O primeiro-ministro Sol
Bernardo de Brito e Cunha
CONFESSO que não entendi bem a razão por que Pedro Teixeira haveria de ter entrado aos gritos na primeira emissão de “Rising Star”. Nervoso miudinho? Ora, o rapaz já tem anos de experiência de sobra para se deixar intimidar por uma coisa daquelas. Terá sido então a emoção de trabalhar com Leonor Poeiras? Estava a brincar, caramba, já não se pode? Onde (e quando e porquê, já agora) é que a moça está habilitada a provocar distúrbios dessa grandeza? E mesmo que estivesse, não esqueçamos que Pedro Teixeira já andou pelos braços de Liliane Marise que, para além de ser uma coisa completamente diferente, pertence a outro campeonato, como soe dizer-se. Mas não era nada disso – e só o percebi lá mais para a frente. É que ele, ao contrário de quem via em casa, já conhecia os concorrentes e sabia como grande parte deles era completamente burgesso. E foi pena que um programa inovador – no sentido em que, ao contrário do que é costume, não se pede às pessoas que paguem uma chamada para votar e, igualmente importante, em que as famílias e fãs não podem gastar “fortunas” em telefonemas repetidos, pois só um vale – fosse minado por isso. Mas tirando esse pormenor não vejo motivos para a hiperactividade de Pedro Teixeira.
FOI NO DOMINGO, também, que Pedro Passos Coelho anunciou que a saída do sistema de apoio da troika seria “limpa”. A coisa podia ter-se limitado a isto, estilo telegrama, mas Coelho sabe que tem umas eleições à porta e outras daqui por um ano. Vai daí, toca de dar graxa aos cidadãos dizendo que o êxito da limpeza desta saída era dos portugueses que nos últimos anos se sacrificaram como ninguém – mas uns mais do que outros, convenhamos. Veja-se como Cavaco vai recuperar 2200 euros da sua reforma (e bem falta lhe fazem, como se lamentou a seu tempo) mas outros pensionistas recuperarão apenas 3 euros por mês… A vida é feita de pequenos nadas, como diria o Sérgio Godinho, só que este não é um pequeno nada. Mas aquelas loas ao povo português soaram a uma variante (até pela insistência) à frase de Luís XIV, ou atribuída a ele, pelo menos, “O Estado sou eu”: Passos Coelho parecia estar mesmo a dizer “O povo português sou eu – e mereço todos os créditos”. Mas não está só: a seu lado, parecendo por vezes estar a falar sozinho, estava Paulo Portas. Certamente passava em revista as comemorações do novo 1.º de Dezembro – que já nem feriado é – cujas festividades ele próprio agendou para o próximo dia 17 de Junho, perdão, Maio. A data do relógio CDS já foi corrigida, Paulo Portas é que ainda não se enxergou.
VI, COM UM OLHO aberto e outro fechado, o “Vale Tudo” da SIC. Que, como já aqui escrevi, pode ser um programa que nos poderá distrair e até fazer esboçar um sorriso, circunstância esta que está bastante dependente de quem são os convidados e as equipas. É portanto um programa ligeiro, de entretenimento sem consequências. Para a última edição foi convidado Diogo Morgado. Aqui, faço uma breve pausa para reconhecer que sei o que é isso de “actores da estação”, que são geralmente chamados a integrar outros programas que não aqueles para que se encontram a trabalhar ou em exibição. O “Vale Tudo” não convida gente da TVI e a inversa é verdadeira. A excepção, neste campo, é (teria de ser) a RTP, que convida toda a gente. Independentemente disto, acontece que qualquer que seja a nossa opinião sobre Diogo Morgado, quer gostemos de o ver na novela ou não, a verdade é que Diogo já não é um actor qualquer: é conhecido aqui e, mais importante ainda para a sua carreira, nos Estados Unidos. E não me parece que, em nome da “equipa SIC” ou do punhado de euros que, eventualmente lhe ofereceram, ele se devesse dar ao luxo de integrar concursos e passatempos como este, em que se fazem, as mais das vezes, figuras um pouco tontas: porque tem, felizmente, uma imagem a defender. O que não fez.
UMA ESPÉCIE de post scriptum: foi com o maior prazer estético (e nem sequer anti-patriótico) que tomei conhecimento que a canção (?) “Quero Ser Tua” foi eliminada esta terça-feira na pré-selecção para o Festival da Eurovisão. Alguém teria de dar um tiro e atirar o submarino ao fundo. Os portugueses espalhados por essa Europa podem ter tido que sair do país mas não ensurdeceram.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Também me deixa preocupado a mais recente “invenção” da RTP, no canal 1, às segundas-feiras à noite. Chama-se “Uma Boa Aposta” e foi produzido pela D&D para a Santa Casa da Misericórdia. Daqui se concluem rapidamente duas ou três coisas: que a extracção da lotaria e do loto 2 se transferiram do canal 2 para o 1; que Serenella Andrade ficou sem trabalho, ela que era a alegria das extracções; e terceiro, que Luís Andrade, director de programas, deve ter decidido adoptar os dois irmãos Romero, Merche e Óscar. Para quê é que não se sabe nem percebe. Dizia a promoção que eles eram “contagiantes”: a mim pareceram-me mais… contagiosos.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de intra, ed. 4026 de 9 de Maio de 2014

