Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

TUDO DEVE ESTAR EM ABERTO EM NOME DA DEMOCRACIA

José Jorge Letria

Vivemos tempos sombrios e incertos, tempos de desagregação e conflito latente, tempos de descrença e de medo do futuro. Mesmo quem viveu, como é o meu caso, os anos que precederam o 25 de Abril e os de tensão política e conflitualidade social que depois vieram, não tem memória de um quadro como o actual, perturbador pelas dúvidas e pelas ameaças para as quais é cada vez mais difícil encontrar respostas racionais.
Tudo isto acontece em democracia, mas a democracia, 102 anos após a implantação da República, está a mostrar-se incapaz de gerar as soluções que permitam estancar este processo de destruição da classe média e da mais elementar confiança económica que permita iniciar um ciclo de recuperação. A grande questão está em saber até onde este estado de coisas nos poderá levar se entretanto não houver uma clara alteração de rumo nas políticas vindas do executivo suportado por uma coligação ferida de morte devido às divergências efectivas, embora por enquanto não assumidas publicamente.
Aumenta diariamente o número de desempregados, de empresas falidas, de estabelecimentos comerciais fechados, de pais desesperados por não poderem alimentar convenientemente os filhos, de idosos sem meios para manterem a medicação que lhes foi prescrita, de casais cuja relação está a ser minada pelas sombras densas que lhes pairam sobre a vida quotidiana, de pessoas com depressões graves, de filhos que regressam a casa dos pais cujas magras pensões estão a ser reduzidas de forma violenta, de cidadãos que se interrogam, sem rodeios, sobre a sustentabilidade de um sistema que há muito se encontra seriamente afectado por fenómenos como a corrupção, o clientelismo, o favorecimento por conveniência dos aparelhos partidários e a falta de transparência nas relações sociais e económicas, bem como no funcionamento da justiça e do próprio Estado ao seus níveis mais elementares.
O ex-Presidente da República Jorge Sampaio sublinhou a importância que tem a esperança para o futuro da democracia. E fez muito bem em afirmá-lo. Mas todos sabemos que é justamente a esperança que está a ser destruída pela brutalidade da carga fiscal, pelo insustentável fosso entre ricos e pobres, pela ganância de um aparelho governativo que não pára de contrair novas despesas contratando assessores e “especialistas”, em grande parte saídos do “aviário” das juventudes partidárias, quase sempre mais aparelhistas que os próprios aparelhos seniores e os directórios que os comandam, e adquirindo novas viaturas de topo de gama, para insulto dos que pouco ou nada têm.
Não se trata de uma abordagem demagógica da situação, mas sim da fria análise dos factos, que leva figuras de referência desta maioria coligada a demarcarem-se com veemência da política governativa, bastando lembrar declarações recentes de Manuela Ferreira Leite, de António Capucho, de Marques Mendes e do próprio Ângelo Correia, apoiante do Primeiro-Ministro e figura de relevo no seu processo de ascensão ao poder. E de tal forma assim é que nos interrogamos, com plena legitimidade e oportunidade, sobre a existência de condições políticas, sociais, económicas e financeiras para que este governo permaneça em funções sem que tenha de haver uma intervenção presidencial que altere este quadro de angústia e, para muitos, de autêntico desespero. E o que está em causa não é os partidos da maioria terem a clara percepção de que, num próximo acto eleitoral, irão ser penalizados muito para além dos que as sondagens deixam prever. O que está verdadeiramente em causa é saber até onde e até quando a democracia portuguesa é capaz de resistir a este intrincado novelo de tensão, privação e sofrimento individual e colectivo que há-de trazer para a rua cada vez mais pessoas e em mais elevado e visível estado de indignação e revolta.
É em momentos como este que os cidadãos conscientes têm de apostar nos laços de solidariedade, na defesa dos direitos mais elementares da cidadania e na liberdade de continuarem a lutar por aquilo em que acreditam e de depende, em larga medida, o futuro dos seus filhos e netos. E é imperioso que tal aconteça sem deixarem que o seu relacionamento quotidiano seja envenenado pela intriga, pelo medo, pela inveja ou pelo egoísmo em que o poder quase sempre aposta para dividir o que, nas horas em que a História se decide, deve ser indivisível. Este é o tempo dos cidadãos, o tempo da liberdade e da fraternidade, o tempo, em suma, em que se defende a soberania dos povos e muitas vezes se revelam os verdadeiros heróis. Tudo está, como nunca esteve, em aberto, e a última palavra não pode ser a de quem está na política para colocar os números, os interesses, as conveniências e os esquemas muito acima das pessoas e dos seus direitos mais elementares, a começar pelo de terem uma vida digna.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3953 de 19 de Outubro de 2012.

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