Este país não é para velhos… nem novos
Bernardo de Brito e Cunha
DURANTE ESTA SEMANA que agora acaba, no meio de estopadas consecutivas nos restantes canais passei, num exercício de zapping, pelo canal dois da RTP. Aí deparei, com alguma surpresa, com um programa de música, na circunstância com Paulo Gonzo. Dizia respeito ao seu último trabalho, um disco de duetos com outros nomes da música mais ou menos conhecidos. O que me surpreendeu, sobretudo, foi ter ouvido música popular na nossa televisão — e, mais ainda, que ela não fosse de nenhum dos membros do clã Carreira que, parece-me, detém o exclusivo televisivo nessa área. É que, em dois domingos consecutivos, num magazine da RTP 1 de gosto duvidoso e tolinho, e de muito product placement — pois essa é a melhor forma de diversas estrelas ganharem um par de sapatos de um designer de calçado conhecido, vernizes para as unhas ou um relógio, bastando aparecer e dar a cara num lançamento… — nesse magazine, ia dizendo eu, e em programas sucessivos, foi passada a reportagem do making of do último (e futuro grande êxito, garante o próprio, o que vem provar o que todos atestam sobre a sua modéstia…) single do cantor Carreira pai. E lá ouvimos a mesma história (triste) da canção, lá escutámos o quanto a cantora (canadiana, penso) que faz dueto com o português, o admira como cantor e como homem. Comovente, mas que pouco adianta para a nossa felicidade.
ENQUANTO ISSO, nós por cá todos na mesma. Os que estavam mal passaram a pior e os que estavam benzinho, esses, claro, estão benzinho na mesma, que o governo é amigo de quem tem posses. O nosso governo tem um verdadeiro elenco de artistas e não há telejornal em que não se ouça falar de “milagres económicos” (uma espécie de invocação da fé que alimenta Dona Maria Cavaco Silva), embora ainda esta terça-feira tenha ouvido o ministro Pires de Lima emendar a mão e dizer que a expressão era exagerada, “mas que todos perceberam” o que ele tinha querido dizer. Percebemos, pois: as eleições para a Europa estão aí à porta e tudo o que sirva para não descer umas migalhas nas sondagens não é de desprezar. O pior é que todos os comentadores políticos afectos ao PSD não poupam o Governo. Todos, sem excepção, não se cansam de zurzir no elenco governativo. E todos, mais adjectivo menos incompreensão, lá vão dizendo que a recuperação económica não se faz com os olhos nos números e a desprezar as pessoas. Em resumo, que as pessoas não são números: e têm fome, e falta de dinheiro para os remediozinhos, e para a escola dos miúdos. Ter um filho na escola não é aquela coisa maravilhosa (vemo-lo todos os dias e a toda a hora) que nos disseram que ia ser: é uma despesa acrescentada de que não nos tinham avisado e, sobretudo, parece ser um custo escusado e com destino já traçado, o de ter de procurar na estranja o posto de trabalho que aqui nem o canudo garante. E, como se dizia aqui há uns anos, “não foi para isto que se fez o 25 de Abril”. Pois não: mas vá lá Passos Coelho perceber isso? Enquanto andar preocupado com a mais recente invenção, o sorteio da PortugaFactura, não quer saber de mais nada que não seja pôr os portugueses (de quem disse, há dois anos, que viveram acima das suas possibilidades) a conduzir automóveis para os quais não têm capacidade financeira… É a coerência do discurso político português.
EU COMPREENDO aquilo que se designa por “sinergias de grupo” e que faz com que a notícia que vi num telejornal da véspera volte a ser mostrada no dia seguinte, sem mudar uma vírgula ou uma imagem. Mas estas sinergias têm vantagens. Imagine-se que eu queria ver as crianças do concurso de domingo à noite na TVI e não pude. Sem problema: na manhã de segunda e terça, pelo menos, o “Você na TV!” mostra todas as intervenções da criançada – com a inequívoca vantagem de nos poupar às (por vezes) penosas e pobres intervenções dos jurados.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Diz o povo, na sua imensa sabedoria, que “pela boca morre o peixe”. Foi o que aconteceu a Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal na TVI, a propósito da candidatura a Belém de Pedro Santana Lopes e, também, pela entrevista que este deu a um semanário. O ex-líder do PSD deveria saber que Santana Lopes não é rapaz para comer e calar: daí a que tenha respondido com todas as letras a Rebelo de Sousa, não na TVI, obviamente, mas na SIC e em quase todas as outras televisões. E todos nos lembramos, ou pelo menos aqueles que não esquecem, das coisas que Marcelo fez ou disse quando se preparava para concorrer à Câmara de Lisboa. Lembro-me que em princípios de Dezembro de 1989 (caramba!, isto já foi no século passado…), o “Jornal das 9” dava conta que “Marcelo Rebelo de Sousa cantara o fado”; que uma semana depois, a 15 de Dezembro, Marcelo Rebelo de Sousa – ah, que riqueza! – em plena campanha, disse, claramente para assustar os ainda em dúvida, que Jorge Sampaio faz o que diz o PCP e que a campanha teria sido entregue a quadros comunistas…»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4015 de 21 de Fevereiro de 2014.

