Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Maio 14th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”


Milagres da comunicação

Bernardo de Brito e Cunha

FOI JÁ a uns milhares de quilómetros de casa que assisti à segunda metade do Campeonato da Europa. Por terras estrangeiras parece sempre que se agiganta esta coisa da selecção – mesmo para aqueles que, como o meu filho, dizia não querer saber disso para nada. É certo que aquela sucessão de quartos-de-final, meias-finais (coisa impensável!) e final (coisa impensável ao cubo!) ajudou imenso nesse interesse. O que é verdade é que, chegada a final, nos vimos numa taverna grega (melhor dizer cretense, para eles não nos escorraçarem, se houver uma próxima vez) com dois franceses à mesa e outros dois numa outra mesa. Coisa boa… Atrás tínhamos uma família inglesa (até pareço o Júlio Diniz) a fazer de guarda-costas e, a rodear este embrulho internacional a que falta juntar um casal de noruegueses, uma imensidão de gregos que torcia por Portugal.

E ESTE intróito todo para quê? Para dizer que muita coisa mudou no futebol português – e já não refiro exclusivamente ao facto de, finalmente, a selecção ter conquistado um título internacional. Quero falar do modo como os jogadores comunicam, como se exprimem, que não tem nada a ver com o modo como o faziam os seus antecessores de há uma geração ou duas. Tirando a aparição de Adrien num canal de televisão francês, com sandálias de piscina e a (in)evitável peúga branca, todos os jogadores, nas conferências de imprensa, tinham um discurso escorreito, nada atabalhoado e sem lançar mão aos habituais chavões e frases feitas.

NO ENTANTO, ver Éder no “Alta Definição” ultrapassou tudo o que eu esperava. Para começar, esperava um tipo aos saltos de contente – era o que eu, estupidamente, teria feito – mas Éder, ao contrário disso, era a fleuma em pessoa. O agora designado “herói improvável” estava impávido e sereno, como se para ele marcar um golo que daria um título europeu ao país fosse a coisa que ele faz todos os dias. Todos conhecemos a imagem de James Bond no meio de uma confusão: os ingleses definem-na como “calm, cool and collected” (às vezes dizem apenas “os três cês”) e que se poderá traduzir por “sereno, calmo e impassível”. Pois assim estava Éder no programa de Daniel Oliveira.

E ESSA calma bem poderia servir de exemplo a tanta gente que vemos ser entrevistada nos nossos canais de televisão. Ali esteve ele a explicar como se faz: sem se mexer muito (quase nada), a escolher as palavras com cuidado, a fazer pausas onde necessárias, a ponderar cada frase, a pontuar com um sorriso quando a situação o pedia, ou um ar mais fechado quando o assunto era mais melindroso. Talvez muito disto se deva ao tempo que passou em Inglaterra. E quando se falou em família e nas crises por que passou, nem mesmo aí se foi abaixo: que sim, que lamentava tudo o que se passou, mas só queria ter tido um pouco mais de carinho na adolescência. E antes que a pergunta viesse, ele próprio o disse: “Fui com o meu pai para Inglaterra, mas o meu pai foi preso. Ainda está preso. Foi preso quando eu tinha 12 anos e agora tenho 28. Falámos muito pouco nestes 16 anos.” E os olhos muito escuros, aqui, ficaram subitamente brilhantes.

ASSISTI, quase em directo e através de diversos meios, à tentativa de golpe de estado na Turquia. Por enquanto não vale a pena alongarmo-nos muito sobre este assunto, mas eu sou dos que acredito que o golpe partiu do próprio presidente Erdogan. Só assim se poderia explicar que a “purga” que se seguiu ao golpe tivesse atingido, ao quarto dia, mais de 50 mil turcos tenham sido despedidos, suspensos ou presos. E o golpe (?) falhou porque Erdogan fez uma chamada de vídeo para a televisão pública a convidar o povo (=os seus seguidores) a saírem para a rua… A SIC Notícias disse ser um 25 de Abril: enganou-se, uma vez mais. Mas o povo, descontrolado, atacou polícias e soldados – e matou diversos deles, atirando-os da ponte Bogazici, uma das duas sobre o Bósforo, em Istanbul…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O dia 16 de Julho não fica, a partir de agora, a marcar apenas a data da batalha de Navas de Tolosa que pôs frente a frente, em 1212, contingentes de todos os reinos cristãos da Península contra as tropas do califa almóada Muhammad an-Nasir. Agora, neste ano da graça de 2006, esse dia fica também a assinalar a feliz ocorrência de terem chegado ao fim, um seguidinho ao outro, os dois programas mais lamentáveis que a TVI pôs no ar nos últimos tempos. Falo, obviamente, da novela “Dei-te Quase Tudo” e de uma outra coisa que dava pelo nome de “O Meu Odioso e Inacreditável Noivo”.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição 4127/4128 de 22 de Julho de 2016

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