Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 2nd 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Cristina e Catarina

Bernardo de Brito e Cunha

Impõe-se que faça um pequeno aviso à navegação: ao fim de muitas crónicas a dizer mal dela, hoje vou dizer bem de Cristina Ferreira. E isto fica a dever-se ao facto de, há uma semana, ela ter defendido Catarina Furtado das críticas que lhe foram dirigidas pelo seu inglês nas duas eliminatórias do festival da Eurovisão que se realizou no último sábado. Defendeu Cristina Ferreira que Catarina falou o inglês que todos nós falamos, isto é, uma língua que não é nossa, dado que nenhum de nós nasceu em Inglaterra, na Austrália ou nos Estados Unidos. O problema de Catarina pode ter sido mais notório por outra apresentadora, Daniela Sofia Korn Ruah (mais Olsen pelo casamento), ser uma portuguesa que estudou no St. Julian’s School e desde cedo viveu e aprofundou os estudos em Inglaterra e nos Estados Unidos, onde é actriz de televisão, e que, obviamente, tem uma outra prática completamente diferente da língua inglesa. Quem apontou esse defeito a Catarina só pode ser um purista e Cristina Ferreira esteve bem ao defender uma camarada de trabalho, chegando a dizer que ela própria falaria o inglês que sabe, se estivesse naquele lugar, e que reconhece não ser perfeito. Que daria para o gasto…

De resto, como se veria na final de sábado, durante as votações dos júris dos 46 países, muitos foram os porta-vozes escolhidos que falaram num inglês bem mais macarrónico do que o de Catarina Furtado. O jovem australiano que falou em português (mandando um abraço para a Madeira, onde residem os seus ascendentes) fê-lo por graça, porque o Português já estava um pouco enferrujado… E porquê? Porque não o fala todos os dias, obviamente. Tal como Catarina Furtado não fala com a família e camaradas de trabalho em inglês… Tratou-se de uma não-questão num certame que correu de forma extraordinária. E que, tal como muitas vezes se vê no estrangeiro (naquele estrangeiro que admiramos e onde tudo é maravilhoso), também teve um penetra albanês durante a actuação da canção de Inglaterra, país onde reside. Tudo para dar um certo frisson ao nosso Festival…

E como não quero falar das canções concorrentes, falo de uma outra apresentadora, Filomena Cautela. Esteve bem, muito elegante e bastante discreta, quase o oposto daquilo que estamos habituados a ver no “5 para a Meia-Noite”. Como o seu papel teve muito de contacto com grupos de público, Filomena mostrou-se à altura, sempre bem-disposta e muito comunicativa. Foi bom vê-la muito alegre, divertida e bem-humorada, mas não tão “acelerada” como é costume…

Não falar das canções concorrentes, não quer dizer que não possa falar das duas canções que ouvimos extra-festival: o novo single de Salvador Sobral, “Mano a Mano” e, de novo, o “Amar pelos Dois”, desta vez em forma de dueto – e, caramba, que dueto! Nada mais nada menos do que Salvador Sobral a cantar com o grande Caetano Veloso – segundo o próprio Salvador, “a melhor coisa que lhe aconteceu com a vitória na Eurovisão”.

Motivo de conversa, discussão e debate em quase todos os telejornais tem sido o levantamento do sigilo bancário no que diz respeito às entidades, pessoais ou colectivas, que pediram emprestado aos bancos que precisaram de ser intervencionados com o dinheiro dos contribuintes e que não pagaram esses empréstimos. E, sinceramente, não vejo onde está a dúvida: sempre que a minha conta ficou abaixo de zero, o banco veio cobrar-me isso e com juros – não foi a um qualquer vizinho do lado. Porque razão havemos de ser todos nós a pagar aquilo que outros (eventualmente poucos) receberam? Estas coisas fazem-me sempre espécie e deixam-me furibundo, sobretudo porque “estas coisas” estão sempre protegidas por uma lei qualquer.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Quando os Globos de Ouro americanos atribuem os seus prémios anuais, que fazem? Premeiam os melhores nas diversas zonas do cinema e da televisão. Porque são organizados por entidades que lidam com essas zonas. E por cá, que faz a SIC? Atribui seis prémios relativos a outras tantas categorias e que são Teatro, Música, Moda, Desporto, Cinema e um extra, o Prémio Mérito e Excelência. E não podemos deixar de perguntar: e onde ficaram os prémios de Televisão? Carlos Cruz, na passadeira vermelha, disse que não havia prémios de televisão “pelas razões que todos conhecemos”. E eu peço desculpa por não pertencer aos “todos” e não conhecer as razões, mas tenho fortes suspeitas: o Dr. Balsemão, esse mariola, deve ter tido receio de que os prémios de televisão fossem todos para a concorrência… Ele lá sabe a televisão que tem e faz.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4212 de 18 de Maio de 2018

Leave a Reply