José Jorge Letria
Mário Vargas Llosa é um dos grandes nomes da literatura mundial das últimas décadas, a par de Gabriel Garcia Marquez e de alguns mais. O Prémio Nobel da Literatura (mais um para escritores de língua espanhola) foi-lhe atribuído quando já não se contava com ele. Para tanto contribuiu o facto de ter sido superada a querela ideológica que durante muitos anos o manteve à margem de um círculo literário internacional claramente marcado pelo marxismo e pelas suas simpatias e solidariedades naturais. O autor de “Cem Anos de Solidão”, amigo de Fidel Castro, foi um dos pilares desse poder e também um escritor genial.
Por fim o Nobel chegou, e chegou muito justamente para distinguir um grande ficcionista, mas também um brilhante ensaísta e um docente universitário de mérito. O que Llosa hoje escreve sobre as contradições corrosivas da nossa sociedade vai muito mais longe do que foram ou vão vários escritores progressistas. Basta ler o que diz no seu acutilante “A Civilização do Espctáculo”, já traduzido em Portugal e contendo reflexões contundentes e profundas sobre o mundo que o chamado Ocidente construiu e de que se encontra política, social e mediaticamente refém.
Aos 78 anos, este mestre incontestado das grandes narrativas e também um verdadeiro especialista na forma de integrar o erotismo e a memória autobiográfica nos seus textos, veio a Lisboa para receber o doutoramento “honoris causa” da Universidade Nova de Lisboa, tendo o texto de fundo sobre a sua obra sido lido pelo poeta Nuno Júdice, docente daquela universidade. Llosa concedeu várias entrevistas, todas elas marcadas pela solidez da sua inteligência e grande erudição. Numa dessas entrevistas disse aquilo que resume o essencial do seu pensamento crítico sobre esta sociedade e este tempo. A saber: “A grande criação cultural, política moderna que é a União Europeia vive hoje em dia uma crise muito profunda” ou “O inimigo maior da democracia é o desaparecimento da cultura enquanto questionamento da realidade”. Duas frases fundamentais sobre um tempo confuso, mistificado, de sórdidas cumplicidades e interesses em que a literatura em particular e a cultura em geral são encaradas pelos editores e produtores como algo que, ao contrário do que sempre defenderam escritores como o genial Franz Kafka, não deve incomodar as pessoas, fazê-las pensar e semear nelas um legítimo desassossego sobre o estado do mundo e das nossas consciências. Hoje, a literatura, como de resto tem sido denunciado em livros e filmes, é entendida como algo que não deve falar da morte, dos desespero, da luta pela resistência moral, já que isso semeia desconforto e forte inquietação. É por isso que o panorama cultural português e europeu é o que é e estar como está, com os livro de “auto-ajuda” a serem muito mais publicados e promovidos que a literatura de qualidade que problematiza, interroga e desassossega.
Llosa disse isto e muito mais colocando a tónica do seu retrato-diagnóstico na brutalidade da corrupção que tudo mina e consome, desde o poder do Estado até ao poder excessivo do capital financeiro e dos mercados cuja miséria está hoje amargamente patente para quem ainda possa ter algumas dúvidas.
“A corrupção contribuiu muitíssimo para o desprestígio da política. Isso fez com que movimentosanti-sistema, extremistas, tanto de direita como de esquerda tenham crescido muito. Esse perigo há que enfrentá-lo de forma muito resoluta, com a maior transparência, castigando os corruptos, devolvendo à opinião pública a fé nas instituições, que é algo fundamental para que uma cultura democrática funcione”-disse o Nobel da Literatura, que foi candidato à presidência do Peru, sua pátria, na entrevista concedida ao “Público”. E assim ficou quase tudo dito por alguém que semeia rigor e clareza naquilo que pensa e sente neste tempo de desassossego, incerteza e ausência de valores duráveis e estruturantes.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4037/8 de 1 de Agosto de 2014.

