Um documento exemplaríssimo
Bernardo de Brito e Cunha
O DOCUMENTÁRIO “Os Donos de Portugal”, que foi emitido pela RTP2 na madrugada de dia 25, começava com um pedido ao espectador: imagine que um leitor de crónicas de negócios do século XIX regressa a Lisboa e retoma as suas leituras – “Que espanto sentiria ele ao encontrar os mesmos nomes daquelas grandes famílias que povoavam a Baixa e a Lapa? Será que ainda vão lá estar em 2150?” O filme começa em finais do século XIX, revela uma burguesia que tem no Estado o seu mercado privilegiado e que sobrevive de relações estreitas com os universos da política e dos negócios, numa lógica de permanente favorecimento. Mostra-se o fracasso de uma burguesia incapaz de modernizar o país, absolutamente centrada no enriquecimento e na autopromoção social. Uma rede que é abalada com o 25 de Abril, mas que o Estado, através do processo de privatizações, coloca novamente no centro do poder económico e financeiro. E o documentário vai mais longe: “No centro desse poder esteve sempre a família Mello”, que há-de unir-se às famílias Champalimaud e Espírito Santo. A árvore genealógica da burguesia portuguesa mostra como o casamento é passaporte para assegurar a continuidade da direcção dos negócios e como o país económico é refém de “uma grande família”. Já no Estado Novo, o documentário revelou “uma amizade única” entre Salazar e Ricardo Espírito Santo, que se “reúnem ao domingo” e se “correspondem regularmente”. As famílias Champalimaud e Mello são à época, por exemplo, protegidas por regras alfandegárias que garantem mercados exclusivos.
ATRAVESSAVA TODA A PELÍCULA a ideia de que as grandes fortunas foram construídas sempre de mão dada com o Estado, com recurso a medidas de protecção concreta ou através de indemnizações ou empréstimos. Fernando Rosas, historiador e dirigente do BE, defendeu no decorrer de “Os Donos de Portugal” que “a cultura da burguesia industrial portuguesa é uma cultura de chapéu na mão em relação ao Estado”. Rosas explicou ainda que “a elite política do país era muito pequena”, o que fez com que a circulação entre os negócios e a política fosse mais intensa. “O Estado foi o construtor da burguesia, até que um dia, como no célebre conto do aprendiz do feiticeiro, o aprendiz tomou conta do feiticeiro”. Mas os sectores de “acumulação mais rápida” emergem no século XX a par dos impérios familiares. Américo Amorim, Belmiro de Azevedo e Jerónimo Martins passam a fazer parte desse núcleo duro, segundo o relato. Mas também a “elite angolana” é apontada como uma dona de Portugal. Pelo menos da banca. “Mais de 10 por cento do BPI e do BCP, 25 por cento do BPN” e empresas como a Mota-Engil, PT, Zon, grupo Espírito Santo e Unicer.
ANALISADOS 115 CURRÍCULOS de governantes do último século, o documentário concluiu, com especial relevância para o PSD, que “entre política e negócios o trânsito é permanente e muito intenso”. E que “esta promiscuidade cria um sistema de enriquecimento rápido e uma ascensão social vertiginosamente rápida”, nas palavras de Jorge Costa. Duas afirmações no documentário explicam quase tudo. A primeira é que “o lugar num ministério é hoje trampolim para uma vertiginosa ascensão social através de remunerações com que muitos quadros partidários nunca sonharam, nem no partido nem nas suas profissões”. E a segunda vai ao âmago da corrupção: “Quem dirigiu a privatização passa a dirigir o que privatizou, quem adjudicou a obra pública passa a liderar a construtora escolhida, quem negociou pelo Estado a parceria público-privada passa a gerir a renda que antes atribuiu ou vice-versa.”
Foi um estudo notável de Jorge Costa – e ao mesmo tempo uma denúncia. E, talvez por isso, passou na RTP2 às 2h10 da manhã e não à hora de um “Sexta às 9” qualquer…
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Sou surpreendido com a notícia de que os jogos do Mundial, a realizar na Coreia do Sul e no Japão, já têm quem os transmita por cá. Para os mais distraídos, a nossa selecção classificou-se e vai lá estar. (…)E quem é que vai transmitir esses jogos de importância capital para a nossa integridade como nação? A RTP? Pois não será. Não lhe aconteceu como me parece que se passou com a TVE espanhola, estação pública a debater-se com problemas de tesouraria, que imediatamente veio a terreiro dizer: “Escusam de contar connosco para comprar os direitos para transmitir os jogos. São muito caros e nós não temos dinheiro para essas coisas.” Atitude honesta, parece-me. Mas, por cá, a RTP não fez o mesmo. Que eu tenha dado por isso, a RTP não se chegou à frente para dizer nem que sim, nem que não: que eu saiba, não disse nada. (…)Pois quem vai transmitir os jogos, meus amigos, é nem mais nem menos do que a SportTV. (…) Isto levanta problemas, como se percebe rapidamente: um evento daquela importância não pode ficar nas mãos de uma televisão em sinal fechado. Tem que disponibilizar os jogos. E a SportTV, que pagou um dinheiro que deve ter sido interessante para ter os jogos, está disposta a negociar um pacote de jogos a outra televisão, de sinal aberto. Porque a isso a obriga a Lei da Televisão. Coisa que a SportTV certamente já sabia, quando se meteu nas negociações.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3934 de 4 de Maio de 2012

