O (verdadeiro) triunfo dos porcos
Bernardo de Brito e Cunha
NÃO SEI BEM que dizer deste campeonato do mundo ou, pelo menos, da prestação da selecção nacional. Sei que sofremos para nos qualificarmos – à semelhança de outros campeonatos anteriores, mundiais e europeus – mas sofrer mesmo até à última, a contar os golos e os pontos e a dependermos, as mais das vezes de terceiros e desgraças afins. A verdade é que, depois de nos qualificarmos, Ronaldo afirmou ter um feeling de que este podia ser o ano de Portugal. Mais ainda: posto perante o jogo com a Alemanha, com quem não ganhamos há uma cabazada de anos, Ronaldo disse que era chegada a altura de a História mudar. E mudou: 4-0, que é para figos, um resultado que nunca fora tão expressivo e, ainda por cima três ou quatro lesões: Fábio Coentrão, com tanta gravidade que voltou mais cedo, Hugo Almeida e, já no final Rui Patrício que terminou com limitações.
AO FIM do segundo jogo – um empate com os Estados Unidos – e mais duas lesões (qualquer delas antes dos 45 minutos, André Almeida e Hélder Postiga) com Varela a salvar a honra do convento, como já fizera em duas ou três ocasiões anteriores, uma delas (salvo erro) na África do Sul. E findo esse empate que era imperativo ganhar, Cristiano Ronaldo achou que devia falar. E disse coisas como “Nunca pensei que podia ser campeão do mundo, sinceramente. Temos de ser humildes e reconhecer a capacidade que temos” (…) “Se analisarem a qualificação, o play-off, não há milagres. Por isso sabíamos que íamos ter uma fase de grupos complicada” (…) “Selecção média? Se calhar, sim. Seria mentir da minha parte se dissesse que éramos uma selecção de “top”“ (…) “Há que levantar a cabeça, perceber que há melhores selecções do que a nossa e jogadores melhores do que nós”.
ISTO SOA a uma verdade de La Palisse: o play-off foi difícil? Claro. Fase de grupos complicada? Tirando a Alemanha, onde está a complicação? No Gana, que à hora a que escrevo ameaça não jogar por uma questão de prémios ou lá que dinheiros são? Nos Estados Unidos, contra quem não soubemos jogar, a quem deixámos um corredor inteiro onde só faltou colocar uma passadeira vermelha? E depois temos aquela frase infeliz, “há melhores jogadores melhores do que nós”, que só pode implicar os colegas de equipa, porque… ele é o melhor jogador do mundo!
ACHO QUE isto merece um estudo que já vai atrasado. Tanta lesão tem de ser explicada – em língua de gente – pelo médico da selecção Henrique Jones, tão fracos resultados precisam de ser esclarecidos por Paulo Bento, mas Humberto Coelho já veio dizer que não vê necessidade de rescindir contrato com Paulo Bento. E com os jogadores, a coisa muda de figura? E arrastam um país para isto, e uma televisão que se bateu pela transmissão dos jogos – trouxas! – e uma caterva de comentadores e jornalistas… Ora haja dó!
ALEGRIA, mesmo, foi a de ver regressar Fernando Mendes e o seu “Preço Certo”. “Seu” porque ninguém o faz como ele. E se na última segunda-feira o programa era gravado (e da altura do Carnaval), na terça já foi feito em directo. Está em forma, como sempre, este Fernando. Tal como o outro, o Fernando Santos, que acabou por conseguir fazer passar a equipa da Grécia aos oitavos de final, contra todas as expectativas. E isso é que é fazer das fraquezas forças, comer a relva e tudo o que se costuma dizer nestas ocasiões.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Último domingo, jogo de Portugal contra a Espanha, coisa decisiva, etc e tal, toda a gente sabe. Transmissão na TVI e, surpresa das surpresas, nos comentários está o treinador José Mourinho, personagem com quem não simpatizo (talvez por ganhar muitos campeonatos…) e que me parece ter, às vezes, portes um pouco ridículos. Mas a verdade é que, sem lhe ver a cara e ouvindo apenas a sua voz e o teor dos comentários, tenho de dar a mão à palmatória. Mourinho explicou a quem ouvia – e quase sempre sem recurso ao futebolês que é vulgar nos comentadores das televisões – como as coisas são. Se, por uma vez, enveredou por aquela coisa muito em moda que é o futebol horizontal e vertical e, outra, pela “tensão grupal”, tenho de admitir que nos momentos finais do jogo José Mourinho foi quase bruxo. Refiro-me à altura em que Portugal tem um canto para marcar e Mourinho diz qualquer coisa como “neste momento há que manter a bola e fazer passar o tempo: o mais conveniente seria marcar o canto à maneira curta, ganhar um ressalto e já lá iam 30 segundos.” E não é que o canto é marcado à maneira curta e que Portugal consegue que, num ressalto, a bola saia pela linha lateral? É certo que ele tinha uma vantagem muito especial: cinco dos jogadores, o que é praticamente meia equipa, eram seus ex-jogadores do FC Porto. E alguns desses ex-futuros…»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4033 de 27 de Junho de 2014.

