Uma semana de loucos
Bernardo de Brito e Cunha
No dia em que vos escrevo, a última terça-feira, deu conta a RTP de uma vitória judicial para Carlos Cruz – o que é, obviamente, uma notícia de televisão – embora tenha demorado para lá do aceitável. O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) deu razão ao apresentador português na sequência do recurso interposto no âmbito do processo Casa Pia. Com esta decisão, o TEDH poderá obrigar à reabertura do processo Casa Pia por recusa na admissão de novas provas de apreciação de recursos dos arguidos do caso. Tudo isto porque Carlos Cruz defendia que o Tribunal da Relação deveria ter aceitado novas provas e documentos quando apreciou o recurso.
Se o Ministério Público não recorrer, isso pode significar que todos os arguidos podem reabrir o caso, cuja sentença foi há oito anos, salientou a RTP. A estação pública referia ainda que, noutro ponto do acórdão conhecido esta terça-feira, o TEDH rejeita as pretensões da defesa que queria confrontar testemunhas com declarações que fizeram ao longo do processo. Mesmo assim, é uma vitória para o Sr. Televisão, embora tardia: recordo que o apresentador esperava que esta decisão do TEDH chegasse a tempo de impedir que cumprisse pena de prisão no estabelecimento da Carregueira…
E não posso deixar em branco aquilo que toda a gente sabe e certamente viu: a magnífica trivela de Ricardo Quaresma no jogo contra o Irão. Para mim, que ando há não sei quantos jogos a ruminar aqui por casa a frase “Deixa jogar o Quaresma!”, foi como se Fernando Santos me tivesse dado, finalmente, razão, mas Ricardo Quaresma fez-me (fez-nos) o favor de transformar essa trivela naquele que será, muito possivelmente, o golo mais belo deste Mundial – pelo menos até agora, ou seja, de toda a fase de apuramento para os oitavos de final deste Rússia 2018.
Mas antes de abandonar este assunto e passar a um outro bem mais triste, bem gostaria de saber que raio de coisa tinha Carlos Queiroz a dizer a João Moutinho, quando agarrou o jogador português pelo braço e lhe falou ao ouvido? Isto não é irregular? Ou Carlos Queiroz esqueceu que já não treina a selecção há muito tempo?
O assunto triste é Bruno de Carvalho, claro. O sujeitinho (desculpem o diminutivo, mas é mesmo para achincalhar) que tem açambarcado as televisões e todos os media conhecidos do Homem para afirmar milhares de coisas e, no dia seguinte, defender exactamente o seu contrário. Com a época terminada no relvado, e nove jogadores a rescindirem contratos alegando justa causa, agudizou-se a guerra directiva em Alvalade, com Bruno de Carvalho a considerar que a Mesa da Assembleia Geral se demitiu publicamente e não tem legitimidade para estar em funções, e Marta Soares a entender que deve manter-se até novo acto eleitoral, e a agendar a AG de destituição. Bruno de Carvalho não reconheceu essa AG, garantiu que não ia comparecer, mas… apareceu e até votou numa questão em que era parte interessada. Depois de conhecidos os resultados, garantiu que nunca mais aparecia no Sporting e que se iria “suspender vitaliciamente” de sócio e adepto – mas a verdade é que um dia depois lá estava a anunciar a sua candidatura. E eu só pergunto isto ao mundo sportinguista a que não pertenço: não será altura de se pôr de lado a Lei e a Justiça e de se passar para o campo da Psiquiatria?
Tive uma surpresa no último “Governo Sombra” da TVI24. Já há algum tempo que o “ministro” José Miguel Tavares apresentava no alto da cabeça uma (cada vez maior) tonsura ao estilo dos franciscanos. Decidiu resolver o problema de uma vez por todas e apresentou-se na última sexta-feira de cabelo completamente rapado. Achei bem e, sobretudo, achei corajoso: só que, com o correr do programa, reparei que o crânio apresentava diversas manchas um bocadinho nojentas. A caracterização não podia ter remediado aquele aspecto?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Fiquei espantado com a presença de Zézé Camarinha no programa da manhã da TVI, na última terça-feira. Percebi, com o andar da (elevada) conversa, que tinha saído um livro sobre ele. Percebi igualmente, com o andar da mesma conversa (e, não posso escondê-lo, com algum alívio), que não tinha sido ele a escrevê-lo: ele limitou-se a ditá-lo e alguém deu àquilo a forma que tem. Não conheço o livro – nem estou interessado em conhecer. No entanto reconheço que já fazia falta, e há muito, um estudo sério sobre o algarvio: não uma biografia, um mero enumerar dos seus próprios recordes do Guinness – se assim se lhes pode chamar -, mas um profundo e intensivo estudo sócio-patológico do homem.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4218 de 29 de junho de 2018

