Conhece-a?
Há uma altura da vida que a gente se sente como um carro que está a pedir inspecção. Não me refiro a coisas sérias como a osteoporose, uma crise de fígado ou uma úlcera mas coisas ligeiras que marcam o começo do que se chama “velhice”. Já se vê nós não usamos essa palavra porque nenhum de nós sabe quando essa fase começa.
Falo de sinais imperceptíveis, insidiosos, mesmo cómicos que começam a aparecer sem darmos por isso. Vamos ver se consigo explicar.
Nós temos amigos gentis que por volta do Dia de Graças Americano, em fins de Novembro, nos convidam para compartilhar um magnífico almoço, em casa deles com cerca de 20 amigos que vemos todos os anos. Lá encontramos uns 4 ou 5 amigos chegados. Os outros só os vemos raramente. Por isso acenamos, trocamos sorrisos e beijinhos mas não me peçam os nomes deles pois só me lembro das caras. Eram jovens, há anos, quando primeiro os conheci e agora são idosos.
Quando isso aconteceu não sei. Mas e o que acontece também com actores de cinema célebres meus favoritos. Deixa-me perplexa vê-los grizalhos e velhos quando bem me lembro de os ver novos, como eu, há uns anos atrás.
Não são só caras e nomes que esquecemos. As vezes, pego numa folha de papel para anotar qualquer coisa importante mas vendo-me sem caneta vou buscar uma. Tristemente, assim que tenho a caneta na mão, não me lembro do que ia anotar.
Com línguas é pior ainda. Se me lembro duma palavra em inglês, esqueço-a em português. Mas se não me lembro da palavra nem em português ou inglês – lembro-me dela em francês!
Ainda bem que me casei com um inglês, pois quando o John se esquece de qualquer coisa, eu lembro-me, quando eu me esqueço, ele lembra-se. Ele lembra-se de tanta coisa! Até coisas que me aconteceram a mim e que já esqueci.
Pior e para aqueles que tem de usar óculos pois eles tem a arte de desaparecer . Tenho três pares, para ler, para meia-distância (computador) e para distância. Se corro a casa à procura deles no fim descubro que estão a segurar o cabelo, ou pendurados no decote da camisola, ou que os levo na mão – será possível? – que os tenho postos!!!. A razão deve ser esta: com a idade, o arquivo mental está tão cheio que ele despeja-se automaticamente das coisas que ele pensa eu já não preciso. Que discriminação maravilhosa!
Mas Ha outras facetas da idade mais inconvenientes. A surdez, por exemplo.
Temos amigos distantes a quem agora não podemos telefonar porque não nos podem ouvir, pois não se podem ouvir a si mesmos! E uma amiga nossa não pode ver televisão com o marido porque o som altíssimo que ele precisa a torna surda a ela.
E as rugas. Será que os outros também tem esse problema?
Julgo que depende do espelho. O meu não mostra rugas mas, se não tenho
cuidado, e uso um espelho alheio, por mistério elas aparecem.
Nora Ephron uma escritora famosa de comedias românticas feitas em filmes que geralmente mostravam a deliciosa atriz Meg Ryan, escreveu um livro muito engraçado com o titulo “Não me lembro de NADA!” Ela compreendia bem o problema de que falo.
Nora, ainda atractiva e elegante aos 69 quando escreveu o livro, conta que uma vez foi almoçar com nove amigas num restaurante. Eram todas atraentes como ela. Estavam divertindo-se conversando quando a Nora de repente notou que o grupo partilhava uma coincidência curiosa; todas vestiam camisolas de gola alta. Quando a Nora lhes fez notar o caso, as amigas olharam-se embaraçadas, e desataram a rir. A razão? Todas escondiam um pescoço fibroso de galinha magra. – “Faz sentido, “– disse Nora, “ –estamos todas no mesmo barco.”
Há outros problemas com o avanço dos anos, a cintura desaparece. E quando os cabelos se tornam brancos já no armário nada condiz e a mulher não sabe vestir-se.
Ha dois anos tive cirurgia e estive dois meses no hospital. Quando finalmente cheguei a casa e passei pelo espelho da sala vi uma pessoa que não conhecia. – “Quem e ela? “– perguntei a mim mesma, “– Quando veio para cá viver?” Não me reconhecera a mim mesma. Porque? Porque a minha mente não vê rugas, na minha memória os meus cabelos ainda são pretos e, cá por dentro, ainda só tenho trinta anos!!!
Berta Gold, ex-jornalista no Time Magazine – New York

