José Jorge Letria
Enquanto lamentamos a morte, infelizmente esperada e inevitável, de um grande escritor e gestor cultural chamado Vasco Graça Moura, poeta, tradutor, ficcionista e ensaísta de invulgar talento, há outras perdas a registar, algumas com forte pesar. É o caso da morte de Rui Mário Gonçalves, crítico e historiador de arte, cuja obra e vida deixaram marca profunda em muitas pessoas ao longo de várias décadas.
Rui Mário Gonçalves, irmão do pintor Eurico Gonçalves, morreu em Lisboa, aos 79 anos, vítima de um ataque cardíaco. O seu último acto público terá sido uma intervenção, mesmo no final de Abril, no auditório da SPA, recordando o trabalho e a vida de Maria Keil, na companhia de “Pitum”Keil do Amaral, filho da artista. Nesse dia, e recordo-o bem porque apresentei os dois oradores, fiquei a saber que Rui Mário estava emocionalmente muito debilitado devido ao muito frágil estado de saúde da mãe da sua filha. Nem vontade tinha de intervir, mas, com a sua experiência e saber, acabou por fazê-lo, com a elegância, o estilo e o bom gosto que sempre o caracterizaram, ainda que não se assumisse com um especialista na obra da pintora, desenhadora e criadora de azulejaria.
Não pude deixar de recordar o homem de pensamento e cultura com quem muitas vezes lidei ao longo de quase quatro décadas. Lembro-me que a sua formação académica foi feita na área das ciências e que só depois se especializou na História de Arte, integrando-se no grupo de que fizeram ou fazem ainda parte José-Augusto França, Fernando de Azevedo, Fernando Pernes e outros. Estudou os artistas e as suas obras, escreveu livros, deu aulas, fez uma brilhante carreira académica e nunca deixou de ser um homem progressista, alinhado com os grandes valores da mudança social e política operada com o 25 de Abril de 1974 e com a luta dos que o preparam e tornaram triunfante.
Em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Autores, Rui Mário Gonçalves integrou júris e falou sobre grandes criadores das artes visuais, o que aconteceu, por exemplo, na sessão dedicada recentemente com o pintor e desenhador surrealista Cruzeiro Seixas , que evocou na companhia de António Sampaio da Nóvoa, ainda reitor da Universidade de Lisboa. Foi um memorável momento de partilha com o público, tendo o próprio homenageado feito uma intervenção excepcional pelo humor, pelo sentido crítico e pela sabedoria acumulada ao longo de mais de nove décadas de vida.
Rui Mário entrou para a docência da Faculdade de Letras de Lisboa em 1974, tendo-se jubilado como professor catedrático no Departamento de Literaturas Românicas. Muito antes, na Faculdade de Ciências, organizou, como dirigente associativo, em 1959, uma exposição histórica sobre a pintura não figurativa portuguesa.
Depois de ter fundado, com José-Augusto França, a secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte, Rui Mário Gonçalves desenvolveu uma actividade que nunca o fez pensar em desistir, colaborando regularmente em várias publicações. Numa delas, o JL, onde fui editor, contactámos com alguma frequência, sendo sempre intensa a marca da sua presença, do seu estilo de escrita, do seu fino humor e do seu amor à arte.
Várias vezes lhe sugeri que publicasse um livro de memórias falando da arte e dos artistas com quem lidou durante décadas. Costumava responder que esse dia ainda não tinha chegado e que tinha dúvidas quanto à sua concretização, mas que a porta permanecia aberta para concretizar esse projecto.
Sereno, invulgarmente lúcido, amigo do seu amigo, Rui Mário Gonçalves era visto e respeitado como um grande crítico e um historiador de arte que influenciou profundamente os que chegaram mais tarde.
Como a idade não deixava nele os sinais do envelhecimento, foram-se adiando homenagens e outros justos actos de consagração. Só a sua morte súbita os torna agora inevitáveis e imensamente merecidos. Partiu um grande homem de cultura, crítico, ensaísta, homem de princípios e de valores cuja saída de cena empobrece ainda mais a cultura portuguesa.
Crónica publicada no Jornal de intra, ed. 4026 de 9 de Maio de 2014

