Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO E OS DIREITOS DE QUEM NOS AMPARA

José Jorge Letria

Quando as crises são muito graves e pouco espaço sobra para a esperança, para o sonho e para outros sentimentos que não sejam a revolta, a indignação e o desejo de resistir, é legítimo que não se confunda o essencial com o acessório.
Não pára de crescer o número de pessoas sem emprego, sem casa e com fome. Não pára de crescer o número daquele que encaram com sufocante angústia o fim de cada dia antes de pensarem no meio ou no fim do mês.
No entanto, recordando Manuel António Pina, grande escritor português que agora nos deixou e que nos legou uma obra única como poeta, cronista e autor de livros para crianças e jovens, não pude deixar de me lembrar da sua paixão, sempre confessada, pelos animais e sobretudo pelos gatos que lhe povoavam a casa e o espaço onde trabalhava. Sempre tivemos essa paixão em comum e, que eu saiba, nunca nos arrependemos dela, por ser genuína e por vir do fundo do coração. Eu sei que há muitos anos Manuel António Pina se preocupava com fenómenos como o abandono e os maus-tratos a animais.
Eu tenho a mesma posição, embora sinta que abordar hoje este tema é visto por muitos como uma verdadeira heresia, já que o eixo do sofrimento e da carência está centrado nos humanos e nas suas aflições. Mas vale a pena perguntar: quantos milhares de crianças, idosos e outras pessoas que vivem sós têm num cão ou num gato a única companhia estável e dedicada e a única fonte genuína de ternura e atenção ? Os números são seguramente impressionantes e comoventes.
Por certo, muitas das pessoas que vivem em verdadeiro estado de penúria deixaram de ter dinheiro para comprar rações para os animais e para lhes garantirem a necessária assistência veterinária. Em muito casos, não tenho dúvida de que humanos e animais de companhia partilham as mesmas refeições, sejam elas o que forem.
Este é também o retrato trágico de um país à beira do abismo. Muitos serão aqueles que preferem pedir na rua para que o seu cão ou o seu gato não morram de fome, pois são esses, na maioria dos casos, os seus únicos e fiéis amigos.
Abordar este tema nesta altura parecerá a muitos despropositado, por sobrepor o acessório ao essencial. Mas só o coração de quem elegeu os afectos que realmente contam sabe o que é, de facto, essencial. Retirem a um idoso a companhia de um cão ou de gato, amigo devotado de muitos anos, e verão como se reduz a esperança de vida de quem ficou completamente só. Por isso, trata-se de um problema social, psicológico e humano, muito mais do que um elemento estatístico ou de um episódio menor.
A fome, a falta de tecto e a miséria que alastra fazem cada vez mais vítimas todos os dias e, entre elas, estão os animais de companhia que tanto amor e amparo dão a quem lhes quer bem. Para muitos, escrever isto será apenas um capricho franciscano em tempos de chumbo. Para mim e para muitos mais é, antes de qualquer outra coisa, uma questão de humanidade quando tudo parece desabar à nossa volta e o essencial deixou há muito de ser a fidelidade do homem à palavra dada, na política e fora dela.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3955, de 2 de novembro, 2012

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