Hoje, desculpem, mas sou cipriota
Bernardo de Brito e Cunha
O PRESIDENTE DO CONSELHO de administração da Sonae, que falava no sétimo aniversário do Clube dos Pensadores, em Vila Nova de Gaia, referiu que “a economia só pode pagar salários que tenham uma certa ligação com a produtividade” e deu, como exemplo, o setor agrícola. “Diz-se que não se devem ter economias baseadas em mão-de-obra barata. Não sei por que não. Porque se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém”, declarou Belmiro de Azevedo, assinalando aquilo que considera ser uma “vantagem comparativa” para Portugal face aos países concorrentes. Para o empresário nascido no Marco de Canavezes, “há muitas atividades, nomeadamente no setor primário, em que a mão-de-obra, que Portugal tem muita e em excesso, é indispensável para que possam continuar”. Belmiro de Azevedo destacou o que disse ser ainda outra vantagem comparativa para o setor primário: o clima, algo que “é de borla”. Foram declarações que lhe fizeram cair meio mundo em cima: eu não. Eu acho que o homem que queria o pãozinho distribuído ao domicílio, diz estas coisas porque ganha 485 euros – o salário mínimo…
FOI DRAMÁTICO o resultado do debate no parlamento cipriota, durante e depois da votação crucial sobre o imposto sobre depósitos bancários que era condição sine qua non para que a ajuda financeira do Eurogrupo ou da troika pudesse ser feita. Uma chantagem e uma canalhice sem nome. Mas essa medida imposta pelo Eurogrupo para “ajudar” Chipre foi rejeitada pelos deputados cipriotas.
Os deputados disseram não à troika, não ao acordo e à renegociação, e votaram contra a taxa bancária enquanto os políticos do governo tinham dito amén a todos os pontos e vírgulas impostos pela troika em sessão dos ministros das Finanças, entre eles o prestimoso Gaspar.
Poderá Chipre viver sem ajuda externa? Talvez. Porque deve estar a contar com a ajuda russa, o que equivale a livrar-se da ajuda da troika para se meter na boca do tubarão. Veremos. Entretanto é bom ver alguém bater o pé à Europa e ao FMI. Europa essa que durante umas três horas se manteve em silêncio, certamente boquiaberta: como era possível que um paizito do sul, com um PIB de 0,2 do de toda a Europa Comunitária, recusasse a ajuda que tão magnanimamente essa mesma Europa lhe estendia?
Se eu fosse cipriota – e esta noite sê-lo-ia com honra – garanto-vos que estava de bandeira em punho no Marquês…
JOSÉ MOURINHO, em entrevista à RTP, falou sobre a difícil situação de Portugal e dos portugueses. O treinador do Real Madrid considera a situação “quase caótica” e revelou o que o revolta. “Entendo qualquer tipo de manifestação de frustração que as pessoas possam manifestar porque a situação é difícil, quase caótica e o pior de tudo é que os culpados vivem bem, alguns muito bem. Há culpados e os culpados estão na maior parte dos casos escondidos”, afirmou o técnico português. “Eu e a minha mulher temos familiares e amigos que vivem exatamente nessa realidade. Pessoas que se formaram para viverem melhor, pessoas que trabalharam toda a vida para viverem as ultimas décadas na maior tranquilidade e a situação é difícil para todos.”
ACHO QUE O PROGRAMA da manhã da TVI, o “Você na TV”, deveria ser um programa de coisas ligeiras. Não o tem sido, ou melhor, tem chamado a si coisas mais sérias. E se umas são mesmo sérias, outras apenas lhe vestem a pele. Há duas semanas que aturo, julgo que às quintas-feiras, uma espécie de mesa redonda em que de um lado estão elementos da oposição parlamentar e, do outro, a D. Isilda Pegado. A D. Isilda, não há outra forma de o dizer, é uma peixeira – desculpa, Manela, que ele há peixeiras impecáveis! – que não faz mais do que interromper toda a gente. Ela é a cabecilha de uma petição que pretende rever ou alterar leis fracturantes: mas com aqueles modos e aquela vozinha, receio que não vá longe. Manuel Luís Goucha, mete aí um travão!
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Eu recordo, como muitos, a madrugada de 17 de Janeiro de 1991 em que, de repente, José Rodrigues dos Santos se viu a braços com a notícia de um “raid” americano sobre o Iraque. Passados os primeiros momentos, vieram em seu socorro Manuel Meneses e Mário Crespo, para dar uma ajuda nas traduções da emissão da CNN, que seria a base de toda a noite televisiva. Essas duas ajudas falharam num ponto que, na altura, me pareceu importante: nenhum deles apanhou a frase do jornalista Dick Chenney, da CNN, em que ele referia que depois da primeira onda de ataque, teria lugar uma pausa para dar a possibilidade a Saddam Hussein para se render. Mas talvez ainda mais impressionante do que isso, é sem dúvida a circunstância de esse ataque ter tido lugar às sete horas da noite, hora dos Estados Unidos. Que tem isto de tão especial? Apenas o seguinte: sete horas da noite é a grande hora do Telejornal americano, o que vem transformar este acto bélico em espectáculo. Seria, nesse caso, o “show business” a suplantar-se à própria bestialidade da guerra.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3973 de 22 de Março de 2013.

