Uma avenida que é um boulevard
Bernardo de Brito e Cunha
EU NÃO PERCEBO bem (não percebi nunca) esta coisa das audiências. Não é bem isso: as audiências até percebo, o que não entendo é o gosto dos portugueses que são responsáveis pelo resultado diário das audiências televisivas. Veja-se só isto: é compreensível que de entre todas as novelas com que a SIC nos brinda todas as noites, duas brasileiras e uma portuguesa, o povo prefira esta última? Porque basta ver um episódio de cada uma das novelas para se perceber onde é que está a qualidade – e não é, certamente, na versão portuguesa de “Dancin’ Days”. As restantes são, por ordem de entrada em cena, todas as noites, a nova versão de “Gabriela” e uma outra que dá pelo nome de “Avenida Brasil”. E esta é que é uma novela a sério.
NÃO QUERO DIZER com isto que “Gabriela” não seja uma bela novela: mudaram as caras, mas a Globo não brinca com estas coisas. O que acontece, possivelmente, é que “Gabriela”, a primeira, ainda está demasiado na nossa memória, porque foi uma novela marcante, a primeira a passar cá e logo um texto de Jorge Amado. E todos nos lembramos como até a Assembleia da República interrompeu os seus trabalhos, para que os deputados não perdessem o último episódio… E para quem acha que a história nunca se repete, bom, então será melhor continuar a ler esta coluna até ao fim. Campeã de audiências e verdadeiro fenómeno nas ruas e nas redes sociais do Brasil, a novela “Avenida Brasil” já terminou no outro lado do Atlântico, mas de certeza que vai entrar para a história do género como a primeira produção da teledramaturgia a centrar sua trama na chamada nova classe média brasileira. As suas personagens são barulhentas, sem modos, mas trabalhadores alegres e solidários: assim como que um espelho dos milhões de brasileiros que saíram da pobreza e que claramente aprovaram a sua caracterização nesta obra de ficção que levou diariamente 38 milhões de pessoas para frente dos seus televisores.
ESTA É A NOVELA mais comentada dos últimos anos e a população incorporou as expressões e trejeitos das personagens da história: ao ponto de, nos estádios, quando uma equipa joga mal, a claque costuma gritar pelo nome do Divino Futebol Clube, a equipa fictícia da terceira divisão da novela… Para criar a trama, João Emanuel Carneiro disse ter-se inspirado na chamada “classe C”, que representa quase 55 por cento dos 195 milhões de habitantes do país, a sexta economia do mundo. As fileiras dessa classe C foram engrossadas com as políticas sociais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), que tirou mais de 40 milhões de pessoas da pobreza. A vingança de Nina contra a vilã Carminha constitui o elo condutor da trama, mas são os novos ricos, com os seus exageros e a sua espontaneidade, que são a sua base e atração maior. A novela também reflete a vida do pequeno empresário, retratado por Monalisa, a batalhadora dona de uma rede de salões de beleza, e do trabalhador comum.
NOS SEUS ÚLTIMOS dias no ar, a novela tornou-se tema obrigatório das conversas, até mesmo das (poucas) pessoas que não acompanharam a trama. Os artistas atrasavam o início dos seus shows, compromissos eram marcados para depois da exibição do capítulo e até os motoristas de táxi acompanhavam a trama no próprio carro… E, para que se veja como a história se repete, a febre de “Avenida Brasil” alterou, inclusivamente, a agenda da presidente Dilma Rousseff, que mudou a data de um comício de apoio ao candidato Fernando Haddad, do PT, à Prefeitura de São Paulo, para que não coincidisse com o último capítulo da novela… Que eu também não quero perder.
A FRASE DA SEMANA é, obviamente, a de Jorge Sampaio na entrevista dada à RTP 1, em que disse, falando da visita de seis horas da Sra Merkel a Portugal, que esperava que “a Sra Merkel percebesse que este é um país com mais de 800 anos de história e que isto não é uma paragem de comboio”…
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Já se sabe: vem aí uma nova/mesma casa, mas com outros habitantes. Era de esperar, ninguém desiste facilmente da galinha dos ovos de ouro. Sobretudo nesta fase, em que o esquema e as estruturas estão montados e tudo corre sobre rodas. O esforço necessário não é coisa de grande monta: basta encontrar gente disponível para estas coisas que, para além de umas férias razoáveis, ainda podem representar uns dinheirinhos pelo meio. Por isso há quem aceite. Mesmo que para receber esses tostões tenha que ver a sua vida devassada em tudo o que é jornal e revista. Mas como a vida está da forma que sabemos, há que fazer por ela.
Sinceramente, a mim não me surpreende que os jornais e revistas lhe dêem todo esse espaço de antena: o público vê o programa, infelizmente, portanto os órgãos escritos não podem ignorar o evento. Mas o que me surpreende é que a principal fonte de alimentação deste diz-que-diz seja a própria TVI.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3955, de 2 de novembro, 2012

