Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Os caminhos ínvios da televisão pública

Bernardo de Brito e Cunha

CONFESSO que não entendi bem a razão por que Rui Drumond (parece que o apelido já teve dois “m” mas agora só tem um) haveria de ter entrado no programa da RTP que acabou no passado domingo, “The Voice Portugal”, desta vez com nome em inglês. É que, se bem se lembram, já houve uma edição em que o nome era em português: “A Voz Portugal”, mas isso agora não vem ao caso. O caso, esse sim, é perguntar o que fazia lá o nosso Rui? Não sei, confesso a minha ignorância. Como também não conheço o regulamento da coisa, embora sempre tenha imaginado que este tipo de programas se destina a descobrir os jovens talentos que ainda não emigraram para o estrangeiro, conforme aconselhado pelo nosso primeiro-ministro e ilustre habitante do concelho. É que o nosso Rui (e o nosso está completamente apropriado, uma vez que ele é, desde domingo, a voz de Portugal) que já não é tão jovem assim, até tem uma carreira na música, construída nos primeiros anos deste ainda jovem século. E se não, vejamos: em 2003 ou 2004 estava ele num outro programa da RTP, esse sim, coisa séria, que dava pelo nome de “Operação Triunfo”. E ele aproveitou o lado sério dessa primeira série do programa que era uma escola, com professores e tudo – vejam só ao tempo que isto foi e como as coisas mudaram entretanto…

E APROVEITOU tanto ou tão pouco que, embora não tenha vencido a série em que participou, isso lhe permitiu duas coisas e nenhuma delas despiciendas: construir uma carreira, que mantém, como ter participado no Festival da Canção de 2005, com a canção “Amar” e integrando o duo “2 B” que julgo que se deve ler “to be” (que deveria querer significar “a ser”) duo esse em que a outra metade era uma tal Luciana, que hoje se assina com o apelido de Abreu. E tanto era “a ser” que não passaram das eliminatórias: 17.o classificado entre 25 concorrentes. Apesar de não ter sido um dos finalistas dessa “Operação Triunfo” (foi eliminado na antepenúltima gala), Rui Drumond é um dos poucos concorrentes que conseguiu tornar-se cantor profissional, tendo ganho grande destaque como cantor residente do programa “Dança Comigo”, também da RTP1. Para além disso também fez parte do coro do programa “Nasci para Cantar”, da TVI e mais tarde do programa “Dança Comigo no Gelo”. Conta com uma participação especial na telenovela “Ilha dos Amores”, da TVI. Deu voz a vários anúncios de televisão e fez locução, juntamente com Teresa Radamanto, no programa “Geração Net” do canal Panda Biggs. Realiza com frequência espectáculos ao vivo em diversos bares com o seu grupo “Rui Drumond and Friends”. Que quer mais este rapaz, que já não o é?

APARENTEMENTE quer mais. Tanto, que no seu blog o cantor publicou uma mensagem de apelo, antes da final de domingo e que dizia assim: “Meus amigos, aproxima-se mais um grande desafio para mim, uma grande etapa, um grande passo neste meu percurso no The Voice Portugal. Sei que para muitos ainda se torna difícil perceber o porquê da minha participação, mas acreditem que eu preciso e quero muito isto.
Neste próximo domingo vou precisar muito do vosso apoio e de todos os votos possíveis, sei que nos momentos difíceis que todos passamos neste país actualmente, é difícil gastar em programas de televisão, por isso peço, nas capacidades de cada um vós… peço esse voto ou esses votos.
Preciso muiiiiiito de todos vocês e de sentir essa energia positiva, que eu estarei em palco a cantar para vocês com toda a minha energia, dedicação e coração.”
Repararam naquele “para muitos ainda se torna difícil perceber o porquê da minha participação, mas acreditem que eu preciso e quero muito isto.”? Pois. Eu também gostava de perceber…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Liga a gente um aparelho de televisão e lá estão elas, as repetições. Mais ou menos inesperadas, que as televisões não têm sequer o bom senso de nos avisar que o são, um pouco disparatadas e perfeitamente dispensáveis, dada a qualidade dessas repetições. Infelizmente, do ano passado transitou para este Verão quente essa novela de contornos maquiavélicos que dá pelo nome de incêndios. E portanto, ainda marcados pelos capítulos pungentes que vimos o ano passado, que tenhamos criado este hábito de nos sentarmos a ver os noticiários já com os olhos rasos de lágrimas, mesmo antes de surgirem as imagens, as labaredas, os gritos de angústia e desespero de quem viu arder tudo quanto tinha – e as mais das vezes tinha muito pouco – num instante tão breve. E a azáfama de quem combate é semelhante à de quem noticia, numa roda-viva entre fogos e reacendimentos.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4037/8 de 1 de Agosto de 2014.

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