José Jorge Letria
Com a morte de Helena Cidade Moura, aos 88 anos, perde a democracia portuguesa um dos seus nomes maiores e uma figura de referência para portugueses de várias gerações. Corajosa, determinada, muito culta e grande mobilizadora de energias e vontades, foi muito mais do que dirigente e deputada do MDP/CDE numa passagem de três anos pelo hemiciclo de S. Bento. Foi uma figura maior da nossa vida cívica e cultura, tanto como especialista na obra de Eça de Queirós, como pelo seu trabalho como alfabetizadora, lutadora antifascista e organizadora de fomas de cidadania activa na Civitas, de que foi destacada e respeitada dirigente.
Conheci Helena Cidade Moura em finais da década de sessenta do século passado nos combates contra a ditadura e reencontrei-a, sempre activa, empenhada e criativa durante a minha experiência autárquica em Cascais, sua terra de residência e de adopção, onde deixou também a marca da sua invulgar qualidade cívica e humana.
Ao longo desses anos, nunca a vi ou ouvi usar argumentos de autoridade intelectual ou política, embora dispusesse de um invejável “curriculum” que incluia a presidência do Centro Nacional de Cultura, a organização da ediçãio crítica da obra de Eça de Queirós para a editora Livros do Brasil e a organização de uma extraordinária campanha de alfabetização num país que, no 25 de Abril, mantinha ainda números alarmantes nesse domínio, pelo facto de a ditadura, que hoje algumas vozes desculpabilizam ou chegam mesmo a elogiar, ter sempre apostado na existência de um povo iletrado e desinformado para melhor poder ser manipulado e oprimido.
Admiradora de figuras como o brasileiro Paulo Freire, Helena Cidade Moura fez do seu esforço como alfabetizadora e teórica de uma educação livre, democrática e participada o combate central de uma vida marcada pela fidelidade a grandes causas e ideais.
Filha do professor, ensaísta e historiador da literatura Hernâni Cidade, nasceu e cresceu no meio de livros e de figuras centrais da nossa vida intelectual, embora nunca tenha feito dessa circunstância um factor de legitimaçao ou de superiodade. Conheci bem o seu entusiasmo e a sua capacidade de organização, a forma como acreditava no futuro de um Portugal que se tornasse verdadeiramente democrático e sem iliteracia. Acredito que partiu, aos 88 anos, embora diminuída pela doença que a atingiu e acabou por vitimar, convicta de ter trilhado o caminho certo e de ter dado ao seu país e aos seus compatriotas o melhor de si e das suas invulgares qualidades.
Muitas vezes conversámos sobre as questões centrais da democracia, da cultura e da cidadania e nunca lhe encontrei sinais de desânimo ou de descrença, por ser uma mulher altruísta, combativa e tolerante.
Vi-a pela última vez na despedida a Matilde Rosa Araújo, nossa amiga comum, com quem partilhava o amor pela cultura e pelo papel formativo e libertador da educação, orientada sobretudo para aqueles que a distribuição injusta da riqueza afastara do acesso aos livros, à leitura e à fruição artística e cultural. Tinha planeado fazer com ela uma longa entrevista que ficasse como registo de memória de uma vida exemplar e única. Infelizmente, dei–me conta de que o seu estado de saúde já não lhe permitia recuar até tempos e factos essenciais no seu percurso como cidadã e combatente pela liberdade. Reconheceu-me, conversámos durante alguns minutos, mas apercebi-me de que a Helena Cidade Moura que eu sempre admirara vivia agora num universo de sombras e lembranças confusas ou definitivamente perdidas. Senti, nesse dia, que a sua caminhada para o fim que agora chegou era já irreversível.
Num regime democrático, Helena Cidade Moura podia ter sido tudo o que merecia ser, mas os seus anos de maior energia e combatividade foram vividos em condições políticas adversas e o pós-25 de Abril não lhe fez, como aconteceu em, muitos outros casos, a justiça que merecia. Por isso a evoco, recordo e homenageio com grande respeito e saudade, lembrando uma frase que me disse algumas vezes, com a grande sabedoria que a caracterizava e que caldeou para o trabalho na Civitas: “Cruzar os braços é que nunca !”.
Neste tempo de vazio de memória colectiva e de ausência das valores estruturantes e mobilizadores, o seu nome pouco dirá às gerações mais novas, incluindo as dos políticos que hoje se encontram no activo. Mas é sempre tempo de descobrirem quem foi, o que fez e o muito que deu a este Portugal que hoje luta pela sobrevivência e pela salvaguarda da sua débil soberania. Eça escreveu um dia que “Portugal é um país traduzido do francês, mas em calão”. Hoje é um país dominado por uma troika e com sotaque alemão. Helena Cidade Moura talvez tenha tido a sorte de já não se sentir magoada e insultada por esta dor que não nos quer dar tréguas. Ficamos, porém, com o legado de esperança que foi a sua vida e a sua obra.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, pág. 6, edição 3948 de 14 de Setembro de 2012.

