Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 2nd 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

As programações trapalhonas

Bernardo de Brito e Cunha

Quem acreditava que (só) os desígnios do Senhor eram insondáveis estava bem enganado: os propósitos dos responsáveis pela programação da TVI são ainda mais impenetráveis. Para começar, no último domingo deveria ter sido emitido o último episódio da segunda temporada de “Pesadelo na Cozinha”. Mas durante o dia, através da página oficial do programa, foi revelado que o episódio tinha sido adiado para o próximo domingo, dia 25 de Novembro e, em lugar do chef Ljubomir Stanisic, seria transmitido o final da novela “Jogo Duplo”. Por muito que me tenha divertido, no início, com as aventuras de Manuel Quiang, aka Manuel Abdul Haziz, aka Manuel Fernandes, a verdade é que para o fim ninguém foi capaz de aguentar a novela no mesmo nível e os números falavam por si: qualquer “Pesadelo na Cozinha” batia (e por uma cabazada das antigas) qualquer gracinha de Abdul Haziz.

Depois temos “Onde Está Elisa?”: uma série portuguesa exibida pela TVI a partir de 17 de Setembro e que é uma adaptação da telenovela chilena “¿Dónde está Elisa?”. Prevista para estrear em Abril de 2014 com Fernanda Serrano, Paula Lobo Antunes e José Carlos Pereira no elenco, foi vetada por falta de verba. Em 2015 a ideia de produzir a série voltou a surgir, mas apenas em 2016 foi confirmado que o folhetim ganharia uma versão portuguesa e que na verdade se trataria de uma série, e não de uma novela como havia sido referido anteriormente.

“Onde Está Elisa?” estreou com os 120 episódios totalmente gravados. Anunciada como uma «tele-série» promete agarrar os portugueses logo no primeiro episódio, até porque o ritmo e narrativa são diferentes quando comparados com o tradicional formato de telenovela. E no entanto, nesta terça-feira em que vos escrevo, 20 de Novembro, a ficção é interrompida ao fim de 48 episódios de emissão. O dia (ou mês, ou ano) do regresso das buscas por Elisa à antena da TVI não foram avançadas pela estação. Talvez seja por estas cambalhotas que algumas pessoas me têm tentado conquistar para a Netflix, aparentemente a sétima maravilha das séries e filmes…

A SIC estreou no dia 8 de Maio, no “Jornal da Noite” a primeira de cinco Grandes Reportagens sobre a doença que mais tem aumentado no mundo. Mas caramba!, dirão: se estreou em Maio só sete meses depois é que vem falar dela? Faltava explicar isso: perdi-a na SIC, recuperei-a por acaso numa retransmissão fora de horas da SIC Notícias. Chamava-se este primeiro episódio, que é fascinante, “O mal entendido: as doenças a que chamamos cancro”. O cancro já foi uma inapelável sentença de morte, mas evolui cada vez mais para doença crónica, possível de controlar. Ainda causa um sofrimento indizível, mas a taxa de cura é cada vez mais animadora. É uma palavra que ainda custa pronunciar, mas é também no falar que começa o combate e a prevenção. Procuraram resposta para as grandes perguntas: por exemplo, o que é o cancro ou como chegamos aos tratamentos mais avançados, e a que preços. Neste primeiro capítulo, cruzam-se duas viagens: a da ciência e a de um homem a quem aos 35 anos diagnosticaram um cancro.
A reportagem é uma viagem em que somos conduzidos por quem vive a doença, por quem a trata e por quem a investiga, procurando respostas para as grandes perguntas sobre a doença que mais tem aumentado em todo o mundo, mas que, tudo indica, em breve estará controlada. “O mal entendido: as doenças a que chamamos cancro” é um trabalho de Miriam Alves, Rogério Esteves, Rui Berton e Diana Matias – a quem peço desculpa pelos sete meses de atraso.

Estou farto. Estou cansado. Todos os dias, para onde quer que me volte, eu tenho uma tragédia: têm nomes diferentes, mas são todas uma praga, quer se chamem Trump, Bruno de Carvalho, a tragédia de Borba, Bolsonaro, o ataque a Alcochete (ainda), agora contrabalançado pelo caso e-Toupeira, as touradas, o IVA… Uff! O problema não é os meus camaradas jornalistas irem buscar os temas: é a sua obrigação. Mas repetem as tragédias, com novos comentadores, com outros especialistas nas diversas matérias, dia após dia após dia, ad nausea, até transformarem as tragédias no Livro do Apocalipse. E no meio de tudo isso, parece que só a RTP2 deu pelo centenário da morte de Amadeo de Souza-Cardoso e mesmo assim num programinha que merecia ter sido mais alongado e profundo.
Terminou “Sara”, a série de que aqui vos falei, e deixou-me um vazio nos domingos à noite. Que farei agora? No Twitter de Bruno Nogueira, que teve a ideia da série, alguém lhe perguntava “Porque acabam tão depressa as coisas boas?”. Ao que ele respondeu com cinco palavras: “Para que não fiquem más.”

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Não me parece que a RTP tenha necessidade de recorrer a dramatizações de casos mais ou menos escabrosos – refiro-me ao caso de Maria das Dores – para mostrar como foi executado o crime. Fátima Lopes pode fazê-lo, Manuel Luís Goucha também, mas a RTP é que não. Seja na “Praça da Alegria” ou noutro lado qualquer. Por um instante estive à espera que aparecesse em cena Hernâni Carvalho…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4235 de 23 de novembro de 2018

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