactamente esse prato de lentilhas. No verdadeiro sentido do termo.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«As coisas são para se fazer bem-feitas e é a isso, de uma maneira geral, que a Mandala, as Produções Fictícias e o “Contra-Informação” nos têm habituado. E no final do mandato de Jorge Sampaio na Presidência da República, fizeram melhor do que qualquer outro canal o que foram os dez anos de “Compaio” em Belém. Não há como ter arquivos, já dizia o Manel (que os tinha na cabeça): o “Contra” foi buscar todos os excertos que tinha de Compaio e mostrou-os, com a elegância de pôr em cima, no canto superior direito a data em que aquele bocadinho foi originalmente transmitido. Porque estamos a falar de História: e aí, convém situar as coisas no tempo. Assim assistimos à desistência de Guterres, à fuga de Durão Barroso, ao intermezzo Santana Lopes, etc, etc.: foi um desfilar de situações, de visitas, eu sei lá, que encheram uma hora (quase quase) de programação. Com a inevitável publicidade do Contra – sempre a propósito – pelo meio. Uma homenagem bem simpática, apesar dos momentos mais amargos e, até, mais cruéis em relação a Jorge Sampaio. Porque estas coisas do humor, devíamos sabê-lo, passam muitas vezes pela impiedade.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4108/4109 de 11 de Março de 2016

