A vida vai torta, cantavam os Xutos…
Bernardo de Brito e Cunha
Não se pode dizer que os primeiros tempos do reinado de Rui Rio à frente do PSD lhe tenham corrido de maré. Logo na apresentação dos novos corpos directivos do partido a escolha de Elina Fraga para o cargo de vice-presidente mereceu apupos, in loco, por parte dos seus próprios pares: continuando no Latim e nas suas locuções, tão usadas a torto e a direito, não se pode dizer que Elina Fraga, antiga bastonária da Ordem dos Advogados e neste momento a braços com uma investigação sobre a sua gestão à frente da Ordem (que muitos dizem ter sido desastrosa), não se poderá afirmar, dizia, que a Dra. Elina Fraga seja primus inter pares no seio do PSD. Nem mesmo vice-primus…
E enquanto a Rui Rio não restava outra solução que não fosse pronunciar o clássico “acredito na inocência da Dra. Elina Fraga”, eis que no congresso do partido é eleito para secretário-geral do mesmo o Dr. Feliciano Barreiras Duarte que, pouco tempo depois, se veio a saber que fez constar no seu currículo o estatuto de “visiting scholar na Universidade de Berkeley”, no que foi desmentido pela própria Universidade. E Rui Rio, metido em mais um fogo, lá veio dizer que não havia problema nenhum, que o currículo apresentava coisas que estavam “menos bem” mas que já tinha sido corrigido, portanto tudo bem.
Colocado perante esta realidade, Barreiras Duarte em vez de apresentar argumentos para desfazer dúvidas, preferiu — em princípio, por falta de argumentos válidos — assumir o falso papel de vítima, não olhando a meios: os seus algozes estavam não só fora do partido como também nas facções internas do próprio PSD, chegando a afirmar que as críticas (tanto internas como externas) tinham Rui Rio como alvo principal, mas parece-me que foi Barreiras Duarte quem atirou as setas a esse alvo. Esqueceu-se de dizer, ou pelo menos não assumiu, que o causador de tudo isto, quem armadilhou esta triste e infeliz história, quem foi o principal inimigo foi ele próprio, porque mentiu. Espero que tenha pedido desculpa, pelo menos, ao presidente do partido.
Como se esta história não bastasse, acabou por ser complementada por outra não menos digna de registo, que consistiu em usufruir de subsídios de deslocação, por — na qualidade de deputado à Assembleia da República — ter comunicado ser residente no Bombarral, quando na realidade vive na Avenida de Roma, em Lisboa. E é este tipo de pessoas que faz as leis para os cidadãos deste pobre país.
Veio outro para o seu lugar, ainda sujeito a confirmação pelo partido. José Silvano, que se apresentou com uma “boca” para o antecessor: “O meu currículo é simples, não pus lá nada para embelezar.” E logo a seguir, no seu comentário na SIC, Miguel Sousa Tavares veio dizer que “José Silvano, como bom transmontano, não se ia meter em trapalhadas”. É claro que Miguel Sousa Tavares se estava a esquecer dos locais de nascimento de tão irrepreensíveis personagens (e nada dados a trapalhadas) como Isaltino Morais ou Duarte Lima. São estas generalizações que nunca dão bom resultado.
Às quintas à noite, quando a hora de deitar se prolonga, fico muitas vezes a ver o programa “Autores”, na TVI. Bem sei que o programa é uma parceria entre o canal e a Sociedade Portuguesa de Autores, mas isso funcionava a seu favor porque permitia ter naquele espaço “autores” dos mais diversos campos. O programa voltou a semana passada para mais uma temporada e, para minha surpresa, com novo apresentador. Nem o primeiro convidado desta nova série, que foi o presidente da SPA, José Jorge Letria, nem o novo apresentador (e compositor, cantor e ex-arquitecto) Carlos Mendes disseram uma palavra que fosse a respeito do apresentador cessante, Mário Figueiredo. Nem que fosse apenas para lhe dizer “Obrigadinho por estes anos, ó Mário!”. Nada: o programa abriu com uma imagem de Carlos Mendes e a legenda em rodapé “Carlos Mendes – Apresentador”. E depois, naturalmente, seguiram-se 50 minutos de encómios à vida e obra do presidente da SPA. E a vida lá segue direita por linhas tortas. Ou vice-versa.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A RTP fez, por uma vez, uma coisa acertada: depois do programa comemorativo dos 50 anos de carreira de Simone, retransmitiu a “Grande Entrevista”. E, aí, gostei sobretudo da simplicidade com que mencionou o nome do pai dos seus filhos, ainda vivo, da ternura saudosa com que falou de Varela Silva, do episódio em que foi obrigada a ir cantar nas ex-colónias, a “convite” do governo: convite esse que era “irrecusável”, e quem o declinasse seria acusado de alta traição à Pátria. Foi, mas negou-se a fazer um espectáculo extra, pois isso significaria perder o avião para Portugal, onde os filhos muito pequenos a esperavam. E quando chegou foi chamada ao Movimento Nacional Feminino, onde a sua presidente, Supico Pinto, a acusou de alta traição. E na “Grande Entrevista” teve uma palavra de atenuada raiva para com a presidente, que ainda está viva. Bem como uma outra para o ministro que mandou telefonar a dizer que não podia estar no espectáculo… que acontecera na véspera.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ediçãon.º 4205 de 30 de março de 2018

