A que lê as cartas mas não entende o que dizem
Bernardo de Brito e Cunha
O PROGRAMA “A Vida nas Cartas – O Dilema” há muito que ocupa as primeiras horas de emissão da SIC. Mas se antes era conduzido em exclusivo por Maria Helena Martins, nossa velha conhecida, o espaço é agora partilhado com Carla Duarte, que se diz especialista em Tarot de Marselha… Foi justamente num episódio conduzido por esta, no princípio deste mês, que um dos telefonemas chegou de uma mulher, que se identificou como Maria da Glória, de 64 anos, e que pretendia saber mais sobre a sua saúde, mas também descobrir se o seu marido teria outra mulher.
NÃO FOI preciso muito tempo de conversa para perceber que Maria da Glória era (é ainda, muito possivelmente) vítima de violência doméstica há 40 anos, de um marido que bebe. Perante isto, Carla Duarte lê nas cartas que o marido desta mulher não tem outra mulher, até porque aquilo que ele procura não é uma mulher, mas uma figura maternal. Justamente por isto, Maria da Glória deve ser essa mãe e nutrir o marido, ter paciência, e não discutir nem procurar conflitos. Até porque “quando damos amor recebemos amor, mesmo que seja em menor quantidade, e quando damos violência recebemos violência”, ouve-se no programa da SIC. “Mime o seu marido”, remata a apresentadora. E foi aqui que comecei a colocar a dúvida metódica sobre o tarot: se as cartas fossem assim tão boas, não deveriam ter alertado Carlinha para o facto de aquela ser uma mulher vítima de agressão? Sei lá, mostrar por exemplo a carta “O Enforcado” a ver se a Carlinha entendia, ou “O Preso”, ou outra carta qualquer – que acho que “A Espancada” é carta que não existe nem no tarot de Marselha…
SÓ MUITO mais tarde, depois de o vídeo ter corrido nas redes sociais, Carla Duarte veio a público pedir desculpa e assumir que errou. “Lamento profundamente os acontecimentos últimos e estou desejosa de pedir desculpa pela forma como as minhas palavras foram entendidas, porque errei na escolha das palavras ao interpretar a mensagem na consulta em questão”, assumiu a taróloga, no programa “Grande Tarde” da SIC: “Estou aqui porque realmente cometi um erro. Assumo que não fui suficientemente ágil na abordagem à questão colocada por uma espectadora que se dizia vítima de um flagelo social que anualmente mata tantas mulheres e que parece não ter fim, a violência doméstica. Sou totalmente contra todo e qualquer tipo de violência, sou mãe, sou mulher e sou uma cidadã com princípios”. Em resposta às inúmeras críticas de que foi alvo, nomeadamente nas redes sociais, Carla Duarte acrescentou: “Tenho agora a noção de que aquilo que eu referi no programa de ontem foi entendido como um discurso de culpabilização da alegada vítima. No entanto, quero frisar que nunca tive qualquer intenção de que essa fosse a mensagem a passar”.
A SIC, que disse não se rever no comentário e condenou qualquer acto de violência optou por sublinhou que os seus programas de daytime “tratam deste tema com a maior seriedade, respeito e repúdio por este tipo de crime público”. E acrescentou que o exemplo mais actual é o programa “E se Fosse Consigo?”, que como já anunciado, abordaria o tema da violência doméstica, na última segunda-feira. O programa invocado pela SIC, de resto, tem servido agora para branquear tudo o que a estação faz ou não, conforme os casos. Temos uma programação da treta? Ah, mas temos o “E se Fosse Consigo?”! Pusemos o João Manzarra a apresentar o programa da noite, aos sábados? Ah, mas temos o “E se Fosse Consigo?” às segundas à noite! E por aí fora. Agora uma palavrinha quanto ao futuro de Carla Duarte na estação, nem uma palavra. Não que eu queira que a moça seja despedida: mas gostaria de saber se posso confiar nela, se a SIC reitera o seu apoio à taróloga, apesar de eu não acreditar nas cartas, de Tarot ou outras… E nas de amor, isso é coisa que não recebo há muito tempo.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Dei comigo a ver um programa curioso, feito em Inglaterra e com o patrocínio de uma dessas marcas de desporto – que eu não cito porque sou jornalista e não ex-presidente da República. O programa chamava-se, no original, “Mourinho’s Ultimate +10 Team” que, simpaticamente, por cá foi traduzido por “José Mourinho – Os Jogos do Mestre”. O programa reunia um grande, grande número de celebridades do futebol inglês e estrangeiro a jogar em Inglaterra – não, Ronaldo não fazia parte desse número – e não se percebia bem a intenção do programa, para além de promover os artistas da bola e a tal marca de artigos desportivos. Mas um programa destes, com gente tão famosa e ainda por cima com Mourinho a dar instruções num ecrã gigante vai para o ar já bem depois da uma da manhã??? Mas a SIC não tem a noção das conveniências – nem mesmo das suas?»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4122/4123 de 17 de Junho de 2016

